No início, Giulia tentou convencer a si mesma de que aquilo era normal.
A mansão era grande. Silenciosa. Organizada. As pessoas eram educadas. Ninguém gritava. Ninguém a humilhava. Ninguém a diminuía em voz alta. Depois de tudo o que vivera, aquilo parecia… suportável.
Mas, aos poucos, algo começou a incomodá-la.
Não era um gesto específico. Nem uma palavra isolada. Era a soma de pequenas coisas que, juntas, formavam um peso difícil de ignorar.
O tempo deixou de ser dela.
As refeições tinham horário fixo. Os passeios pelos jardins aconteciam sempre nos mesmos trajetos. Os corredores permitidos tornaram-se previsíveis demais. Sempre havia alguém por perto — não colado, não ostensivo — apenas presente.
Observando.
Giulia percebeu isso quando tentou ir à biblioteca fora do horário habitual.
— Agora não — disse um dos homens da casa, educado, porém firme.
— Por quê? — ela perguntou.
— Não é o melhor momento.
Ela assentiu, mas sentiu algo apertar no peito.
Momentos começaram a ser decididos por outros.
Sentada na poltrona do quarto naquela tarde, Giulia encarava a janela aberta. O vento balançava suavemente as cortinas, trazendo o cheiro distante do jardim. Tão perto… e ainda assim inalcançável.
— Você está quieta demais — observou Lorenzo, entrando sem fazer barulho.
Ela virou o rosto em direção a ele.
— Estou pensando.
Ele sentou-se à frente dela, mantendo a distância habitual.
— Em quê?
Giulia hesitou antes de responder.
— Em como tudo aqui parece calmo… mas não é leve.
Lorenzo a observou por alguns segundos.
— Calma e leveza não costumam coexistir no nosso mundo — respondeu.
— Eu sei — ela disse. — Mas também sei reconhecer quando estou sendo observada o tempo inteiro.
O olhar dele se intensificou.
— Isso não é vigilância — afirmou. — É cuidado.
A palavra caiu pesada entre eles.
Giulia respirou fundo.
— Foi o que sempre disseram antes — murmurou.
Lorenzo franziu levemente o cenho.
— Antes, ninguém se importava se você sobreviveria — disse. — Aqui, sim.
Ela se levantou, caminhando até a janela.
— Sobreviver não é viver — respondeu, sem se virar.
O silêncio que se seguiu foi denso.
— Matteo está exagerando — Lorenzo disse por fim. — Ele… reage m*l quando sente que algo escapa do controle.
— E eu pago por isso — Giulia respondeu.
Lorenzo não negou.
Naquela noite, Giulia decidiu caminhar pelo jardim interno sozinha.
Não por desafio.
Por necessidade.
Precisava sentir que ainda podia escolher alguma coisa.
Caminhava devagar entre as plantas, respirando fundo, quando ouviu passos firmes atrás de si.
Não se assustou.
Já esperava.
— Onde você pensa que vai? — a voz de Matteo veio baixa, tensa.
Ela se virou.
— Estou andando.
— Sozinha — ele completou.
— Ainda estou dentro da propriedade — respondeu. — Não ultrapassei nenhum limite.
Matteo se aproximou, o olhar escuro, intenso.
— Limites não são visíveis — disse. — São sentidos.
— E você decide quais são? — ela perguntou.
O maxilar dele se contraiu.
— Eu decido o que mantém você segura.
— Isso não é segurança — Giulia disse, sentindo a coragem crescer. — É confinamento.
A palavra pairou no ar.
— Você não entende — Matteo respondeu. — Lá fora, você é vulnerável.
— Eu sempre fui — ela rebateu. — E sobrevivi.
— Por sorte — ele disse. — Aqui, não conto com sorte.
Ela balançou a cabeça.
— Eu não posso continuar vivendo como se estivesse prestes a cometer um erro só por existir.
