O Monstro Chamado Amor

1417 Palavras
POV Isadora Amor. Aos dezessete anos, eu já não sabia mais o que essa palavra significava. Nos livros que eu lembrava vagamente da escola, amor era coisa bonita: mãos dadas, promessas, finais felizes. Nas músicas que eu ouvia baixinho, vindo do rádio do vizinho, amor era coisa intensa: dor, saudade, desejo. Na minha vida, amor era outra coisa. Aqui, nessa casa, nesse quarto, nesse cativeiro… amor era um monstro. Um monstro que aprendeu a sorrir enquanto morde. --- Otacílio dizia que me amava. Dizia isso enquanto apertava meu braço forte demais, deixando marcas nos meus pulsos. Enquanto me puxava pelos cabelos porque eu “não fiz o arroz direito”. Enquanto me obrigava a sentar no colo dele só de toalha, depois do banho, “pra criar confiança”. — Eu sou o único que cuida de você, Isa. Eu sou tudo que você tem. Você devia ser mais grata — ele sussurrava, o bafo de cachaça queimando minha pele. Esse era o tipo de amor que eu conhecia. Depois que minha mãe morreu, ele falou que agora a gente ia “cuidar um do outro”. Quando eu tinha onze, começou a dormir com a porta do meu quarto destrancada. — Se você sonhar com alguma coisa e gritar, eu ouço — ele dizia, sorrindo torto. Quando eu tinha treze, disse que meu corpo tava “virando mulher” e que era perigoso eu andar por aí. — Tem muito homem r**m no mundo. Aqui dentro você tá segura. E foi cortando cada saída que eu tinha. Cada laço. Cada possibilidade. Aos dezessete, eu já não saía mais pra nada. Nem escola. Nem mercado. Nem rua. Eu era prisioneira. De corpo. E de mente. --- Esse tipo de amor sufoca. Esse tipo de amor molda. Esse tipo de amor ensina a obedecer. E obediência era a moeda que mantinha a casa minimamente silenciosa. Às vezes, eu pensava: “Se eu for boa o bastante, ele para. Se eu não responder, se eu sorrir, se eu concordar com tudo, talvez ele me deixe em paz. Talvez não me bata. Talvez me abrace de verdade. Talvez…” Mas não existe “talvez” pra monstros. Eles só sabem devorar. --- Naquele ano, minha rotina já era quase automática. Eu acordava com o barulho do vizinho ligando o som. Fazia café, lavava a louça, estendia roupa, limpava o banheiro, varria a sala, deixava o almoço pronto. Meu mundo era um ciclo de panelas, pano de chão e medo. Às vezes, eu me pegava observando meus próprios movimentos como se estivesse de fora. Como se eu fosse outra pessoa. Uma boneca programada pra repetir o mesmo roteiro todos os dias. Quase não pensava mais em futuro. Futuro tinha virado uma palavra proibida. Tudo que eu conseguia pensar era em aguentar mais um dia. Só mais um. Depois outro. --- Mas por mais quebrada que eu estivesse, algo em mim se recusava a morrer completamente. Pequenas resistências. Coisas bobas que ele provavelmente nunca percebeu, mas que, pra mim, eram revolução. Eu comecei a comer um pouco menos quando ele mandava eu repetir o prato, só pra não obedecer completamente. Comecei a responder “tá” em vez de “sim, senhor”. Comecei a olhar pro chão quando ele falava comigo, não por submissão, mas pra não deixar ele ver o ódio nos meus olhos. Era pouco. Ridículo até. Mas era meu. --- Um dia, ele chegou mais cedo do trabalho. A porta bateu com força. Meu corpo inteiro enrijeceu no mesmo segundo. A corrente fina presa no meu tornozelo tilintou baixinho quando eu me mexi. Minha barriga doía — fome, ansiedade, medo. Fim de mês sempre significava conta atrasada, menos dinheiro e mais raiva. Dessa vez, porém, ele chegou com uma sacola. — Vem cá, Isa — chamou, com a voz mansa. E a voz mansa sempre dava mais medo que o grito. Eu apareci na porta do quarto, tentando não tremer. Ele tirou de dentro da sacola um vestido. Azul. Barato, de loja de bairro, mas novo. Cheirava a plástico e perfume vencido. Ele estendeu o vestido pra mim com um sorriso comprido, esticado demais pro rosto dele. — Veste isso. Quero