Capítulo 2

1741 Palavras
David A vida nunca foi fácil para mim, sempre surge um desafio diferente desde que eu tinha onze anos de idade. Com essa idade meu pai veio a falecer e ficamos somente minha mãe e eu, ela era do lar e não tinha renda, meu pai vivia de biscastes e sem ele nossa família viveu a pior fase de nossas vidas. Minha mãe começou a fazer faxinas e eu vendia bala no sinal de uma rodovia importante próximo a minha casa. Vivíamos em uma comunidade tida como perigosa aqui no Rio de Janeiro, mas nada de r**m aconteceu com minha família enquanto vivíamos aqui, porém nessa mesma época algumas ofertas de arrumar dinheiro de maneira mais fácil começou a surgir, mas eu sempre me lembrava das palavras de meu pai e nunca as aceitei. Até os quatorze anos foi assim, depois comecei a trabalhar em uma oportunidade que surgiu em um serviço comunitário e mesmo conseguindo menos dinheiro, era melhor para estudar, pois não ocupava o dia inteiro e era bem menos perigoso. Eu olhava apara aquela comunidade e pensava que não queria aquela vida para sempre e o único caminho era estudar para ter uma carreira e uma vida melhor para mim e minha mãe. Dinheiro para pagar faculdade eu não tinha, nem se eu trabalhasse pra pagar o dinheiro seria o suficiente, então entrei na faculdade pública e na turma noturna, onde eu ainda podia trabalhar durante o dia, mas aí estava mais um desafio: estudar e trabalhar sempre entrava em conflito. Depois de algumas reprovações e alguns períodos de atraso, aos 27 anos me formei em administração, porém agora tinha outro problema: arrumar um emprego na minha área. Todos pediam algum curso que eu não tinha ou exigia que eu falasse pelo menos o inglês com fluência, porém, como uma pessoa pobre, pagar um curso de inglês e viajar nunca foi opção para, e isso me custou a possibilidade de apender uma nova língua. Enquanto não surgia a grande oportunidade que me tiraria da lama junto com minha mãe, eu trabalhava carregando caixas para abastecer caminhões em uma empresa de alimentos. Mas ainda não acabou, não, pra piorar minha mãe foi diagnosticada com câncer no seio. O tratamento público existia, mas era sacrificante: horas de espera, remédios que atrasavam, consultas remarcadas e esse tipo de coisa. — Aí, moleque... – meu amigo Juan veio falar comigo com um jornal enrolado na mão. Ele sempre trazia os classificados do jornal para mim, seu pai não deixava de ler o bom e velho jornal de papel e meu amigo o trazia sempre para mim. – Dei uma olhada por cima, e parece que tem alguma pra você aí. — Tá de s*******m? – Larguei a caixa no chão e peguei o jornal — Tá marcado de caneta aí, mas tem uma parada, a entrevista é pra hoje de tarde. Li o anúncio no jornal e vi que era uma vaga de secretário executivo e as principais exigências eram: Pertencer ao sexo masculino, formado em administração de empresas. Sem exigência de experiência ou cursos extras, o que sempre me impedia de conseguir um emprego na minha área. A vaga fornecia bom salário, trabalho de segunda à sexta de 9h às 17h, benefícios para o empregado e dependentes e oportunidade de crescimento na empresa. — Vai que é tua, moleque, essa é tua, já tô até vendo. Olhei o relógio e era onze da manhã e a entrevista era às 15h no centro do rio. Tinha que ir em casa tomar banho e pôr um terno, arrumar minha mala vazia, só pra dar aspecto de executivo e ir de ônibus até lá. Pra dar tempo teria que sair agora. — Cara, não vai dar tempo. Tenho que terminar esse carregamento. — Vai perder tua chance por causa disso aqui? Moleque, põe a mão na barriga agora e grita. — O quê? – Olhei incrédulo para os olhos castanhos de Juan. — Tô falando, tem que ser agora. Olhei rapidamente e vi um dos chefes passando. Coloquei a mão na barriga e me encolhi gritando. Juan começou a pedir socorro e pedir um carro pra me levar para o hospital. Olhei para ele e não via como isso poderia dar certo. Continuei na minha atuação e ele na dele. Outros funcionários começaram a abandonar seus afazeres e vieram me socorrer, Juan me segurava de um lado, um senhor de mais idade me apoiou do outro e os dois começaram a me levar para algum lugar. — O que ele tem? – As pessoas perguntavam. — Acho que é a vesícula. – Falou Juan. — Ih, vai ter que operar, quando a vesícula dá isso... – comentou outro que eu nem sabia quem era, pois continuava a fingir uma dor que não tinha, mas fui levado a um carro qualquer que me levou até o hospital com Juan ao lado. — Precisa de ajuda com ele? – O senhor perguntou, foi ele que nos deu carona até aqui. — Tá tranquilo, daqui eu o levo até lá em cima. Continuei fazendo expressão de dor e Juan fingindo me carregar pela rampa do hospital até que o senhor que me trouxe aqui, deixou o estacionamento e pegou a pista. — Bora, moleque, a carona já te adiantou