Matteo deu mais um passo, diminuindo a distância entre eles.
— Você não está presa — disse. — Está protegida.
— Não posso sair sozinha. Não posso conversar. Não posso decidir — Giulia respondeu. — Como isso não é uma prisão?
O olhar dele vacilou por um instante quase imperceptível.
— Prisões mantêm pessoas vivas — disse, enfim. — Liberdade mata.
As palavras a atingiram em cheio.
— Eu vivi trancada a vida inteira — ela disse, sentindo a voz falhar. — Não atravessei tudo aquilo para trocar uma jaula por outra… só porque esta é mais bonita.
O silêncio caiu pesado.
Matteo desviou o olhar por um breve segundo.
— Você não sabe o que está em jogo — disse, mais baixo.
— Então me diga — ela pediu. — Ou confie que eu consigo entender.
Ele voltou a encará-la.
— Não — respondeu. — Eu confio que você é o ponto fraco.
O peito dela apertou.
— E pontos fracos… — ele continuou — precisam ser contidos.
Giulia respirou fundo.
— Não sou fraca.
— Eu sei — Matteo respondeu. — É isso que me preocupa.
Ela deu um passo para trás.
— Vou voltar para o quarto.
— Eu acompanho — ele disse.
— Não — ela respondeu, firme. — Eu vou sozinha.
Matteo ficou imóvel por alguns segundos.
— Se sair agora — ele disse, em tom baixo —, não volte esperando que tudo continue igual.
Giulia o encarou.
— Talvez não devesse continuar igual.
E virou-se.
Cada passo foi um desafio. Um ato de resistência silenciosa.
Quando entrou no quarto e fechou a porta, as pernas cederam.
Encostou-se à madeira, respirando com dificuldade.
Não havia gritos.
Não havia punição imediata.
Havia algo pior.
Distância.
Naquela noite, nenhum dos dois dormiu no quarto.
A cama parecia maior. Mais fria.
Giulia chorou em silêncio — não de medo, mas de cansaço.
O dia seguinte trouxe mudanças sutis.
Portas que antes ficavam abertas agora eram fechadas. Olhares mais atentos. Passos mais próximos.
— Isso vai passar — disse Lorenzo, encontrando-a sentada à mesa do café. — Ele só precisa de tempo.
— Tempo para quê? — Giulia perguntou.
Lorenzo hesitou.
— Para aceitar que não pode controlar tudo.
Ela soltou um riso sem humor.
— E até lá?
— Até lá… — ele suspirou — você precisa ter cuidado.
A palavra voltou a incomodá-la.
Mais tarde, no corredor, Giulia encontrou Matteo.
Eles pararam frente a frente.
— Você cruzou um limite ontem — ele disse.
— Você também — ela respondeu.
O olhar dele desceu até a corrente dourada em seu pescoço.
— Use isso — ele ordenou.
— Não — Giulia respondeu.
— Não é um pedido.
— Então não vou obedecer — ela disse, sentindo o coração disparar.
O silêncio foi absoluto.
Matteo se aproximou lentamente.
— Enquanto usar — disse — você lembra a quem pertence.
Giulia segurou a corrente.
— Eu não pertenço a você.
Por um instante, o olhar dele pareceu… ferido.
Então endureceu.
— Ainda — ele respondeu.
Ela deu um passo para trás.
— Eu sou uma pessoa. Não um território.
Matteo permaneceu imóvel.
— Territórios são defendidos — disse, por fim.
Naquela noite, Giulia percebeu algo assustador.
A mansão era segura.
Luxuosa.
Silenciosa.
Mas começava a se fechar ao redor dela.
E o homem que dizia mantê-la a salvo…
Era o mesmo que trancava a porta.
Cliffhanger final:
Giulia tentou resistir à prisão invisível.
Mas não percebeu que sua resistência estava despertando o lado mais perigoso de Matteo — aquele que não aceita perder.