ver como fica em você. — Pra quê? — escapou da minha boca antes que eu pudesse engolir. Ele ergueu uma sobrancelha, e os olhos escureceram num segundo. — Porque eu mandei. E porque tá quase na hora da nossa viagem — respondeu. Viagem. Eu já tinha ouvido essa palavra algumas vezes nos últimos meses. Sempre jogada no meio de frases soltas, carregadas de risada estranha. “Quando a gente fizer aquela viagem…” “Você tem que estar pronta pra viagem…” Eu não sabia pra onde. Mas sabia que não era férias. Minha garganta secou. — Vai, Isa. Põe logo. Tá com vergonha do quê? Eu já te vi pelada muitas vezes, lembra? A vergonha veio forte, ardendo na pele. Meus dedos tremeram quando peguei o vestido. Vesti ali mesmo, sob o olhar dele. O tecido grudou no meu corpo, marcando cada curva que eu não tinha pedido pra ter. Eu me senti exposta, vulnerável, à mostra. Ele sorria. — Linda. Igualzinha à sua mãe quando era nova. Ela também não sabia obedecer no começo. Mas aprendeu. Você aprendeu mais rápido. É por isso que eu gosto tanto de você. Cada palavra foi um soco. E, ao mesmo tempo, uma parte doente de mim… reagiu. Não por gostar dele. Mas pela sensação rara de ser “vista”. Quando você passa anos ouvindo que é lixo, qualquer elogio torto começa a parecer migalha de amor. E a gente, com fome, é capaz de comer até o que machuca. É isso que o trauma faz. Confunde atenção com carinho. Confunde posse com proteção. Eu já não sabia o que era normal. Só sabia sobreviver. --- Quando ele saiu pra tomar banho, sentei no chão do quarto, encostei a cabeça na parede fria e abracei as próprias pernas. Me senti suja com o vestido. Como se tivesse sido carimbada com um preço invisível. Fechei os olhos e deixei a memória me puxar pra longe dali. Lembrei da minha mãe me levando na feira. Da mão dela segurando a minha com força, mas com carinho. Da voz dela cantando “Fico assim sem você” enquanto a gente atravessava a rua. Da maçã do amor que ela sempre comprava pra mim, mesmo quando o dinheiro era pouco. Aquilo era amor. Amor cansado. Amor falho. Amor pobre. Mas amor. Não isso aqui. Não esse horror que vinha com tapa, xingamento e ameaça. --- Naquela madrugada, acordei com o som dele chorando na sala. Um choro feio, arrastado, bêbado. Me arrastei até a porta e encostei o ouvido. — Eu amo ela, p***a… — ele dizia. — A Isa é minha. MINHA. Não vou entregar ela pra ninguém. Ninguém toca no que é meu. Um arrepio percorreu minhas costas. Parte de mim pensou: “Talvez ele desista de me vender. Talvez ele me mantenha aqui pra sempre.” E isso, de algum jeito, parecia ainda pior. Pior que ser vendida era ser mantida por um louco que acreditava que amor é posse, que carinho é prisão, que proteger é sufocar. Pior que sair… era nunca sair. --- No dia seguinte, algo dentro de mim quebrou. Eu olhei pro vestido azul pendurado na cadeira e soube: eu não era boneca. Não era produto. Não era propriedade. E se eu continuasse ali, ele ia me convencer do contrário. Foi quando tomei uma decisão. Pequena. Simples. Mas, pra mim, gigantesca. Eu não ia mais entregar meu brilho de graça. Decidi que ia parar de olhar nos olhos dele. Parar de responder com “sim, senhor”. Parar de tentar agradar. Ia virar o rosto. Comer menos. Falar menos. Me tornar cinza. Invisível. Fraca demais pra ser desejada. Apática demais pra ser vendida. Ia matar a boneca antes que ele a entregasse pra outro monstro. Ia matar a Isa que ele tentava moldar. E, lá no fundo, bem escondido atrás de toda a dor, ficava o plano: Um dia, quando ninguém esperasse… eu ia renascer. Ou fugir. Ou morrer tentando. Porque se o amor é um monstro… eu tava aprendendo, aos poucos, a virar fera também. E junto com o medo, o desejo de liberdade só aumentava. Um pouco mais. A cada dia. A cada “eu te amo” distorcido. A cada toque que eu não queria.
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