Capítulo 4 — O Ciúme do Assassino

1145 Palavras
Giulia percebeu antes de ouvir. Não foi um som, nem um movimento claro. Foi a mudança no ar. Uma pressão silenciosa, densa, que se espalhou pela mansão como um aviso invisível. Os passos dos homens ficaram mais rápidos. As conversas cessaram quando ela passou. Olhares foram desviados com cuidado demais. Ela caminhava pelo corredor que levava ao jardim interno quando sentiu. Estava sendo observada. Parou instintivamente. — Continue andando. A voz veio atrás dela. Baixa. Controlada. Perigosa. Giulia se virou devagar. Matteo estava a poucos metros, encostado próximo à escada. O terno escuro ajustava-se perfeitamente ao corpo, e a expressão dele era fechada, dura, como se algo tivesse sido quebrado dentro dele… ou estivesse prestes a ser. — Eu só queria um pouco de ar — disse Giulia, com cuidado. Os olhos dele desceram lentamente pelo corpo dela. Não havia desejo explícito ali. Havia cálculo. — Ar não é o que você procura — ele respondeu. — É distância. Ela sentiu o estômago apertar. — Não estou tentando fugir — afirmou. — Só— — Você sorriu — ele interrompeu. Giulia piscou, confusa. — O quê? Matteo deu um passo à frente. — No jardim — continuou. — Você sorriu para ele. — Para quem? — O homem que estava com as flores. — O jardineiro? — Giulia perguntou, sem entender. — Eu só agradeci pela água. O silêncio dele foi mais ameaçador do que um grito. — Educação — ela completou, sentindo-se obrigada a explicar. — Foi só isso. Matteo riu, curto, sem humor. — Educação cria a******a — disse. — E a******a cria erro. — Eu não fiz nada de errado — respondeu, sentindo algo novo crescer dentro do peito. Algo que não era medo. — Eu só fui gentil. O maxilar dele se contraiu. — Gentileza não é necessária aqui. — Então o que é necessário? — ela ousou perguntar. Os olhos dele escureceram. — Obediência. A palavra caiu como um golpe seco. Giulia respirou fundo. — Isso não é justo. — Justiça não existe no nosso mundo — Matteo respondeu. — Existe controle. Antes que ela pudesse responder, uma voz ecoou do topo da escada. — Já chega. Lorenzo descia os degraus com passos firmes, o olhar atento, calculista. Parou ao lado de Giulia, não tocou nela, mas sua presença era clara. Deliberada. — Você está exagerando — disse, dirigindo-se ao irmão. — Estou atento — Matteo rebateu. — Existe diferença. — Existe limite — Lorenzo corrigiu. — E você está cruzando. Giulia sentiu o coração bater forte entre eles. — Eu não pertenço a nenhum de vocês — disse, antes que pudesse se impedir. O silêncio caiu pesado. Matteo foi o primeiro a reagir. Ele riu. — Ainda não entende — disse, aproximando-se novamente. — Aqui, tudo pertence a alguém. — Não sou uma coisa — ela respondeu, a voz firme apesar do medo. — Não — ele concordou. — Você é um risco. As palavras doeram mais do que qualquer insulto. — E riscos — ele continuou — precisam ser controlados. — Ou protegidos — Lorenzo interferiu. — Não confunda — Matteo retrucou. — Você também sente. Só finge que não. O olhar de Lorenzo endureceu. — Eu sei a diferença entre sentir e perder o controle. Matteo voltou-se para Giulia. — Ele se esconde atrás da razão — disse. — Eu não. Ela sentiu um arrepio profundo. — Eu não pedi para ser o centro disso — disse, finalmente. — Eu sei — respondeu Lorenzo, com sinceridade. — Mas agora é. Mais tarde, no escritório, o clima era tenso. Giulia estava sentada à frente da mesa, as mãos pousadas no colo. Matteo permanecia encostado na parede. Lorenzo, atrás da mesa, analisava relatórios sem realmente lê-los. — O que aconteceu hoje não vai se repetir — disse Lorenzo, sem levantar o olhar. Giulia respirou aliviada. — Obrigada. — Não agradeça — Matteo disse. — Não foi um favor. Ela ergueu o rosto para ele. — Então o que foi? Ele se aproximou, parando a poucos passos. — Um aviso. — Para mim? — ela perguntou. — Para todos — respondeu. — Você não é invisível. O silêncio voltou a se espalhar. — Eu só quero entender — disse Giulia, com esforço. — Por que isso incomodou tanto? Matteo sustentou o olhar dela por longos segundos. — Porque você não percebe o que representa — disse. — Um gesto seu vira mensagem. Um sorriso seu vira convite. — Eu não convidei ninguém. — Não importa — ele respondeu. — Eles interpretam. — Então a solução é eu parar de existir? — ela questionou. O olhar dele vacilou por um segundo. — A solução — disse, mais baixo — é você lembrar onde está. Lorenzo fechou a pasta com força controlada. — Chega — disse. — Isso não vai virar ameaça. — Não é ameaça — Matteo retrucou. — É realidade. Giulia levantou-se. — Eu vou para o quarto. — Eu vou com você — Matteo disse imediatamente. — Não — Lorenzo respondeu ao mesmo tempo. Os dois se encararam. — Ela precisa de espaço — Lorenzo completou. — Espaço cria erro — Matteo rebateu. Giulia sentiu o peso daquela disputa. — Eu posso ir sozinha — disse, mesmo sabendo a resposta. — Não — disseram os dois. Ela fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, Lorenzo falou: — Eu acompanho até a porta. Matteo não contestou, mas o olhar que lançou para Giulia foi intenso demais para ser ignorado. No quarto, Giulia caminhou até a janela. — Ele não sabe lidar com isso — disse Lorenzo, após alguns segundos. — Com o quê? — ela perguntou. — Com perder — respondeu. — Com sentir. Ela riu sem humor. — E eu? — questionou. — Onde fico nisso? Lorenzo se aproximou alguns passos. — Você… — ele hesitou. — Você é o ponto que desequilibra. — Isso é perigoso. — Sim — ele concordou. — Para todos nós. Mais tarde, sozinha, Giulia deitou-se na cama. O quarto parecia diferente agora. Menor. Mais fechado. Ela ouviu passos do lado de fora. A voz de Matteo veio baixa, através da porta entreaberta: — Use a corrente. Ela se sentou. — Para quê? — Para que não haja dúvidas — respondeu. — Nem para eles… nem para você. — Eu não pertenço a você — disse, com firmeza. Houve um silêncio longo demais. Então ele disse algo que fez seu coração disparar: — Ainda. Giulia segurou a corrente entre os dedos. Não colocou. Mas também não conseguiu soltá-la. Naquela noite, percebeu algo que a aterrorizou mais do que o medo. Matteo não estava com raiva. Estava com ciúmes. E homens como ele… Não dividiam o que consideravam seu. Cliffhanger final: Giulia acreditava que o perigo era a violência. Mas começava a entender que o ciúme do assassino poderia ser muito mais letal.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR