Ester
As entrevistas foram rápidas, as duas últimas se duraram dez minutos cada, foi muito, pois m*l ouvi o que os homens falaram. Peguei seus documentos, um deles até tinha uma carta de recomendação, por isso vou deixa-lo como um possível candidato futuro, mas no momento o moreno não saía da minha cabeça.
— E aí, o que achou dos candidatos? Tinham dois gatinhos, hein.
— Achei que estivéssemos selecionando secretários e não modelos. – Comentei rindo da cara da minha prima que soltava seu coque apertado fazendo uma cara feia.
— Não sei como essas mulheres aguentam, meu couro cabeludo está doendo, já.
— Podia ter deixado os cabelos soltos.
— Não passaria o ar severo.
— Se acha que foi um diferencial, então Ok.
Ela veio e se sentou na minha frente, colocou os braços sobre a mesa e voltou a questionar.
— E aí, como foi? Algum favorito?
— Sim, e você vai me chamar de louca.
— Por quê?
Contei a ela sobre os candidatos, e sobre o David em especial.
— Ah, ele é gatinho.
Passei a mão no rosto porque minha prima constantemente esquece de que estamos à procura de um secretário e não de um modelo.
— Não é pela beleza, algo nele me cativou e eu não sei o que é. Ele falou sobre oportunidade, disse que na vida dele tudo foi muito difícil, que trabalhou durante o dia e estudava a noite por isso não teve tempo para fazer outros cursos. Me pareceu esforçado, e desesperado por uma oportunidade que nunca lhe dão.
— Então vai dar uma chance a ele?
— Não sei, Vanessa. – Esfreguei o rosto. – Pra você ter uma noção, eu m*l ouvi os outros candidatos que vieram depois dele. Mas tem o primeiro candidato, parece ser muito experiente, tem um ótimo currículo, só pedir para não me entregar nada escrito à mão, porque a letra daquele homem é ilegível.
— Então está na dúvida entre o experiente, que teve diversas oportunidades na vida e provavelmente não terá dificuldades em encontrar outra, mesmo que não seja esta, e o cara que nunca dão oportunidade porque é pobre?
— Resumiu bem a situação difícil. O que você acha?
— Acho que deve dar oportunidade ao rapaz pobre. Ele precisa de uma oportunidade, o que estava a seu alcance ele fez, agora precisa que alguém acredite nele. Sem contar que seu sexto sentido já o tinha escolhido.
— Desde quando você é exotérica, Vanessa?
— Não sou exotérica, mística ou sei lá mais o quê. Mas não pode negar que é verdade.
— Tudo bem, tem razão. Mando mensagem agora?
— Não! Manda amanhã de manhã, vai matar o rapaz de ansiedade.
— Vou matar de todo jeito.
Rimos enquanto ela retirava a blusa.
— Preciso tirar essa roupa também, não aguentaria um dia secretária, Deus me livre.
— Tem um banheiro, sabia disso?
— Pra quê, banheiro?
Continuou tirando as roupas e vestindo o vestidinho largo que havia deixado dentro da bolsa, no canto na minha sala.
— Vamos tomar um café? Estou cheia de fome.
— Vamos, mas tem dias que eu não sei o que é sentir fome.
Desliguei o computador, peguei a minha bolsa e me levantei.
— Tem que comer, Ester, e ir ao mé... Ester!
Ao dar o primeiro passo, cambaleei e quase caí, se não fosse pelos braços da minha prima.
— Você precisa ir ao médico, Ester, tem passado m*l há mais de uma semana. Não come direito...
— Estou bem, Vanessa. Pega uma água gelada pra mim ali, por favor.
Minha prima foi pegar um copo de água para mim e eu aguardei sentada, enquanto a fraqueza e tontura passavam.
— Vamos fazer um exame... – ela me entregou o copo com água gelada. – Eu tenho quase certeza que...
— Não viaja, Vanessa – Interrompi minha prima – Só não comi direito hoje e me deu fraqueza, só isso. Pode ser queda de pressão, qualquer coisa.
— Se você acha, tudo bem. Está melhor?
Bebo o copo de água com calma e percebo a tontura passar, junto com a onda de náusea, mas sobre isso eu não falei, pois ela me encheria mais a cabeça com isso.
— Melhor. Vamos fazer um lanche bem gostoso no café da esquina?
— Hum, delícia. Eu quero aquele bolo de chocolate deles, não tem bolo de chocolate melhor no mundo.
Me levantei com minha bolsa a tira colo e dessa vez não fiquei tonta.
— Então vamos de bolo de chocolate.
Vanessa ficou animada e hoje minha tarde terminaria no café com minha prima, depois iria para casa e amanhã seria o dia de mandar a mensagem para o selecionado.
***
David
Mal terminei meu dia de trabalho, as pessoas me perguntavam se eu estava bem, pois devido ao dia anterior, todos acreditavam que eu poderia ter uma crise de uma hora para outra. Mas na verdade, eu estava distraído com algo que mais parecia um sonho.
Terminei meu dia de trabalho e fui para casa. No ônibus, todo espremido e em pé, eu vagava imaginando que poderia ser um sonho ou uma pegadinha. Eu chegaria no dia seguinte na empresa e ririam da minha cara, dizendo que fui engano e que nunca me escolheriam entre os candidatos que se apresentaram.
