POV Anastácia O tiroteio tinha acontecido fazia uns três dias, mas o silêncio que ficou era pior que os tiros. O Morro, acostumado a barulho, gritos, sirenes e correria, parecia engolido por um vazio estranho. Nenhuma viatura. Nenhuma operação. Nenhuma visita da imprensa. Nada. Um nada que gritava. A ausência da polícia era barulhenta demais. Inquietante. Parecia um desses momentos antes do terremoto, em que tudo fica parado, o ar denso, as folhas imóveis, os pássaros somem. Como se até a natureza soubesse que tem algo pior vindo por aí. E eu sentia isso. Sentia no osso. No fundo do peito. Algo errado, algo prestes a estourar. As noites, desde então, viraram tortura. Não dormia mais. E quando o sono vinha, era só pra me arrastar até o inferno. Na última madrugada, o pesadelo veio mai

