David
Depois do meu primeiro dia de trabalho, eu estava mais feliz que cansado. Ficar sentado em uma mesa analisando papéis e lendo e respondendo e-mails nem se compara ao esforço de carregar caixas pesadas de baixo do sol quente.
Mesmo no inverno, aqui no Rio de Janeiro, tem dias que o sol está de rachar o coco, como dizem. Sem contar que sempre tem alguém olhando pra ter certeza que ninguém está fazendo “corpo mole”, se sair pra beber água ou ir ao banheiro ficam de olho se você vai demorar, então além do cansaço físico ainda tem o estresse.
Aqui tenho uma cafeteira muito maneira, nunca tinha visto uma assim, para pegar café quando eu quiser e um bebedouro no fim do corredor. O ar condicionado é “no talo”, faz até frio, e minha chefe é muito linda. Está aí um problema: tentar segurar meus olhos e controlar meus impulsos.
Ela veio até mim duas vezes, hoje. Uma para perguntar se a secretária tinha vindo me auxiliar e aproveitou para me liberar para o almoço. Depois, veio ver se eu estava me saindo bem, se estava com dificuldades em algo. Nesses dois momentos tinha medo até de abrir a boca e sair besteira. Imagina elogiar a mulher no primeiro dia de trabalho? É pedir pra ser colocado na rua.
Agora me encontro em pé no busão, as janelas quase todas fechadas, o povo parece que tem medo de vento, e sendo espremido por todos os lados. Mas o sorriso estampa o meu rosto. Quando desço do ônibus ainda preciso pegar mais um, mas esse é mais vazio e consigo me sentar, depois é que ele enche um pouco mais.
Pego meu celular e vejo que tem várias mensagens do Juan. As primeiras foram depois do horário de almoço que eu tinha mandado mensagens para ele contando sobre meu primeiro dia de trabalho. Eram mensagens me parabenizando, me falando que me livrei de um inferno, esse tipo de coisa. Depois de um tempo, vejo com minha chefe se não tem uma vaga pra meu amigo na empresa. Ele não tem formação, mas pode trabalhar em serviços gerais ou algo do tipo. O cara tem vontade de voltar a estudar, mas precisa de dinheiro, então trabalha em dois empregos e não tem tempo pra estudar. Talvez se conseguir um emprego que pague melhor, ele possa retomar os estudos.
Depois das várias mensagens sobre o dia infernal de trabalho, como ele disse, Juan resolveu me convidar para ir ao baile a noite pra beber.
“Que tal ir ao baile essa noite, moleque? Pra comemorar, beber umas cachaça e pegar umas gatinhas.”
“Trabalho amanhã, cara.” – Respondi.
Vejo “digitando” na paste superior do aplicativo.
“Tu mesmo disse que já tá chegando em casa, só dar um rolê, moleque, deixa de ser chato”
Ri contido pra não chamar a atenção dos outros.
“Tá, mas não posso demorar.”
“Assim que se fala”
Mandou um emoji de óculos escuros. Guardei o aparelho no bolso e fiquei olhando pela janela. Cheguei em meu bairro, onde puxei a campainha do coletivo. Desci e me preparei para a subida, ainda que minhas pernas não estavam tão cansadas, pois hoje não carreguei caixas o dia todo, e assim seria daqui por diante.
Cheguei em casa e vi minha mãe deitada dormindo no sofá com a TV ligada, mas como ela fica preocupada se eu demorar, trato de chama-la, só para avisar que já cheguei.
— Mãe! Cheguei.
Ela se meche e abre um olho, sorri para mim e responde baixo:
— Graças a Deus.
E voltou a fechar o olho. Fiquei um pouco preocupado, minha mãe não é assim. Me sentei a seu lado no sofá e a balancei outra vez.
— Está se sentindo bem, mãezinha? Fiquei no trabalho porque a chefe já pediu que começasse hoje.
— Estou bem, filho, só estou cansada.
Dei um beijo na sua testa.
— Então descansa. Juan me chamou pra sir um pouco, mas vou dizer que não posso. Vou ficar com a senhora.
— Não, filho. – Ela se sentou – Vai, estou bem. É que fiz faxina na casa hoje e estou cansada, mas estou bem.
— Tem certeza que é só isso?
— Sim, fica tranquilo. Vai se divertir. Mas me conta como foi seu primeiro dia.
Contei a ela sobre meu novo trabalho, a responsabilidade de tudo que fazia, mas também a realização de um sonho que era estar trabalhando na área que me esforcei tanto para me formar. Juan tem grande contribuição nisso, por isso é difícil negar as coisas a ele.
— Então, filho, vai comemorar com seu amigo. O rapaz te ajudou, agora vocês podem comemorar juntos.
— Vou ver se consigo algo para ele lá na empresa. Ele não trabalha de carteira assinada, não tem benefício nenhum, seria bom pra ele.
— Faça isso, meu filho. Ajude seu amigo que te ajudou. Agora vai tomar um banho e se divertir. Tem broa no forno.
— Hum, delícia. – Beijei os cabelos grisalhos da minha mãe e fui fazer o que ela disse.
***
O baile durante a semana não é muito cheio, tem só algumas pessoas bebendo e dançando, mas vale a pena comemorar. Amanhã é dia do baile lotar, sexta-feira é que é dia de baile.
Pedi a vizinha pra ficar de olho em minha mãe, ela é uma mulher de meia idade que deixava seus filhos, quando mais novos, ficarem lá em casa para ir trabalhar alguns dias da semana. Depois as crianças cresceram o suficiente para se virarem sozinhas, e não precisou mais, mas a amizade ficou.
