Capítulo 6

1893 Palavras
Ester Tive medo que meu novo funcionário notasse o quanto eu estava r**m. Tinha passado m*l a manhã inteira, nada parava no meu estômago, até água pra parar tinha que ser gelada e tomar aos poucos. Depois, no período da tarde, as coisas melhoraram e consegui tomar um café amargo com uns biscoitinhos salgados. Na hora do almoço verifiquei meu funcionário, vi que já estava se virando bem com o que foi ensinado a ele, então o liberei para o almoço. Liguei para meu irmão avisando que estava indo almoçar. — Me espera no estacionamento, maninha. — Vai sair para almoçar comigo? Não vai sair com uma de suas amigas gostosas? – Me sentei no banco da recepção esperando uma onda de náuseas passar. — Não quando minha irmãzinha está precisando de mim. — Como sabe se estou precisando de você ou não. — Sempre sei, principalmente quando você não sai do banheiro no andar da presidência e me minha secretária te vê e me conta. — Estou cercada de fofoqueiros. — Está cercada de pessoas que se preocupam com você. Não vem se sentindo bem há semanas, Ester. Me levanto e vou para o elevador rumo ao andar do estacionamento esperar meu irmão. — Preciso desligar, te vejo no estacionamento. *** No restaurante correu tudo bem, mas Heitor notou minha mudança na alimentação. Tentei inventar que estava de dieta e ele riu até não aguentar mais. — Você de dieta? Quer perder o quê? — Nunca ouviu falar que as mulheres nunca estão contentes com seu peso? — Isso só se aplica quando a mulher em questão está acima do peso ou sob algum problema psicológico. Acho que não é seu caso – fala tranquilamente bebendo um copo de suco. — E o que o senhor meu irmão quer dizer com isso? – Tentei replicar a mesma tranquilidade. — Quero dizer que tenho em mente o que você tem, mas só um exame pode dizer com certeza, por isso falei com nossa priminha querida. — Vanessa? Você incomodou uma médica de plantão? Não acredito. — Você é uma paciente – Deu de ombros -, não tem problema nenhum. — Está louco, não sou paciente da Vanessa, não estou grávida. Falei meio desesperada para que as palavras realmente tivessem algum poder. Heitor irritantemente levantou uma sobrancelha me encarando. — Se não está, não há problemas em fazer um exame. — Não preciso fazer exame, nem tirar minha prima do hospital. — Não vamos tirar Vanessa do hospital. – Ele olhou o relógio e franziu o cenho. – Estamos atrasados, vamos. — Atrasados? – Olhei meu relógio e vi que que faltava quase uma hora para terminar o almoço, sem contar que éramos os chefes, somos exemplos sim, mas se houver necessidade de nos ausentar, basta um telefonema. — Atrasados para a consulta que Vanessa marcou para você. — Vocês são dois loucos. – Neguei e meus cabelos se balançaram com o movimento. — Vamos parar de conversa e ir até o hospital que Vanessa trabalha. Terminei de beber minha limonada, limpei a boca e me levantei, sendo acompanhada pelo meu irmão. Ao chegar no hospital eu estava mais nervosa que tudo, mas Heitor estava comigo. — Não precisa ficar nervosa, maninha. Independente do resultado, você não está sozinha nessa. — Obrigada. – Abracei meu irmão que estava do meu lado, sentado nas cadeiras estofadas. Seria atendida por minha prima mesmo, não é o correto, mas acho que ela preferiu fazer esse primeiro atendimento para me deixar mais confortável. Ela sabia que se a resposta ao exame fosse positiva, eu ficaria arrasada. Vinha me preparando psicologicamente para isso, mas era difícil aceitar. Não era a criança, mas a circunstância em que tudo aconteceu. Eu sentia raiva de mim, por ter sido tão i****a e ter esquecido de me proteger. Por ter dado ao meu filho um pai como aquele, um interesseiro que nunca me amou de verdade, só amava a minha posição e o que ela poderia lhe dar de benefícios. Sou chamada como se fosse qualquer outra paciente e as outras mulheres à espera ficaram olhando meu irmão quando entramos juntos, devem ter achado que éramos um casal e estavam desejando que seus parceiros estivessem aqui também. Se soubessem da minha história, não quereriam estar no meu lugar. — Vocês não prestam – falo como forma de cumprimento quando entro no consultório de minha prima. — Prazer em te ver também, priminha. – Ela fala debochada e vem na minha direção. Nos abraçamos e ela cumprimenta meu irmão também. — Vou te dar o papel do exame e você vai lá no andar de imagens fazer esse exame. Não abre, traz para mim, tá bom? – Vanessa me entrega o pedido do exame. — Imagem? — Você vai fazer uma transvaginal. Poderíamos fazer um exame de sangue, mas você teria que ficar esperando o exame sair, e o resultado da transvaginal é na hora. — Tudo bem, entendi. Fiquei olhando o papel com aquele sentimento em conflito dentro de mim. Senti a mão quente de meu irmão em meu ombro. — Vamos, maninha, vamos acabar com essa dúvida. É muito melhor encarar os fatos que ficar se escondendo. — Você está certo. — Quando retornarem do exame é só bater na minha porta. Aceno em concordância e deixamos o consultório de Vanessa. No andar dos exames de imagem, sou direcionada para uma sala onde me preparo para realizar o exame. Heitor não aceita deixar a sala e o médico que realiza o exame fica calado todo o tempo, é no mínimo estranho esse clima em torno de nós. Os olhos