Ester
Faz um mês que fui traída por meu namorado em minha própria empresa, com minha secretária. Christian sempre envia flores, presentes e caixas de bombons para tentar fazer com que eu o aceite de volta, mas não sou tão otária quanto ele pensa.
É verdade que gosto do vagabundo, ele é muito bom de cama, muito bonito e tem uma conversa agradável, mas sei que ele voltaria a me trair, talvez fosse mais cuidadoso, mas continuaria me traindo.
A reunião com os acionistas a respeito do desligamento de Christian e da disposição das suas ações ocorrerá em poucos minutos e eu estou uma pilha. Estou sem secretária, a funcionária de meu irmão que me dá uma forcinha, mas eu preciso de uma profissional para mim, porém, não consigo confiar em ninguém. Fico pensando que qualquer um que colocar aqui, poderá me trair no dia seguinte ou até no mesmo dia, vai saber.
Vou para a sala de reuniões com minha pasta em mãos, e ao chegar ao local percebo que estou levemente atrasada. Meu irmão e todos os outros já estão aqui, e eu sempre costumava ser a primeira a chegar. Isso que dá estar se virando sozinha.
— Tudo bem com você? – Me irmão questiona assim que entro na sala.
Heitor sempre foi muito preocupado comigo, embora eu seja a irmã mais velha, ele se comporta como se ele fosse o mais velho e quisesse cuidar de mim o tempo todo.
— Levando – respondo enquanto arrumo os documentos na mesa como se não houvesse mais ninguém ali.
— Parece cansada.
— Isso é porque estou cansada. – O encaro para que ele veja as olheiras disfarçadas por maquiagem em meu rosto.
— Você precisa de uma secretária urgente.
— Estou bem assim.
— Está não.
— Estou, e vá se sentar, Heitor, preciso começar a reunião, depois conversamos.
— Ok, irmãzinha. – Levanta as mãos em rendição, me dá um beijo na cabeça e vai para seu lugar.
Começo a reunião. Agora tenho somente dois acionistas, cada um com cinco por cento, as ações de Christian poderão ser compradas por eles ou retornará para mim e meu irmão. Poderia abrir para alguém de fora, mas não quero mais ninguém. Quanto mais pessoas, mais problemas para lidar, mais opiniões a considerar e mais burocracia, ou seja, mais dor de cabeça.
As ações acabaram distribuídas entre os dois homens a minha frente, que ficaram felizes com o investimento, visto que a empresa de cosméticos de minha família cresce cada vez mais no mercado, principalmente depois do investimento em novas pesquisas e tecnologias que fizemos.
Datas agendadas, trâmites assinados e alguns apertos de mãos e pronto, mais uma reunião realizada com sucesso, sozinha.
Caminho pelo corredor com meu irmão azucrinando em meu ouvido. Passei m*l a noite toda e também na parte da manhã, mas não queria preocupa-lo. Não era só o trabalho duplicado que estava me deixando com a cara de defunta que carregava, mas também o jantar e o café da manhã que não pararam em meu estômago.
— Hoje é sexta-feira, irmãozinho, vou sair mais cedo e descansar, tudo bem? Fica tranquilo, eu estou bem. – Toco em seu rosto com a intenção de tranquiliza-lo.
— Sua mão está gelada. – Pega em meus dedos, os levando em seu pescoço, como se precisasse daquilo para ter certeza. – É, está gelada mesmo.
— Está frio, é só isso.
— E você está pálida. Te conheço há mais de vinte e quatro anos, sei que não está bem.
Heitor me leva até a sua sala que é mais próxima que a minha e me senta em sua cadeira, vai buscar um café, e eu acho que realmente estava precisando de um cafezinho bem quente.
O café sem açúcar, como eu gostava, entrou por minha garganta aquecendo meu corpo que não percebi que estava frio. Senti meu rosto se aquecer com o café, realmente o líquido quente estava me fazendo falta.
— Melhor? – Questionou ele.
— Melhor, agora preciso ir para minha sala, tenho uma imensidão de papéis para analisar.
Me levantei, ajustando a saia preta colada ao corpo.
— Sabe que não precisa fazer tudo sozinha.
— Eu sei, mas gosto do meu trabalho.
— Tudo bem. – Fui até ele e deixei um beijinho estalado em seu rosto e segui para minha sala.
Nós dois éramos tudo o que tínhamos de família. Nossos pais morreram em um acidente quando ainda éramos bem jovens, meu tio tomou conta da empresa até que eu entrasse na faculdade e pudesse começar a me inteirar de tudo. Quando me formei com mérito em administração aos 23 anos e assumi o lugar dele na empresa, eu era a CEO mais jovem que a empresa já teve desde a fundação em 1923, e além do cargo, assumi uma dívida enorme devido a má administração da empresa.
Meu tio até segurou as pontas por alguns anos, mas deixou a empesa respirando por aparelhos. O trabalho que eu e meu irmão fizemos ao longo de três anos, que incluiu a venda de 15% das ações, nos colocou de volta no jogo. A empresa cresce cada dia mais, mas junto com seu crescimento, o trabalho também cresce e eu estou sem secretária, o que acumula milhões de papéis na minha mesa.
Abro a porta e vejo minha prima e amiga, Vanessa, sentada em minha cadeira e mexendo em meus papéis.