Visualizo o celular quando ele vibra em meu bolso e vejo que é meu amigo Juan avisando que já está chegando. Puxo uma cadeira e me sento, observando algumas pessoas se divertirem na pista de dança. Estou distraído quando sinto uma mão pequena tocar meu ombro.
Levanto o rosto e vejo uma ex-namorada, Selma.
— Oi, David, tudo bem? – Ela me cumprimentou e fez questão de se curvar para beijar minhas bochechas, sei que o objetivo era mostrar os s***s embaixo do vestido decotado.
— Oi, Selma, bem e você?
— Bem. Posso me sentar com você? – Dei de ombros levando o copo de refrigerante à boca.
Ela se sentou e levantou a mão chamando o atendente. O rapaz saiu do balcão e veio atende-la, coisa impossível de se fazer em dias mais cheios.
— Soube que arrumou um novo emprego. – Ela puxou assunto. Impressionante como as fofocas vão rápido, no meu primeiro dia no emprego novo já estão sabendo.
— As notícias são rápidas, não é verdade? Foi meu primeiro dia hoje.
— Nossa, sério? – riu alto, como de costume. Namorei Selma alguns meses, mas nossas personalidades são muito diferentes e não deu certo. – A irmã do Juan que me contou.
Aí está a fonte da fofoca.
— Tinha me esquecido dos dons de espelhar notícias que a Lídia tem.
O rapaz veio trazer as cervejas que ela pediu, no momento que ela ia responder.
— Isso pra não chamar de...
— E aí, moleque, já com a morena do lado, hein. Dá mole, não.
Me levantei pra cumprimentar meu amigo que é como um irmão. Apertei seu antebraço no mesmo momento em que ele apertou o meu.
— A notícia já chegou no ouvido da Selma – falei apontando o queixo para ela – Tua irmã já contou que arrumei um novo emprego.
— A Lídia é demais, mano, tenho que tomar cuidado com o que falo perto dela. E aí, Selminha, beleza? – Apertou a mão da Selma e se beijaram na bochecha.
— Muito bem, com esses dois gatos do meu lado. – Piscou um olho para mim. – Não vai tomar uma cervejinha, David?
— Não posso, trabalho amanhã.
— Só uma, gatinho, não vai te deixar bêbado.
— Nem ia vir, Juan que me convenceu.
— Viemos pra comemorar, com cerveja ou com refri, tanto faz.
Ficamos os três em uma conversa agradável até que Selma insistiu para que fôssemos dançar, não estava afim, mas acabei indo.
— Só balançar o corpo, cara. Ninguém fica olhando o rebolado de ninguém. – Juan comentou e Selma riu alto.
— Só você que acha isso, Juan, mas não tenha vergonha. – Me puxou para perto dela, colando seu corpo no meu – Eu te ajudo.
Selma começou a se balançar no ritmo agitado do pancadão que tocava. Os seus s***s grandes pulavam e pareciam que iam saltar do decote, os cabelos negros e cacheados se agitavam como milhares de molas conforme ela balançava a cabeça.
— Vou pegar uma cervejinha – O safado do Juan saiu, com a pior desculpa que ele poderia inventar, já que ele estava com uma garrafa pela metade na mão.
— Seu amigo já entendeu o recado, David. – Selma se virou de costas e começou a rebolar com seu corpo grudado ao meu. Não tinha interesse na garota, mas ninguém é de ferro. – O que acha de a gente estender essa festinha aqui?
— Eu não sei, Selma. Já tivemos um relacionamento uma vez e não deu certo.
Ela se virou novamente e colocou o dedo na minha boca.
— Não estou falando para reatarmos o namoro, gato, estou falando de uma noite.
Ela esvaziou o copo descartável que estava na mão e largou-o no chão, como todos faziam ali.
— Não sei, Selma...
— Só uma noite, querido.
Sussurrou e colou seu lábio no meu, estava quase me rendendo quando o celular no meu bolso começou a vibrar. Ela se afastou quando fiz menção de pegar e revirou os olhos. Saí da parte barulhenta do lugar e procurei um local em que eu pudesse ouvir o que me falariam do outro lado da linha. Antes de atender, vi que era a vizinha que deixei de olho na minha mãe.
— Alô!
— David?
— Sou eu. Pode falar.
— Sua mãe não está bem, acho que está com febre. E não quer sair desse sofá, está reclamando de fraqueza.
— Já estou indo, obrigado. – Desliguei o telefone. Sabia que minha mãe não estava bem, algo me dizia, mas ela me garantiu com tanta certeza que me convenceu.
— Não acredito que largou a Selminha no braço de outro. – Reclamou Juan se aproximando, e quando olhei para a pista, vi que ela estava dançando com outro cara.
— Minha mãe está passando m*l, Juan, tenho que ir para casa.
— Que isso, cara, o que aconteceu?
Já caminhávamos à passos largos pelas ruas da comunidade.
— Não sei, amigo, só sei que quando cheguei em casa ela estava dormindo na sala e disse que estava cansada porque fez faxina, mas acho que ela só não queria me atrapalhar, pois havia dito que iria sair com você. Não devia ter vindo.
— Não se culpe, você não tem culpa. Vamos ver o que sua mãe tem e socorre-la. Vou estar contigo, irmão.
Puxei Juan de lado em um afago rápido e continuamos a seguir o mais rápido possível para minha casa.