Pré-visualização gratuita ROTINA AZUL PICASSO
“Ô, Doutô, o meu filho ainda está em Bangu. Por quê? ” – Sobressaltada entra Cremilda no escritório de Carlos, pegando-o de surpresa, pois, naquele momento de total fastio, vagava pela onipresente pornografia virtual.
“Dona Cremilda, peço paciência. Van Hallen não cometeu crime algum; não houve flagrante; ele sequer cometeu uma contravenção em sua vida, o que é muito comum para meninos da condição e da localidade de vocês: mas… entenda… o juiz achou que ele deve permanecer preso, pelo menos até o julgamento”, - inicia o seu discurso condescendente e Carlos sempre mantendo o tom solene característico. Sua máscara prontamente ao alcance para momentos assim.
Tal transfiguração era um sortilégio: transmutava de vídeos de pornografia onde a figura feminina era espancada até ter o corpo coberto de hematomas, vilipendiada por um grupo de homens com seus imensos pênis em riste, para uma expressão consoladora para com seus clientes em segundos.
Voltando ao caso da cliente: Van Hallen era um jovem da favela do Borel que sintetizava o passado e a contemporaneidade real do Brazil, já exaustivamente decantada nos nossos grandes pensadores de brasilidade. Por que, a despeito de alguns já terem escrito há mais de cem anos, permanecem em sua grande maioria repletos de contemporaneidade, principalmente os mais furiosos?
O menino do Borel era um símbolo repulsivo para alguns por ter simplesmente nascido, porém amado sempre e intensivamente por sua avó Cremilda. De fato, não cometera crime algum, mas estava perambulando pelas ruelas do Borel com tal desenvoltura que chamou a atenção; acompanhando-o, agentes o viram passar ao asfalto e seguir para a Tijuca; quando Van Hallen estava na Rua Conde de Bonfim, avistou Sérpico, amigo de infância e envolvido com outro símbolo que sintetiza a história de nossos tristes tópicos: o tráfico de drogas, mais especificamente o seu varejo, porque sua superestrutura é misticamente escamoteada dos editoriais da imprensa de massa.
Mesmo porque o Estado havia permitido a livre iniciativa dos grandes conglomerados de drogas subsidiários às Trustes da Fé e da Milícia após o domínio da Holding Tráfico-Igreja-Milícia, - mas, quanto ao varejo das bocas, não.
Como Sérpico estava visado há tempos, os agentes se aproximaram. Sérpico sempre sensorial esvaeceu na sombra de uma viela; Van Hallen fora pego e, logo em seguida, indigitado pelo crime de associação ao tráfico. Ele buscava ar e espaço, não conseguia mais reprimir suas noites nos limites de sua casa de um cômodo com quatro primos residindo; o calor era demais; precisava expandir seus movimentos. Fora preso e estava há dois anos esperando julgamento.
Dois anos de prisão por um crime que não cometeu. Uma aberração de que se tornara um dos grandes fatores de discussão em bares. Os bares sempre fervilhando de ideias que espumavam junto à cerveja em uma grande borbulha azeda de sobrevida ao senso de realidade o qual, em sua química, perdia na potencialidade sedado para a virtualidade.
Começou com óculos de realidade paralela e terminou com o orgasmo imaginário. Na época em que o velho folhetim televisivo e o football entraram em derrocada como os bastiões da apatia popular à falta de comida na mesa das famílias, começou a ascensão de outras novas formas de dança ilusória.
Seria a hora do fanatismo religioso de viés sensorial e de falsa noção de pertença a uma sociedade paralela à concreta envolta ao sujeito e, de outro lado, o orgasmo imaginário. Quando a primeira passou a ter mais destaque, - o que culminou com a formação de outro grupo de força que ansiava por destronar o Aparelho da Grande Cruzada – o segundo teve de ser incrementado.
Com efeito, começou por permitir que jovens embrulhados por um invólucro de lantejoulas e conduítes de energia espalhados por seus corpos alcançassem orgasmo múltiplos sucessivos, através de terminais na genitália e no cérebro soltando descargas elétricas nos centros nervosos.
