Isolada do Mundo

1174 Palavras
POV Isa O mundo lá fora seguia girando. Eu sabia disso pelos sons. O vizinho ligava o som alto todo domingo. As crianças gritavam de alegria ao descer a ladeira de bicicleta. Os cachorros latiam, os carros passavam, os ambulantes gritavam “olha o pastel!” como se o mundo fosse uma feira viva, barulhenta, feliz. Eu ouvia tudo pela parede fina. Mas, dentro daquela casa, tudo era silêncio. A não ser pelos passos dele. O tilintar da corrente no meu tornozelo. O som da colher batendo no prato de plástico. O estalo seco da porta trancando. Aos dezoito anos, depois de um ano inteiro sem colocar o pé na rua, eu já não tinha certeza se o mundo existia de verdade… ou se era só memória. --- Minha janela não abria. Ele tinha pregado a madeira por fora, com pregos grandes, fundos, como se estivesse lacrando um caixão. A luz do sol entrava filtrada, tímida, em faixas finas, desenhando pó no ar. Até o sol parecia com medo de entrar. Ele dizia que o mundo era perigoso. — Tem homem pior que eu lá fora, Isa. Homem que ia te destruir. Aqui dentro, pelo menos, eu te protejo. E, por um tempo, eu cheguei a acreditar. Não porque ele era bom. Mas porque era o único rosto que eu via. O único cheiro que sentia. A única voz que me chamava pelo nome. Era estranho pensar que meu carcereiro também era a única prova de que eu existia. --- As estações mudavam e eu só percebia pela roupa dele. Camisa regata e bermuda no verão. Blusa de flanela e meia grossa no inverno. A casa não tinha calendário. O relógio, ele tirou da parede dizendo que aquilo deixava “mulher ansiosa”. — Num precisa saber hora de nada. Quem decide teu dia sou eu. O tempo virou um borrão. Eu só sabia que era fim de mês quando ele surtava com as contas. — Essa casa é um buraco de grana! Tudo culpa da sua mãe! Aquela v***a! Agora eu tenho que te sustentar! Ele gritava, quebrava copos. Depois chorava. — Eu sou assim porque te amo, Isa. Você me deixa louco. Você é igualzinha a ela. E eu ficava em silêncio. Meu corpo parava de reagir. Como se desligar fosse o único botão de emergência. Meu sangue esquentava nas veias, mas meu rosto seguia frio. Olhar baixo. Queixo firme. Boca fechada. Ficar viva era um ato de resistência. --- Teve uma vez, quando eu tinha dezesseis, que eu tentei fugir com uma colher. E falhei. Desde então, ele redobrou o controle. Trancava mais cedo. Contava os talheres. Vasculhava o quarto de tempos em tempos, como se estivesse caçando qualquer sinal de rebeldia. Aos dezoito, ele decidiu que não bastava me trancar. Precisava me prender. Trouxe uma corrente de ferro. Pesada. Fria. Prendeu uma ponta no pé da cama de metal. A outra, no meu tornozelo. — É só por precaução — disse. — Sei que tu anda pensando em fugir. Se tentar… eu te mato e jogo teu corpo no matagal atrás do cemitério. Igual fiz com a gata da vizinha quando arranhou meu carro. Eu lembro bem da gata. Pequena, branca, com uma mancha cinza na cabeça. Ela miava no portão de vez em quando e eu jogava farelo de pão pra ela. Um dia, sumiu. Ele voltou suado, com a pá nas costas, e um sorriso feio. Eu não perguntei. Não precisava. Quando ele falou do matagal, o rosto dela apareceu na minha mente. E eu acreditei nele. Minha mente estava quebrada demais pra duvidar. --- Durante a noite, minha perna latejava de tanto tentar achar uma posição pra dormir com a corrente. O metal machucava a pele, fazia um círculo vermelho ao redor do tornozelo. Mas a dor física não era o que mais doía. Era a sensação de estar enterrada viva. Respirando ainda, mas sem espaço. Um corpo trancado numa vida que não escolheu. Eu tinha dezoito anos. E me sentia velha. Exausta. Acabada. --- Um dia, ele chegou com um celular. Barato. Tela trincada. Sem chip. — Tá feliz? Agora tem brinquedo novo. Só não tenta me passar pra trás. Eu tô de olho. Eu peguei o aparelho desconfiada. Segurei como quem segura um animal estranho. Por alguns segundos, pensei que era mentira. Que não ia ligar. Que era só mais uma brincadeira c***l. Mas, quando apertei o botão, a tela acendeu. Branca. Fraca. Mas acendeu. Ele riu, satisfeito. — Pronto. Agora tu num pode reclamar que não tem nada pra fazer. E saiu, levando as chaves, como sempre. Ele só esqueceu de um detalhe. O Wi-Fi da vizinha. --- Demorou alguns dias até eu perceber. Eu fuçava o celular sem muita fé, passando pelos menus, mexendo nas configurações, sem entender direito. Até que, num desses toques aleatórios, apareceu uma lista de redes. Uma delas, sem senha. “Vizinhos 03”. Meu coração disparou. Eu cliquei. Esperei. E, de repente, o mundo entrou no meu quarto. Vídeos. Imagens. Gente dançando. Gente rindo. Gente reclamando do chefe, da faculdade, do namoro. E, no meio disso tudo… Meninas como eu. Meninas contando suas histórias de abuso. De padrastos. De tios. De pais. De maridos. Elas falavam. Choravam. Denunciavam. E a coisa mais absurda de todas acontecia: Alguém acreditava nelas. Eu assisti com o peito em chamas. Cada relato era uma facada e um abraço ao mesmo tempo. Eu não era a única. Eu não era louca. Eu não estava exagerando. Eu era vítima. E, mais importante: Eu ainda tava viva. Vítima viva ainda pode fazer alguma coisa. --- Naquela noite, depois que ele dormiu, eu fiquei acordada, olhando pra tela do celular. Eu lia comentários, depoimentos, pedidos de ajuda. “Foge.” “Denuncia.” “Você não merece isso.” Palavras que ninguém nunca tinha dito pra mim. Enquanto eu lia, o barulho do celular dele vibrando na sala cortou a madrugada. A corrente no meu tornozelo me impedia de chegar até lá, mas dava pra ouvir. Ele atendeu. — Ela tá pronta? — perguntou uma voz masculina. Meu corpo gelou. Do outro lado da porta, ouvi a risada de Otacílio. — Tá sim. E com medo. Do jeitinho que você gosta. Meu estômago revirou. Vomitei num canto do quarto. Nem tive forças pra limpar. Fiquei ali, tremendo, ouvindo o som do meu próprio coração. Era isso. Eu tinha prazo. Dias, talvez horas. Tudo que eu vinha sentindo — medo, ódio, cansaço, desejo de liberdade — se misturou numa coisa só. A prisão invisível tinha virado visível: corrente, paredes, cadeados, telefone de comprador. Mas a maior prisão ainda estava aqui dentro. Na minha cabeça. Nas mentiras que ele repetiu até eu quase acreditar. Naquela noite, deitada no colchão fino, com o cheiro de vômito e ferro velho, eu entendi uma coisa com uma clareza assustadora: Ou eu fugia agora… ou nunca mais. Essa venda seria minha sentença. Ou minha última chance de liberdade. E, pela primeira vez, eu não queria só sobreviver. Eu queria escapar.
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