POV Isa
Dizem que o inferno tem sete círculos.
Eu vivi todos, um por um, dentro daquela casa maldita.
E naquela madrugada, conheci o oitavo.
Eu tinha dezoito anos.
Uma corrente no tornozelo.
Um corpo cansado.
E uma decisão tomada.
Se eu ficasse, ia morrer em vida.
O telefone tocou às duas e quarenta e oito da manhã.
O som cortou o silêncio da sala como uma navalha. Eu estava acordada, encolhida na cama, contando as rachaduras do teto, quando ouvi.
Otacílio estava sentado na poltrona velha — o trono podre que ele se achava no direito de ocupar. A espuma já escapava pelos rasgos do tecido, mas ele ainda se sentava ali como se fosse rei.
Atendeu rápido, sem olhar pra mim. Eu não via o rosto dele dali, mas conhecia o tom.
— Fala — disse, a voz baixa.
Silêncio. Só o zumbido da linha.
— Três da manhã. Vem buscar. Sem escândalo.
Ele desligou com um sorriso torto.
Eu não precisava ver pra saber.
Era o mesmo sorriso que ele dava antes de me bater, antes de inventar um castigo novo, antes de fazer qualquer coisa que doía.
Fiquei quieta.
Eu sabia o que ia acontecer.
Tava escrito naquelas três palavras:
“Vem buscar. Hoje.”
O tom da voz dele era o mesmo da noite em que matou minha mãe.
Baixo.
Covarde.
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Ele entrou no quarto de repente, como sempre fazia. A porta bateu na parede com força, e eu m*l tive tempo de sentar na cama.
Camisa aberta.
Cheiro de cachaça e suor.
Olhos vermelhos, pulsando violência.
Ele caminhou até a cama, o molho de chaves balançando na mão, o cadeado da corrente brilhando.
— Levanta. Vai se arrumar. Hoje tu vai deixar de ser peso morto — falou, cuspindo cada palavra como se fosse dono do meu destino.
Abriu o cadeado com um “clac” que ecoou na minha cabeça como um tiro.
Eu podia ter calado.
Podia ter obedecido.
Como fiz tantas vezes.
Mas tinha alguma coisa diferente em mim naquela noite.
Alguma coisa que não era medo.
— Eu não vou com ninguém — respondi, pela primeira vez. A voz saiu rouca, mas firme. Inesperada até pra mim.
Ele congelou por um segundo.
Depois veio até mim em dois passos.
O tapa foi tão rápido que eu nem vi.
Só senti.
A cabeça girou.
O gosto de sangue explodiu na minha boca.
O nariz ardia, o olho lacrimejava.
— Tu é minha, Isa! Eu te criei! Eu que te sustento! Tu acha que é o quê, hein? Uma princesa? — ele gritou, puxando meu braço com tanta força que senti o ombro estalar.
— Eu não sou tua. Nunca fui. E tua dívida com aquele homem não é minha culpa! — cuspi, empurrando ele com as duas mãos, sentindo o corpo inteiro tremer.
Ele riu.
Um riso diabólico, cheio de raiva e desprezo.
— Não é tua? — aproximou o rosto do meu, o hálito fedendo a álcool. — Eu te dei teto, comida, roupa!
E então avançou.
Me jogou contra a parede.
A quina da cama bateu nas minhas costas, a dor subiu pela coluna.
Tentei correr pro lado, mas ele me segurou pelos cabelos, puxando com tanta força que senti o couro cabeludo queimar.
Rasgou um pedaço do vestido com uma mão, dedos grossos, duros, enquanto tentava prender minhas pernas com o joelho.
Eu gritei.
Não aquele grito de filme.
Um som rouco, desesperado, de quem sabe que ninguém vai vir.
Arranhei o braço dele com todas as forças.
Mordi o pescoço até sentir o gosto metálico do sangue.
— Sua put@! — ele urrava, me batendo com força, a mão aberta queimando minha pele.
Em algum lugar no meio daquela briga, o medo se transformou em outra coisa.
Raiva.
Eu enfiei o cotovelo com tudo no rosto dele.
Ouvi o barulho seco.
Ele cambaleou, largou meu cabelo, levou a mão ao nariz.
O sangue escorria.
— Desgraçada… — ele rosnou, cego de ódio.
Mas eu não esperei o próximo golpe.
Usei os poucos segundos de vantagem pra correr.
Abri a porta escancarando, saí descalça pelo corredor, quase escorregando no próprio sangue que pingava do meu nariz.
Corri como quem foge da morte.
Porque era disso que eu tava fugindo.
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A rua estava fria, vazia.
O vento bateu no meu corpo suado e eu estremeci, mas não parei.
Saí descalça.
Roupas rasgadas.
O rosto ardendo.
O corpo todo doía, mas minhas pernas se moviam sozinhas.
O ar do lado de fora parecia mais limpo, mesmo sujo, cheio de fumaça e cheiro de lixo.
Era o gosto da liberdade misturado com sangue e desespero.
Eu não sabia pra onde ir.
Só sabia que tinha que ir pra longe.
Quanto mais longe, melhor.
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Não sei quanto tempo corri.
Minutos?
Horas?
O tempo se dissolveu num borrão de becos, esquinas e respirações falhadas.
Quando dei por mim, estava subindo um morro.
O céu ainda escuro, sem sinal de sol.
Pouca gente na rua.
Sussurros. Motos passando, faróis cortando o breu.
Risos abafados.
Olhares rápidos, desconfiados.
Parecia outro mundo.
Um mundo tão perigoso quanto o que eu tinha deixado.