Acabou que os bancos de praças passaram a ficar encharcados de espermas e os jovens passaram a sofrer de transtorno obsessivo compulsivo por sexo. Isso revoltou a frente dos fundamentalistas que possuíam como trunfo o discurso de repreender tudo o que lhes parecia agradável.
E então, o orgasmo imaginário foi aos poucos saindo do mercado como entretenimento de massas e apenas sobreviveu por meio do mercado n***o, que a tudo engloba, além, é claro, do consumo velado pelos Homens de Luz, os enviados de Cristo…
BREVE HISTÓRIA DE SÉRPICO
Asdrubal era um policial exemplar (daqueles resistentes - dois por cento da Corporação), entrou por um ideal de integrar a sociedade a uma justiça total. Imaginava uma sociedade completamente ligada por um laço que a torna una.
Negou todos os arregos possíveis; todos os dinheiros imagináveis; exatamente por isso, fora exonerado – sem ao menos ser comunicado por que ao certo estava sendo desligado sumariamente. Foi encontrado morto na Floresta da Tijuca.
Já Opalo, outro dos dois por cento, estava cansado de suas férias vendidas pelo P1 do Recursos Humanos a “quem dava mais” – lances a partir de cinquenta reais, - queria pegar o Frescão na Novo Rio. Pensou que poderia ter tempo com sua família e amar sua mulher.
À espera do ônibus, aparece na frente do policial Sérpico Pirado, que conseguira esse apelido por dirigir como um possuído seu táxi pirata, matara uma senhora do coração por estar a 150 km/h e um passageiro dos seus quarenta anos por, após cobrar o preço que achava o certo (independente de taxímetro – “o que é isso? ” – Respondia sempre que perguntado sobre a ausência desse instrumento em seu veículo), simplesmente resolveu assaltar a mão armada o passageiro e matá-lo. Sérpico achava que taxistas devem ser regiamente remunerados, pois exercem uma profissão essencial para a sociedade, portanto, deveriam receber o salário de um presidente da República (o salário extra, obviamente não o oficial).
Sérpico começou sua carreira dirigindo a alta velocidade o carro do pai em plena Avenida Brasil às quatro horas da madrugada. Bateu em dois caminhões de transporte de Coca-Cola e de Brahma, respectivamente. Após atropelar uma senhora de idade, foi abordado por policiais, que apontaram suas armas para a cara do meliante. Os policiais, depois me contaram, não sabiam que se tratava de um menor, concentraram-se na senhora com fratura exposta e desacordada. O Sérpico Pirado tinha 12 anos naquela época. Ao sair do carro, estava todo mijado.
Quando conheci Opalo, ele estava no Batalhão Turístico, num dos aeroportos da cidade, e ele me contou ter prendido Sérpico Pirado três vezes. Isso tinha acontecido após o policial ter comunicado haver vinte carros roubados na área de apoio, onde ficam as cargas que serão embarcadas nos aviões. Nunca entendi muito bem o que Opalo me contava: o fato desses carros roubados estarem numa área restrita a funcionários autorizados do aeroporto; outra coisa que nunca entendi bem foi o porquê de a Polícia Federal não tomar atitude alguma, afinal para as cargas entrarem naquele local passavam até por Raio-X...
Após Opalo comunicar a frota de carros roubados, foi tomar café, quando, pela primeira, vez viu o Pirado. Chamou sua atenção o ar de perdido, de desorientado, a despeito dos passos serem rápidos e firmes, como se praticasse Cooper vinte e quatro horas por dia; exalava cheiro de suor agridoce, olhos esgazeados e enevoados: olhos de corça tomados pela catarata. Sobraçava um pacote de proporções imensas, um embrulho que lhe cobria todo o torso e obrigava seu braço direito abrir-se como uma asa em pleno voo.