Não falei nada na empresa que trabalho por pura insegurança. Se fosse uma pegadinha ou um engano eu acabaria perdendo os dois trabalhos. Mas também por precisar preencher meu tempo, se voltasse para casa o que faria o dia inteiro? Já não sei o que farei durante a noite. Dormir provavelmente não é uma opção.
Cheguei em casa e um cheirinho bom de café preencheu minhas narinas. Para chegar até minha casa, precisava subir uma ladeira bem cansativa, e para quem trabalhou o dia todo carregando caixas, veio em pé no ônibus cheio, é mais um motivo para duplicar a fome. Minha mente já começa a imaginar um café bem forte e um pedaço generoso de um bolo de fubá.
— Mãe! Cheguei.
— Oi, meu filho. – Ela vem da cozinha com um pano de prato nas mãos, secando-as.
— Mamãe, senta que tenho uma novidade.
— Novidade? O que aconteceu? É coisa boa, né, tá muito sorridente.
— É coisa boa, sim. Vem, sente-se.
Fui para a nossa pequena cozinha e puxei a cadeira para que ela se sentasse, e assim ela fez.
— Fala logo, menino, está me deixando ansiosa.
— Imagina, eu! Mamãe, recebi uma mensagem hoje da empresa e fui chamado para estar lá amanhã às 9h.
— Outra entrevista?
— Não, mamãe, me falaram que fui selecionado e devo levar os documentos exigidos.
— Ai, meu Deus. Então você conseguiu o emprego! – A mulher de pele escura colocou as mãos sobre a boca e os olhos arregalados brotavam lágrimas.
— É sim, mãezinha. É o que parece, pelo menos.
— Sim, conseguiu sim. – Ela se colocou de pé e me abraçou. – Eu sabia, meu filho, sabia que um dia seu esforço seria recompensado.
Senti suas lágrimas molharem minha camisa.
— Não é para chorar, mãezinha, é para sorrir.
— Estou emocionada, David. Estou feliz, e seu pai ficaria feliz em saber que seu filho está conquistando o que sempre desejou. – Ela se afastou para me encarar e colocou a mão em meu rosto. – Estou orgulhosa de você, filho.
— Mas ainda nem comecei a trabalhar.
— Mas vai. E o seu trabalho no carregamento, avisou que não iria mais trabalhar?
— Não. Às vezes tenho a impressão de que tudo isso é um grande sonho e que vou acordar, ou talvez um engano ou uma pegadinha.
— Tem medo de perder os dois. – Concluiu.
— Exatamente, e não estamos em condição de perder nada. O trabalho já não é de carteira assinada, nem direito a auxilio eu teria. Não posso arriscar.
— Te entendo, meu filho, mas amanhã você vai ter sua carteira assinada, tenho certeza.
— Assim espero.
— Vem tomar seu café, fiz bolo de fubá, sei que gosta.
Hum, minha mãezinha leu meus pensamentos.
***
Como esperado, não dormi a noite toda. Cochilei um pouco por volta das 5h da manhã, mas tive que levantar às 5h30min. Moro longe e não quero arriscar chegar atrasado.
O ônibus estava super cheio, quando saí dele tive a sensação de que estava todo amarrotado. Ajeitei a gravata e puxei o terno, levantei o queixo e entrei orgulhoso na empresa. Novamente fui observado pelas pessoas assim que entrei no local, não sei o que veem em mim.
Fui até a recepção que me indicou o andar do Rh e fui para lá. Fui atendido por uma mulher educada e muito bonita, ela me tratou muito bem e não me olhou esquisito com algumas pessoas me olhavam.
Conferiu todos os documentos, analisou algo no computador então eu fui liberado. Disse que a senhora Ester estaria à minha espera na sala dela. Meus documentos ficariam retidos por algumas horas, mas em breve seriam devolvidos.
Não estava acreditando, não mesmo. Na noite passada falei com meu amigo pelo aplicativo de conversa e expressei toda a minha dúvida, ele me encorajou, disse que não era uma brincadeira de mau gosto, e minha chance tinha chegado.
Minha mãe também tinha me apoiado, e essa vitória devo aos dois também.
Ainda estava no mundo dos sonhos impossíveis que se tornavam possíveis e deixavam a gente com cara de bobo na frente dos outros, quando a CEO abriu a porta de sua sala me convidando para entrar. Tive que acordar do meu sonho ou ele se tornaria um pesadelo.
— Olá, David. – Ela olhou algo no computador e continuou. – Gostei que foi pontual, vi que seus documentos estão todos OK e estão nas mãos da Geovana, existem mais alguns trâmites para a sua adesão à empresa, mas eu já quero te apresentar sua mesa e seus compromissos porque estou muito atolada em trabalho.
— Sim, senhora.
— Será que você já poderia ficar por aqui hoje mesmo? Tenho uma reunião e estou louca com tanta coisa para analisar.
— Claro que sim, senhora.
— Entendo que levará um tempo para se inteirar de tudo, qualquer dúvida poderá falar comigo ou com meu irmão, Heitor, irei apresenta-lo. A secretária dele vai te ajudar nos primeiros dias.
Pra não ficar repetindo “sim, senhora” só acenei com a cabeça.
Ela se levantou para me apresentar a mesa onde eu trabalharia e onde deveria aguardar a secretária que me ajudaria nos primeiros dias, mas deveria estar querendo ser demitido antes mesmo de ser admitido, pois tudo o que eu fazia ao segui-la, era observar o corpo lindo que aquela mulher possuía.