Mas, ainda assim, fora da casa dele.
Achei uma casa abandonada no alto.
Portão enferrujado, porta quebrada, janela pendendo de um lado, vidro estilhaçado.
Entrei devagar, o peito arfando.
O lugar cheirava a poeira, mofo e coisa velha.
Mas, pra mim, cheirava a esperança.
Encontrei um quarto vazio, paredes manchadas, chão coberto de sujeira. Me escondi num canto, encolhi o corpo e deixei tudo desabar.
Chorei em silêncio.
De novo.
Não lembro quando dormi.
Só lembro do som que me acordou.
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Tiro.
Um som seco, metálico, que cortou a madrugada como faca.
Meu corpo reagiu antes da mente entender.
Meu coração disparou numa batida só.
Depois veio outro tiro.
E outro.
Me arrastei até a fresta da janela, bem baixinho, tentando não fazer barulho.
Lá embaixo, no beco, três homens encapuzados cercavam um rapaz amarrado.
A rua tava vazia, só o barulho distante da cidade, respirando ódio e descaso.
— Tu entregou a carga, filho da put.a! — gritou um deles, apontando uma arma pra cabeça do cara.
— Eu não falei nada, mano! Eu juro, não falei nada! — o rapaz amarrado tentava se explicar, a voz tremendo.
Não deu tempo.
Um tiro.
Depois outro.
A cabeça do rapaz tombou pro lado, o corpo mole sendo segurado só pelas cordas.
Minhas pernas travaram.
Meu estômago se revirou.
Eu já tinha visto a morte antes, mas nunca assim. Tão fria. Tão… protocolar.
Um dos encapuzados ajustou a arma e, quando levantou o rosto, os olhos dele subiram até a casa.
Até mim.
— Tem alguém ali! — gritou. — Acho que é comparsa dele!
Meu corpo se mexeu antes de eu pensar.
Afastei da janela num salto.
Mas já era tarde.
Os passos ecoaram lá fora, subindo o barranco depressa.
Dois vieram na direção da casa.
Corri pro fundo, o coração na boca.
Não tinha pra onde ir.
Um tiro ecoou pelo corredor.
A bala acertou meu ombro.
O impacto me jogou contra a parede.
A dor foi tão forte que meu corpo pareceu desligar por um segundo.
Eu escorreguei até o chão, pressionando o ferimento com a mão trêmula.
O sangue quente escorria entre meus dedos.
Minha respiração falhava.
O mundo começava a ficar embaçado nas bordas.
Foi aí que vi ele.
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Entre as sombras da porta arrombada, surgiu um homem.
Alto.
Firme.
A presença dele engoliu o resto da casa.
Pele clara, contrastando com o breu.
Olhos verdes, intensos, frios, como se já tivessem visto mais morte do que deveriam.
Blusa preta justa, desenhando os músculos tensos dos braços.
Uma arma na mão, segura, apontada pro chão.
Por enquanto.
Os outros recuaram na hora em que ele apareceu, como se a simples presença dele mudasse as regras do jogo.
Era o tipo de homem que entra na cena e, sem dizer nada, todo mundo entende quem manda.
Meu corpo inteiro tremia.
Não era só medo.
Era como se alguma parte de mim reconhecesse nele outro tipo de monstro.
Não igual ao meu.
Mas ainda assim, monstro.
Nossos olhos se encontraram.
Ele me viu.
Não como homem vê mulher.
Não como predador vê presa.
Não como bandido vê informante.
Ele me olhou como quem enxerga um erro antigo voltando pra cobrar uma conta.
Ou um pedido de socorro que nunca esperava responder.
Se aproximou devagar.
Sem pressa.
Como se tivesse todo o tempo do mundo.
A ponta do coturno cutucou meu pé, leve, mas firme, como quem testa se a coisa quebrada ainda tá viva.
— Tá viva? — perguntou, a voz baixa, rouca, arrastada, com um sotaque difícil de identificar. A arma ainda apontada pro chão, mas o olhar cravado em mim.
Eu quis responder.
Juro.
Mas a garganta estava seca.
Cada respiração parecia um esforço absurdo.
Só um som rouco saiu.
Um gemido.
Ele agachou ao meu lado, a arma agora segura numa mão só. Com a outra, puxou o capuz que cobria metade do rosto.
Era jovem.
Mais do que parecia de longe.
Talvez vinte e poucos.
Mas os olhos…
Os olhos eram velhos.
Carregavam peso.
Guerra.
Culpa.
Raiva.
— O cara lá fora. Ele era teu? — perguntou, sem rodeios. — Tava contigo?
Minha boca se abriu, mas só mais um ruído saiu.
Eu queria dizer que não.
Que eu nem sabia quem era.
Que tudo que eu queria era fugir de um inferno e acabei caindo em outro.
Mas a dor no ombro queimava, minha cabeça rodava como um carrossel quebrado.
Ele franziu o cenho.
Um músculo pulsou na mandíbula.
— Merda… — murmurou, mais pra si do que pra mim.
A visão começou a borrar ainda mais.
O rosto dele tremulava, indo e vindo.
A casa parecia girar.
O sangue escorria quente.
Minha mão escorregava.
O mundo foi ficando distante, como se alguém tivesse colocado algodão nos meus ouvidos.
Antes de tudo escurecer, só uma coisa permaneceu nítida:
Os olhos verdes dele.
Cortantes.
Inesquecíveis.
Como um sinal.
Um aviso.
Ou talvez…
O começo de outro tipo de inferno.
Um inferno que, pela primeira vez, não tinha o rosto de Otacílio.