Ele perseguia uma turista espanhola e ficava assediando a mulher aos gritos, dizia: ‘usted es uma menina de ouro! Se derreter usted dá até o anel! ” – Que poeta...
A obcecação do Pirado encima da espanhola foi suficiente para Opalo abordá-lo. Primeiro interpôs-se entre o louco e ela; esta intensificou os passos olhando para trás assegurando-se de que não estava mais sendo perseguida.
- “p**a madre de Dios! Nunca volveré a este país de mierda outra vez! ”
Vendo a aproximação, tomou um ar de contenção, coçando os olhos para esconder os fragmentos de vidro que lhe davam o aspecto de quem cheirou mais prilimpimpim do que o Peter Pan.
Era uma daquelas tardes saarianas do Rio, a farda de Opalo estava empapada de suor e o colete com o peso multiplicado pelo líquido que meu corpo suava. Arrependeu-se de ter comprado por meus próprios meios aquela merda de capa de colete, mas uma semana antes sumiram pistolas Pt100 calibre 40, assim como as munições; isso por que o cofre de reserva de armas era um modelo 1932 que vivia aberto, uma vez que tinham esquecido as suas senhas.
Ou o suor de lágrimas de novela das oito ou peito estourado por uma bala daquelas relíquias furtadas.
Voltando ao Sérpico Pirado e o primeiro contato com Opalo: quando viu o policial, tentou compor-se para parecer com um sujeito normal, mas percebendo que não conseguia disfarçar o enorme pacote sob seu braço direito; apontou para cima parecendo querer me alertar sobre o iminente ataque de algum inimigo extraterreno, depois disparou a correr feito um avestruz enfurecido. Com o braço esquerdo estendido abria cominhos ao estilo de jogador de futebol americano; derrubou transeuntes e só parou quando deu de encontro com uma montanha à sua frente: ninguém passava por cima de Jacinto, um n***o de dois metros de altura e forte como a reserva de Ouro da Inglaterra - era o faxineiro do aeroporto.
Caiu desmaiado no chão gritando “mamãe! Não vi o trem! ”
Opalo sobraçou o suspeito e o levou para a Delegacia do aeroporto. Lá chegando o Pirado já estava desperto, mas se fingindo de desacordado.
Suas mãos foram algemadas na cadeira de alumínio carcomida da DP; somente a presença do policial seguraria o suspeito lá, pois a cadeira se partiria com um sopro de fada.
Atado à cadeira abriu os olhos e começou a encenação de louco. Cantava o clássico Ilariê da Xuxa (típico atentado à cultura popular dos anos oitenta)
- “Sou amigo da Xuxa! Ninguém mexe comigo! Muito menos vocês smurfs da Polícia. Vocês vão tudo p’ro olho da rua depois da Copa do Mundo! ” – Assim tive de suportar aquela ladainha elétrica de mordomo da Xuxa; e continuou: - “Tenho status de diplomata por ser um servo da rainha”.
- O que tem nesse pacote, ganso? – Perguntou Opalo incisivo sem lhe dar tempo para tergiversar.
- “Meu salário de mordomo da Xuxa”.
Com isso, finalmente apareceu o álibi que precisava para esgarçar aquela merda de pacote; qual foi a surpresa ao ver notas de dólar americano, muitas, uma enormidade de dinheiro: ali deveria ter por volta de um milhão de dólares.
- “Me diz a procedência disso, vagabundo! E para de se fazer de 851 (maluco) que eu sei que você é mais esperto do que aparenta ser”.
- Foi Marlene quem me pagou o ordenado desse mês.
- Que Marlene?
_ Marlene Matos.
A Capivara de Sérpico foi puxada; simplesmente já tinha sido preso por quase todos os tipos criminais prescritos no Código Penal e adjacências; era um Al Capone de Irajá e tinha por últimas ocorrências a manutenção de uma empresa de táxi pirata; usava jóqueis (aqueles que chamam os clientes que estão saindo do aeroporto para embarcarem no pirata) os mais inusitados possíveis: um de seus jóqueis tinha sido condenado por estupro seguido de morte, mas conseguira anular o processo alegando confissão inquisitorial, ou seja, assumiu o crime na base da porrada levada na DP.