do homem de cabelos grisalhos que realiza o exame ficam focados na tela e vez ou outra ele tecla algo no computador. Não há som, não há conversa. O exame é concluído e sou orientada a me limpar e trocar de roupa. Quando saio do pequeno banheiro somente meu irmão me aguarda dentro da sala e na recepção pego o exame. Pego a pasta azul com o emblema do hospital, e me contenho, pois sinto uma imensa vontade abri-lo. — Vamos abrir juntos no consultório da Vanessa. – Heitor pega o exame da minha mão, era como se ele soubesse o resultado do exame e talvez soubesse. Nesse momento ele me revela que o médico não disse nada a pedido da médica. Por isso não houve som na sala, e o senhor não expressava nada do que via. Chegamos no andar da obstetrícia e me sento nas cadeiras ao lado do consultório 11, o mesmo no qual minha prima está atendendo. Quando a paciente sai, somos os únicos ainda não atendidos e entro no consultório. — Vanessa, pelo amor de Deus, sem drama. Só fala o resultado desse exame. Entrego o envelope e aguardo sentada. Heitor se coloca de pé ao meu lado e apoia as mãos em meu ombro. Vanessa fica quase irreconhecível com esse olhar de médica séria sobre o papel do exame. Depois de analisar bem, ela me olha com um pequeno sorriso e eu não sei se isso é bom ou r**m, na verdade eu não sei mais o que esperar desse exame. Passei tanto tempo com medo do resultado, já com uma certeza de que o mesmo seria positivo que meus sentimentos sobre isso nesse momento são conflituosos. — Prima, quando foi sua última menstruação? — Sério, Vanessa, eu só quero o resultado. – Fico aflita. — Só responde, pode ser? — Não sei. A última vez que fiquei menstruada foi... – fiz as contas mentalmente – tem ... acho que... quase dois meses. – Como eu não tinha me dado conta que minha menstruação estava atrasada há mais de quinze dias? — Então, minha querida prima, o exame confirmou nossas desconfianças: você está gravidíssima. Como você disse que tem quase dois meses, coincide com o tempo gestacional sugerido pelo exame que é de sete semanas. — Já tem isso tudo? Tenho sete semanas de gestação? — Quando estiver mais calma te explico melhor, mas para te tranquilizar, o exame conta desde a sua última menstruação. Com o tamanho e desenvolvimento do feto, dá pra definir, mais ou menos, quando ocorreu a fecundação e quando foi seu último sangramento. — Ah! – Estava meio assustada com tanta informação. – Então... o... – não conseguia mencionar a palavra “feto” ou “bebê”. – o... — O feto? Contando desde a ovulação, ele deve ter umas quatro semanas. Por isso vem passando m*l há quase duas semanas. Os enjoos começam a partir da 5° semana contando da última menstruação e 2° semana se contar da ovulação. — E quanto tempo dura esse martírio? – Questionei meio anestesiada. — Os enjoos, você quer dizer. Depende, Ester, eles podem ter fim a partir da 12° semana. Algumas mulheres sentem menos, outras sentem mais. Nada impede que eles se prolonguem. Se já não estivesse sentada, me sentaria. Me sentia como se estivesse lá no fundo o mar, olhando pra cima, e ninguém pudesse me ver ou me ouvir, estava entorpecida com a notícia. Eu esperava, mas ainda não estava preparada. Mas por outro lado, sentiria um vazio se a resposta fosse negativa, porque a certeza de que estava grávida já me preenchia, mesmo que não estivesse preparada para ela. Saio dos meus pensamentos quando sinto meu irmão me sacudir. — Você está bem? — Estou. — Vou te levar para casa. — Não, não. Eu preciso voltar para a empresa. Estou bem. — Tem certeza? – Minha prima pergunta preocupada. — Só estou chocada, mas estou bem. — Tudo bem, vamos para a empresa, mas vou ficar de olho em você. – Meu irmão decretou, como se eu já não esperasse por isso. *** Antes de acabar o expediente, mando uma mensagem para Vanessa para saber se ela está afim de sair um pouco e ela responde que sim. Vou pra casa um pouco mais animada, conformada, e decido levar minha vida normalmente. Depois de um bom banho relaxante, coloco um vestidinho colado marcando minhas curvas, aproveitar enquanto posso, pois em breve terei uma protuberância em meu ventre; um salto alto; cabelos bem arrumados e maquiagem de arrasar. Minha prima manda mensagem avisando que já está à minha espera. Desço, vejo que as pessoas olham para mim quando desfilo no térreo do condomínio até onde minha prima e amiga Vanessa me espera em seu carro. Vejo que tem mais duas pessoas dentro do veículo: sua irmã mais nova, Kelly e uma mulher que desconheço. Entro no carro, no banco carona que provavelmente fora deixado para mim. Beijo o rosto da minha prima que vejo que também está linda de vestido preto e salto alto, as garotas também estão muito bonitas. — Essa é a noite das meninas, vamos beber até cair – falou Kelly. — Você tem faculdade amanhã, Kelly, eu tenho trabalho, Ester e Luiza também, então essa noite não é pra beber, é só pra distrair a mente! Vanessa sempre foi a responsável entre nós, brincalhona, mas responsável. — Ah, mas eu quero beber, nem que seja um pouco. Preciso aliviar a tensão. — Justamente pelo motivo da sua tensão de hoje, você não pode beber – repreendeu ela. Droga! E eu que saí pra beber e esquecer dos problemas e dilemas da vida!
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