— O que você tá fazendo aí? – Pergunto e ela se levanta vindo na minha direção.
— Amiga, você tá atolada, hein. Entendo nada disso aí, mas deu pra ver que tem trabalho até o talo.
Abracei-a e fui para minha cadeira me sentar e ela se sentou na cadeira de visitante.
— É, tenho muito trabalho mesmo. Estou sem secretária há um mês e cheia de novos contratos.
— Por que não contrata uma secretária? Olha, eu posso te ajudar na seleção. Consigo ficar com uma cara bem severa, é só colocar esse cabelo todo pra cima e prender em um coque bem apertado e um óculos redondo, pronto, todo mundo vai ter medo de mim.
— Ai, Vanessinha, você é uma comédia – comento – Mas depois do que aconteceu, não me vejo com uma secretária, mais. Fico pensando que eu nunca mais poderei arrumar um boy que a mulher vai ataca-lo.
— Se o problema é a secretária, contrato um secretário. – Solucionou e ela até que me fez pensar. – É uma boa ideia, não é? Na verdade, não é uma ideia minha, só lembrei do que minha chefe no hospital fez, ela passou por uma situação semelhante e decidiu que não queria uma secretária nunca mais. Então, contratou um secretário.
— É algo a se pensar, realmente. E o trabalho, como vai indo?
— Bem, já fiz dois partos sozinha. – Comemorou – Sabe, fiquei um pouco insegura na primeira vez, mas notei que era bobagem minha, pois já tinha feito tantos, a diferença era que sempre tinha um médico no comando, e dessa vez quem estava no comendo era eu.
— Parabéns, prima. Que tal sair para beber e comemorar essa vitória?
— Na verdade vim te chamar para almoçar. Você nem me perguntou por que eu estava aqui.
— Na verdade eu perguntei.
— Não do jeito certo.
— Para de bobeira, Vanessa. – Nos dávamos muito bem desde crianças, tínhamos a mesma idade, mas seguimos carreiras diferentes. Eu fui para a administração enquanto ela foi para a medicina e se especializou em obstetrícia.
— Vamos almoçar e no caminho te conto a novidade.
— Hum, tem novidade, então.
— É, eu tenho.
Tinha planos de passar a tarde analisando os papéis, mas não tinha como negar um almoço a minha prima. Seguimos para o restaurante mais próximo, era um lugar simples, com uma comida maravilhosa e preço bem abaixo do que costumamos encontrar em restaurantes famosos. Porém, ao sentir o cheiro da comida, não tive vontade alguma de comer.
— Você está bem? – Essa pergunta estava ficando bem frequente.
— Estou.
— Não parece, seu rosto está pálido e no seu prato ainda não tem nada.
Estamos em um restaurante self service e até agora não tive vontade pegar nada. O prato da minha prima estava recheado de saladas e um peito de frango.
— Não estou com vontade de comer nada disso.
— Precisa comer, Ester, não pode ficar só se alimentando de café e trabalho.
— E você precisa comer mais do que isso aí no seu prato. – Tentei desviar a atenção dela, mas não adiantou.
— Ainda não terminei de pegar. Vamos ver o que pode abrir seu apetite. – Caminhou frente aos pratos analisando o que tinha disponível.
— Essa lasanha está com a cara ótima.
— Eca, queijo. – Ela me olhou com seus olhos azuis desconfiados.
— Você sempre amou queijo. – Continuou me encarando, mas voltou a andar e eu a segui. – Vamos para as saladas.
Na estação de saladas tinha muitas opções e milagrosamente senti vontade de pega-las. Nunca fui fã de salada e parece que agora era a única coisa que despertou meu interesse.
Coloquei um pouco de cada salada disponível e coloquei aqueles molhinhos que eles colocam à disposição, pareciam deliciosos.
— Quem diria, Ester na salinha – comentou rindo – Mas você precisa de uma proteína e pelo jeito as gorduras estão fora de questão.
Terminei meu tour pelo restaurante com um prato parecido com o da minha prima, o que não era comum.
— Não estou de dieta, se é isso que está se questionando.
— Na verdade, eu diria que você parece grávida, mas não deve ser isso, não é?
O comentário da minha prima me fez parar de mastigar e a encarar, meus olhos escuros nos azuis dela.
— Não, não é isso – respondi, mas a dúvida começou a rondar minha cabeça. Mas não a deixei perceber que aquilo me preocupou. – Agora me conta a tal novidade que você ainda não me contou.
— Estou abrindo meu próprio consultório.
Falou super empolgada com sua conquista e eu fiquei muito feliz por ela.
— Que maravilha, parabéns. Acho que devemos mesmo sair para beber.
— Tenho uma ideia muito melhor de comemoração. Vamos marcar uma viagem, só nós três. Passar um fim de semana em algum lugar fora do Brasil bem legal.
— Estamos no inverno, então, podemos procurar um lugar mais quentinho.
— Praia, já temos aos montes aqui – contestou ela, sabendo da minha ideia.
— Mas as praias de fora sempre são diferentes. Que tal o Caribe, Flórida também é uma opção de praia.
— Que tal, Disney?
— Disney? É sério?
— É sério, e a comemoração é minha.
— Tem razão, Disney então.
Destino decidido, e continuamos a comer e eu disfarçando o pequeno incômodo que comecei a sentir. Não podia ser gravidez, não podia. Seria castigo demais.