Depois disso, Sérpico começou a mandar beijos para OPalo; que olhou para ele com a expressão mais sombria que conseguia fazer; surtiu efeito; o Pirado baixou a cabeça e começou a urinar nas calças exatamente como tinha feito quando garoto e fora apreendido por policiais na Avenida Brasil.
- O dinheiro; quero saber a origem! – Mantive a expressão soturna, pois viu que surtia efeito no inquirido; o cheiro de urina começou a se evolar pelo ambiente; teve de conter meu asco para não perder o ritmo que imprimiu no rosto para amedrontar Ezequiel.
- Não me olha assim, não! Está me lembrando minha ex-mulher Andreza, era a melhor travesti da Glória, mas de um gênio insuportável! – Falava chorando como uma criancinha, agora era o momento do bote; eu obteria a informação a qualquer custo.
- Desembucha, safado! – Gritou com a voz embargada ao estilo Dirt Harry, meu cenho tão vincado como a Pedra do Arpoador.
- Para! Estou com medo! - Agora ria de tal forma que comecei a suspeitar que ele era 851 mesmo!
Vendo aquilo pensou o policial em uma forma sutil de torturar maluco; pegou o bonequinho do Snoopy que estava em cima de um armário à direita da entrada da sala de interrogatório; começou a surrar o brinquedo, enforcar, torcer o pescoço, quando Sérpico estupefato gritou que parasse e que iria falar tudo.
O dinheiro era de transações de câmbio clandestino que reunia carregadores de malas do aeroporto e taxistas piratas. – Se quiser eu te arrego uma merenda de cinquenta mil dólares.
- Tá tudo gravado, 851! Você está preso e é melhor ir xisnoveando os teus comparsas. – Vociferou incondicional Opalo (esse era um Clint Estwood!)
Daí ele deu o papo de todos os envolvidos.
Essa foi a primeira vez que Opalo prendeu Ezequiel Pirado.
Alguns anos depois, voltou a prendê-lo: desta vez foi por agressão física a um travesti; que descobriu ser Andreza, seu grande amor da Glória. Ele cafetinizava-a para executivos alemães da Merckyl; eles adoravam se lambuzar no ventre viscoso de maresia da mulher de Sérpico.
Andreza estava malocando uma porcentagem cada vez maior do que cabia ao Pirado; esquecendo-se do amor e suas nuances, encheu a cara dela de pancada, por que, como nos diz os Salmos de Madame Satã: a f**a é boa, mas o dinheiro é mais!
Tempos depois Opalo encontrou Sérpico fumando maconha no estacionamento; o policial estava buscando mais carros roubados nas áreas reservadas do aeroporto, quando se deparou com o cretino de novo. Sempre o calor asfixiante do Afeganistão; a roupa colando no corpo e a p***a do colete pesado como uma mortalha de concreto: viu-o por entre as gotas de suor que lubrificavam seus olhos.
Estava lá todo pimpão sobre um Jaguar preto estilo James Bond, cujo brilho cegava. Com a camisa aberta e óculos escuros vem-cá-meu-puto, pendia de seu peito um medalhão de São Jorge tão grande que, por si só, já deveria ter matado uns quarenta dragões. Sutilmente Opalo se aproximou e abotoou o canalha.
– Escuta Ezequiel você não tem lugar melhor para dar tapa na pantera, não? Some daqui com isso, sua pústula.
- Xará, fumar maconha agora não é mais crime, sou usurário de canaubis e daí? Vai fazer o quê? É meu direito de livre expressão!
Com o rosto fechado o policial impôs aquela expressão que impressionara Sérpico no passado, seus olhos enegrecidos pela torpeza inexprimível da condição humana num mundo hediondo de maldades.
Vendo a velha expressão sombria estilo Clint Eastwood; Ezequiel pulou do capô do Jaguar; prestou continência, jogou longe o cigarro de maconha, sorriu para mim e foi embora.
Aparentemente, fora embora para sempre, mas antes ele tentou de novo arrego com Opalo – ofereceu dez mil dólares (só transacionava com dólar) para deixá-lo montar sua boca de fumo no estacionamento -, o policial arreganhou os dentes num ríctus mórbido e disse para ele:
- Eu não sou mão de macaco! Você está preso!
Voltando a Van Hallen e a realidade do Brazil
No que diz respeito ao caso do Van Hallen, Carlos esteve empenhado no primeiro ano. Depois, não mais. Cansara de sentir sua vida e sua carne impregnada dos impasses embriagados da burocracia louca; sabia que o rapaz apodreceria na prisão, mas necessitava de dinheiro e dona Cremilda era tão pressurosa e amava tanto seu neto que - não havia outra forma de viver – tiraria seu sustento dessa fonte. Por isso alongava as conversas, por isso mantinha acesa uma última indelével fagulha de esperança na velha.
Recriminava o uso do termo “velha” ao pensar em Cremilda. Não porque ela ainda possuísse s***s e ancas suspensos, mas por sua condição de provedora de dinheiro suficiente para o pagamento de suas despesas mais imediatas. Sua postura recomposta, sua pulsão freada pelo dinheiro.
Não possuía mais a percepção de indivíduos, de pessoas, mas sim a visão de massas a serem comprimidas pela maldita burocracia que tanto lhe afetava o ânimo em tempos de mocidade; a chegada à meia idade podou o idealismo; refreou sua empatia: era apático ao sofrimento alheio.
Sentimento alimentado pela necessidade financeira, frustração impotente frente ao inexpugnável aparelho administrativo de dominação que tritura Van Hallen e o próprio Carlos e, por fim, o Obstáculo, o eterno Obstáculo que interrompe a felicidade.
O Obstáculo era uma instituição jurídica que começou a ser usada como formulação legal a partir dos anos 2040.
Servia como um recenseamento dos jurisdicionados. O emérito doutor Epaminondas III, jurisconsulto respeitado no país inteiro e na América Latina, aplicou-o como meio de solucionar o excesso de demandas jurisdicionais, pois a quantidade vertiginosa causava excessivas e constantes dores de cabeça em magistrados. Consistia num filtro de pessoas por meio de seus perfis e renda.
Assim como havia casos de emergência extraordinária na carreira para descendentes dos Juízes Pentecostais, o ganho da causa para remuneração dos advogados também dependeria da aferição da capacidade aquisitiva da parte que iniciava a demanda. Isso se dava através desse instituto: o Obstáculo.
Eliminava-se uma gama imensa de processos ainda em seu nascedouro, não mais podendo a opinião pública reclamar do excesso de processos em curso e sem solução.
A atenção ficaria exclusivamente voltada para aqueles que passaram a contar com o status de abençoados; pessoas cuja categoria hereditária ou arrivistas ou self made men conseguiram, e, por meio desse requisito, através de seus esforços ganhavam a prestação jurisdicional.
Alguns estavam incluídos na categoria de abençoados uterinos: aqueles que por imenso esforço no interior de suas mães agraciadas de fortunas, desenvolveram a força necessária que um nascituro precisa desempenhar para poder vir ao mundo.
Este instituto jurídico, como passou a ser chamado após sua inserção nos manuais de ensino e compêndios, tornou-se rapidamente popular no meio do povo pelo trabalho da nova categoria que se notabilizava, os Sábios da Divindade – subdivisão dos Homens de Luz.
“Mas que bosta! ” – Exclama Carlos após Cremilda deixar seu escritório. - “Que tenho eu a ver com todo esse lixo de inoperância e repressão? Sou um advogado, e nada além disso. O que pude alegar, aleguei! Não sou o responsável por essa aberração; não forjei flagrante, não atribui um apelido para criar a falsa impressão de criminoso a esse garoto. Não. Não o mantenho preso por seu aspecto”, - busca consolo na autocomiseração. Elaborara um estratagema de “advogado objeto” que lhe afastava das mazelas dos que o procuravam.