metade do caminho. Só pegar um ônibus pra casa, agora. — Minha carteira com dinheiro tá no armário da empresa. — Tenho dinheiro aqui. – Juan meteu a mão no bolso e tirou umas notas emboladas. – Toma, deve dar pra suas passagens. — Poxa, cara, valeu mesmo. Não sei o que faria sem você. Pode pegar o dinheiro na minha carteira lá no armário. — Que nada, mano, tu ralou por muitos anos estudando e trabalhando, merece essa chance. E teus documentos? Tem nada na carteira, não? — Tem, mas nada importante. A identidade fica em casa, tenho medo de perder ou ser assaltado, aí não a deixo na carteira. — Aí, sortudo, mesmo. Vai lá, moleque, vai se atrasar. Apertamos a mão um do outro e segui para o ponto de ônibus, o jornal estava dobrado no cós da minha calça e o dinheiro emprestado no bolso lateral. Ao chegar em casa, minha mãe estava deitada assistindo TV. — Em casa essa hora? O que aconteceu? – Questionou ela. Minha mãe passou a ficar em casa depois de diagnosticada com câncer de mama. — Tenho uma entrevista no centro da cidade às 15h, preciso correr ou não vou conseguir chegar a tempo. — Mas como te dispensaram tão cedo? — É uma longa história, depois eu conto pra senhora. Dei um beijo nos cabelos grisalhos de minha mãe e vou tomar meu banho e me arrumar. Essa é a oportunidade de ouro da minha família, se eu conseguir esse emprego posso dar a minha mãe uma vida melhor: casa, alimentação e tratamento médico. Tudo o que ela merece por ser a mulher batalhadora que ela é. *** Ester — Tem certeza que é uma boa ideia? – Questiono à minha prima que está vestida de secretária severa. — Certeza absoluta. Não sou secretária, mas sei fingir. Agora senta aí, e se prepara para receber os boys. Observei minha prima com aquela roupa apertada que ressaltava seu bumbum, ela nunca foi de se vestir assim, mas está de saia lápis, blusa de mangas curtas, salto alto e o penteado que segundo ela a deixaria com cara de brava. — Colocou anúncio no jornal, sua doida? Na internet seria bem mais fácil. — Coloquei e marquei para as 15h, os gatinhos devem estar chegando por aí. — Colocou que exigências, sua maluca? — Nada demais, ser macho e ter faculdade de administração. Coloquei a mão no rosto e comecei a rir. — Só isso? — De exigência, só. — O que mais você colocou? – Já estava ficando com medo das atitudes loucas de Vanessa. — Bom salário, benefícios e possibilidade de subir na empresa... essas coisas que todos botam. — Até que não foi nada demais. Agora é se preparar para as bombas que virão. — Não fala assim, amiga, seu boy tá vindo aí, eu tô sentindo. Ela pegou a prancheta e saiu rebolando, só minha prima para me animar e me fazer esquecer de certos detalhes que vêm assombrando minha mente. Tem uma semana que sinto enjoos pela manhã, cansaço e sono no fim da tarde e uma perda de apetite inexplicável. As coisas que me faziam salivar estão surtindo efeito contrário. Fico enjoada só com o cheiro. Coisas frescas, como saladas, me fazem menos m*l. Não estou usando perfume porque toda vez que sinto meu próprio cheiro sinto vontade de vomitar. Todos os sintomas apontam para algo que eu ainda prefiro ignorar porque se fizer um exame e der positivo, não sei o que farei. Olho para o relógio e vejo a hora passar. Enquanto minha prima não volta, tento olhar alguns documentos, mas estou ansiosa com a ideia da doida e não consigo me concentrar. Quando dá 15h em ponto, Vanessa com sua pose de secretária severa, entra segurando uma prancheta e retira dela uma ficha preenchida por uma letra quase ilegível e coloca em minha mesa. Pisca um olho e abre a porta para o primeiro candidato entrar e a tal entrevista tem seu início. O primeiro candidato era um homem de quarenta e cinco anos, muito experiente, fluente em inglês e francês, mas a letra era terrível. Como leria as coisas escritas por ele? O segundo candidato era um homem mais jovem, porém detinha um vasto conhecimento na área e um currículo impecável embora ainda estivesse em busca de seu primeiro emprego, mas a cara dele com aqueles olhos verdes, me lembraram de Christian, então, estava fora de cogitação. Era possível até que eu o chamasse de Christian de vez em quando. Então veio o terceiro candidato. Só pela aparência, embora estivesse trajando um terno, dava para perceber que era humilde. A pele parecia m*l tratada, o terno era limpo, mas não era de alfaiataria. Ele não falava outro idioma, apenas conseguia ler um pouco em inglês, mas expressou desejo de aprender. Era um candidato pouco provável, mas que ficou em minha mente. Depois dele vieram mais dois homens, um jovem e um mais velho, mas por algum motivo eu não conseguia pensar em mais ninguém, somente naquele moreno com a pele castigada pelo Sol, de algum jeito ele me cativou.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR