Grego Narrando
Depois de quinze dias longe do morro, a primeira coisa que faço ao estacionar o carro é respirar fundo. Casa é casa!
Capitólio foi do c*****o. Água limpa, cachoeira, mulher, lancha, cerveja gelada e paz. Paz de verdade, coisa que eu quase nunca tenho. Mas, por mais que eu goste de viajar, não nasci para ficar parado. Depois de alguns dias, já estava com saudade da correria, dos meus irmãos e até dos problemas que me esperavam aqui.
Desço do carro e cumprimento a rapaziada que está na contenção.
— E aí, Grego! Voltou, p***a!
Dou risada e abraço um de cada vez.
— Voltei. Já tava ficando doido sem fazer nada.
Entro na boca e encontro o movimento de sempre. Rádio chiando, gente entrando e saindo, dinheiro sendo contado, gerente prestando conta... Tudo exatamente como deixei. Pergunto por ele e me respondem logo.
— Tá na sala.
Bato duas vezes na porta antes de entrar, mas ele nem levanta a cabeça. Continua conferindo umas folhas espalhadas pela mesa.
— Acabaram as férias de princesa?
Dou risada.
— Tu sentiu minha falta.
Ele balança a cabeça negativamente.
— Nem um pouco.
Puxo uma cadeira e me sento na frente dele.
— Mentira.
Ele finalmente ergue os olhos, a gente se encara por dois segundos e depois cai na risada. Era sempre assim, a gente se conhece desde moleque, então não precisa de muita cerimônia.
— E aí? — ele pergunta. — Aproveitou?
— Aproveitei pra c*****o.
Começo a contar da viagem. Das cachoeiras, dos passeios de lancha, da comida, da bagunça e das mulheres que conheci por lá. Ele escuta tudo enquanto continua assinando alguns papéis. Quando termina, fecha a pasta e se levanta.
— Bora almoçar.
Seguimos até o restaurante onde costumamos comer quando queremos fugir da bagunça da boca. Fizemos os pedidos e continuamos conversando. Percebo que ele ri nas horas certas, faz perguntas e presta atenção... mas tem alguma coisa diferente. Conheço aquele jeito. Ele está com a cabeça longe.
— Fala.
Ele me olha.
— O quê?
— Tu tá estranho.
— Tô normal.
Dou uma risada.
— Tu mente muito m*l.
Ele abaixa os olhos para o copo de refrigerante e fica girando o gelo com o canudo. Aquilo já é resposta suficiente.
— Aconteceu alguma merda enquanto eu tava fora?
Ele fica alguns segundos em silêncio. Depois responde.
— Tu vai achar que eu tô ficando maluco.
Dou uma gargalhada.
— Dependendo da história...
Pela primeira vez desde que sentei ali, ele sorri de verdade. Mas o sorriso dura pouco.
— Tem uma mulher que manda mensagem pra mim.
Franzo a testa.
— Tá... e qual o problema?
— Ela faz isso há dois anos.
Meu sorriso desaparece.
— Como é?
— Dois anos.
— A mesma mulher?
— A mesma.
— Tu pegou ela alguma vez?
Ele n**a.
— Nem sei quem é.
— Já viu foto?
— Nunca.
— Ligação?
— Nunca.
— Nome?
— Também não.
Fico encarando a cara dele sem acreditar.
— Pera aí...
Inclino o corpo sobre a mesa.
— Tu tá me dizendo que existe uma mulher que passa dois anos falando contigo... e tu nunca comentou isso comigo?
Ele dá de ombros.
— Porque eu nunca respondi.
— Até agora?
Ele confirma com a cabeça.
— Respondi essa madrugada.
Sinto um arrepio subir pela nuca. Não pela mulher, mas porque conheço aquele homem desde moleque, ele nunca perde tempo com ninguém. Nunca! Se respondeu... é porque alguma coisa aconteceu.
— Tá...
Cruzo os braços.
— Agora tu vai me contar essa história desde o começo. Sem esconder absolutamente nada.