Assoma o crepúsculo no horizonte. O dia é findo. Sai de seu escritório; encontra Aderbio p***o, advogado também, tanto indiferente como Carlos, porém mais longínquo de pensamentos sobre o fardo de seu trabalho e o reflexo na vida que leva. Algumas pessoas conseguem manter distância das angústias existenciais sublimando a dor com alegria autêntica. Como Aderbio p***o conseguia realmente era uma incógnita, pois sua vida não era nada fácil… A começar por ser também um advogado atuante em processos de duração anciã.
“Sabe Aderbio, vamos tomar uma. Hoje estou de saco cheio disso tudo” – esse era o código para beberem a fôlego após o trabalho. Assim, automaticamente iam ao Arco do Teles e emborcavam na fada líquida que os acolhia e lhes acalentava a masculinidade ferida por juízes arrogantes e servidores autômatos de serventias de tribunal.
Era o momento de afirmação da virilidade, quando crispavam mãos e lábios e xingavam e esbravejavam como antigos guerreiros sumérios tesos vencedores de batalhas. Conquistadores, empunhavam suas tulipas de Chopp como espadas recurvas ensanguentadas. Machos fodões naquela utopia alcoólica.
- Temos que arrebentar tudo Carlos. Esse lixo é uma merda! – Esbraveja Aderbio, – Vamos mijar na estátua do líder deles ...
- Deles quem, Aderbio?
- Ora, deles quem, Carlos? Dos “Batmans”... Dos juízes.
- Você está falando da estátua do Michael Jackson no Dona Marta? – Retrucou irônico.
- Você está bêbado Carlos!
- Talvez...
Assim, lacônico, dispensa Aderbio e segue para casa. “Chega desse dia” era o que repetia para si sempre que caminhava nas ruas de Aldeia Campista, sempre a frase incensada pelo odor de fezes e urina destilado pelas ruas da cidade.
No meio do caminho da volta, Adeodato, outro companheiro de lidas da advocacia terceiro-mundista, suspenso em um poste de luz (que forças ocultas o impulsionaram a estar naquele lugar já distante de onde estávamos?); pegou meu braço e me arrastou de volta ao Centro da Cidade Maravilhosa.
- Agora vamos começar tudo de novo! – Olhos esgazeados como de costume após litros da Valquíria líquida, aos berros ordenava.
Estava bêbado como um e******o, subia a escada espiral com lances sucessivos que se estreitavam a cada degrau. Adeodato, meu colega estratégico, ou melhor, meu colega Caixa Econômica, tinha me convidado para conhecer a nova casa de entretenimento pubiano da Carioca. O ar de névoa de gelo seco era sufocante e a quantidade de prostitutas e homens naquele cubículo era de matar um claustrofóbico.
Devo esclarecer: Adeodato tinha se especializado em cair dentro de agências do banco público para, com a ajuda do Desembargador Pafúncio, ganharmos indenizações – eram caídas homéricas, trambolhões nas escadas, escorregões nos sanitários, cabeçadas nas portas giratórias – um gênio esse cara!
Ele era minha galinha dos ovos de ouro. Suas quedas eram os objetos recorrentes de minhas demandas judiciais e, assim que distribuídas, comunicávamos ao nosso desembargador que, por sua vez, intimidava o juiz natural da causa a dar procedência. E que essa procedência não fosse a da tabela interna do Tribunal, que era por volta de mil fecais (perdão: reais) por cabeça: o valor de cada indenização de nossos processos era o que a justiça mandava pagar para os abençoados (ricos, empresários, famosos e megatraficantes). Recebíamos sempre trezentos mil reais por ação, divididos na ordem de 50% para o desembargador; 30% para o juiz da causa; 15% para mim e o restante para o gênio das quedas.
Iniciei minha carreira de advogado há trinta anos atrás: pensava que era uma forma de corrigir os erros da sociedade, aprendi que esse ofício tão-somente é a depressão! É a forma mais direita de se deparar frente a frente com toda a podridão que o Estado brasileiro impõe aos seus cidadãos. Minha profissão não era mais respeitada, simplesmente porque ela só funciona em países de democracia consolidada: o que, por óbvio, não é o caso do Salvelindo Auriverde Pendão da Esperança.
Meu nome é Carlos e sou um advogado brasileiro.
Naquela sexta-feira, recebêramos nossa pequena fortuna e Adeodato me chamou, após todos os porres possíveis, para conhecer o Trepada Azul, nova boate da rua da Carioca; tinham lhe falado que era um sucesso, com putas lindas e de todas as cores e jeitos possíveis.
Que havia uma chamada Valeusca que até recitava versos de Fernando Pessoa para clientes intelectuais alcançarem seu clímax – ela usava óculos de lentes grossíssimas e caminhava nua com aquela naturalidade de Salomé de olho na cabeça de seu João Batista.
Entramos no puteiro quando já tínhamos mamado uma garrafa de uísque inteira entremeada a incontáveis latinhas de cerveja. Nossa condição era patética, e, como estava dizendo, aquela escada caracol, que terminava seus giros a cada andar, levava a uma recepcionista, uma mulher nua e suada que tentava fisgar o seu homem, ou melhor, sua grana.
Essas mulheres estavam suando como se estivessem em uma sauna e, de fato, se tratava disso, posto que não havia refrigeração no prédio e o calor era saariano, lembrando o sol que nos fritava nas ruas.
Sentamos, eu e Adeodato, em cadeiras de plástico da Brahma, vermelhas com o d***o. A minha estava cedendo de um pé, mas aguentaria meu peso. À nossa frente um renque de armários, desses de fórmica, com portas de um metro e setenta e uma profundidade suficiente para duas pessoas se amoldarem.
Foi quando vi Sayonara, uma n***a de dois metros com o corpo escultural, suas carnes brilhavam e seus cabelos pareciam serpentes coleando em volta de um jarro da Ilha de Creta; uma deusa de ébano, uma tez de negritude marcante; um olhar verde hipnótico e ancas volumosas, mas comprimidas como se esculpidas milimetricamente.
Vênus Calipígia!
Sayonara tinha acabado de sair de um dos armários e o cara que estava com ela, maculando sua beleza dos trópicos, não passava de um sujeito franzino, amarelecido pela rotina dos escritórios de advogados da Rio Branco: um frango viscoso e encurvado.
Ela o tinha devorado, a firmeza das carnes brilhantes daquela p**a dos céus era demais para aquela “formiga”, ela deve tê-lo castrado com sua v****a telúrica esfomeada e extática.
Adeodato deu um tapa no meu ombro para me despertar daquele sonho de divindade gonocócica.
- Acorda, doutor! Tá apaixonado? Quer que eu marque o casamento?
- Qual é, Adeodato? Você sabe que mulher nenhuma me fuzila mais com esse negócio de aliança e pensão! – Mantinha os olhos em Sayonara enquanto respondia de soslaio a ele. – Tá me achando com cara de b***a para me apaixonar por p*****a agora? Só falta essa!
- Tu num tira o olho daquele rabão que acabou de sair do armário, doutor; não é possível, ‘tás com torcicolo?
- Estou pensando em pôr uma fórmica dessas no quartinho de empregada lá de casa. Não tenho uma dispensa e as compras ficam todas jogadas em cima da mesa da cozinha onde eu como.
- Sei... sei... ‘Tás querendo é a fôrma daquela b***a sentada na tua cozinha; tu num quer morrer de inanição, isso sim. Há, há, há!
E com essa risada estúpida de vampiro da Central do Brasil, Adeodato chamou Sayonara para vir à nossa mesa conversar.
Movimentos de felina, aquele brilho da pele n***a me cegava; conforme suas coxas iam se movimentando em minha direção, sentia a força da vida, a origem e o ventre da humanidade inteira surgindo como a Afrodite nascendo da concha na preamar de Chipre...
Eu te amo! Eu te amo! Meu coração batucava esse monótono samba em minha cabeça; quando ela estancou à minha frente era um monólito, um templo da perfeição que estava ali.
-Sente-se, meu amor. – Balbuciei como um neném filho da Marilyn Monroe ao se deparar pela primeira vez com os s***s expostos para a primeira amamentação.
- Prazer, sou Sayonara! Estou cursando psicologia e trabalho aqui para manter meu curso na faculdade. O que você acha de irmos para o Olimpo (era assim que era chamado aquele armário velho e surrado, ela me explicou).
- Vamos conversar primeiro, por favor. – Nunca gostei de fast food, muito menos humano; o ato s****l, por mais vulgarizado, massificado que estivesse sendo visto por uma sociedade doente como a nossa, para mim sempre foi algo de sagrado.
- De onde você é, Sayonara?
- Bahia, querido; da terra dos orixás, do amor e da dança.
Enquanto ela adjetivava sua terra natal eu deixei cair um filete de baba pelo canto da boca; eu estava fascinado.
Daí começou uma briga acirrada na entrada daquele andar, onde ficava a recepcionista nua no aguardo dos clientes. Mais um amarelecido de escritório do Centro do Rio chegou, mas esse era diferente, já conhecido do lugar. Nunca soltava uma nota sequer, mas se roçava sobre as recepcionistas. Sua baba escorrendo pela língua viscosa de homem que vê mulheres como carnes era repugnante e suas mãos famintas, sedentas do sacrifício da p**a: tudo isso era o anúncio da chegada de um porco!
Eu e Adeodato partimos para cima do animal e o trucidamos, afinal não passava de mais um franguinho da Rio Branco.
Com a cara partida, fugiu no sentido do Largo da Carioca.
- Deixa estar, agora ele teve uma merecida lição.
- Sim! Não se deve nunca babar no pescoço de uma mulher; isso é indigno de um homem e um desrespeito à jugular feminina.
- Que sabedoria, doutor, por isso é que só trabalho com o senhor, tu sabe das coisa. Imagina lamber as giusguslar dos outro, rapaz!
- Adeodato – Perguntei estupefato. – Como você passou na faculdade e na prova da ordem com esse teu português tão... tão.... Peculiar?
Ao que me responde ele: Carlos, meu cumpadi, estou em ascensão junto com nossos pastores, parlamentares e presidentes! – Enfatizando: - Nunca se esqueça do Juiz Moro e sua gramática patológica...
Quando voltei para minha mesa da Brahma, Sayonara já tinha entrado de novo no Olimpo. Por causa daquele amarelo burocrático nojento eu a tinha perdido e outro frango estava conspurcando a pele solar da minha amada.
- Adeodato, você ainda tem umas prises de cocaína com você, aí?
- Sempre, meu rei; se dá dor de cabeça ou estômago, não tem remédio melhor!
- Me dá umas cinco, vou tirar Sayonara das mãos desse iconoclasta.
- Pô, irmão. Deve ser brabo esse negócio de iconouscrasta; deve ser pior do que 157, e mais: deve ser crime que se comete só contra putas: um crime putativo!
Tomado ainda pelo resquício de testosterona quando soquei a cara do malfeitor de prostitutas: chutei a porta do armário, que se quebrou tão facilmente que foi aí que me senti o próprio super-homem. Joguei as prises de cocaína na cara do frango e mandei que saísse e as levasse como forma de compensação.
Imediatamente enlacei Sayonara; levantei-a no estilo de galã de novela das oito e, indiferente aos boquetes que vinha fazendo em sucessivos pênis, beijei-a apaixonadamente.
O Rio cidade do pecado, do tiro e da b***a, não era mais acolhedor para mim e minha rainha.
Não haveria mais amor?