capítulo 2

508 Palavras
O começo do casamento não foi como Ana Flávia imaginava. Não havia luxo. Não havia conforto. E, muitas vezes… nem havia comida suficiente. Ele trabalhava em obra, ganhando pouco, lutando como podia. E ela, que veio de uma casa onde nunca faltou nada — onde sempre tinha comida na mesa, onde podia lanchar quando quisesse — agora vivia uma realidade completamente diferente. Logo no primeiro mês, Ana Flávia entendeu. Arroz… farinha… E, em dias melhores, um ovo ou uma salsicha dividida. Era isso. E mesmo sabendo que, a poucos minutos dali, seus pais estavam bem… com comida farta, com mesa cheia… ela nunca desceu para pedir nada. Nunca. Porque, na cabeça dela, aquilo seria admitir que tinha falhado. Que não estava dando conta. Que tinha feito a escolha errada. E Ana Flávia não queria parecer fraca. Então ela se calava. Sorria. E aceitava. Desde os 10 anos, ela carregava um talento nas mãos. O crochê. Aprendeu ainda criança e, com o tempo, foi se aperfeiçoando. Fazia tapetes, peças delicadas, lembrancinhas… tudo com carinho. Também fazia unhas quando aparecia alguma cliente. E cada moeda que ganhava… ela não guardava pra si. Colocava dentro de casa. Comprava o que faltava. Ajudava como podia. Tentava ser a esposa perfeita. Porque, no fundo… Ana Flávia só queria ser feliz. Só queria que desse certo. O primeiro ano de casamento passou assim: entre dificuldades, esforço e silêncio. Mas havia algo que a incomodava. Dores constantes no estômago. Fortes. Incômodas. Estranhas. Ela não desconfiava de nada. Seu ciclo sempre foi desregulado, então aquilo nunca foi um sinal claro pra ela. Até que, em um dia comum, cansada de sentir aquelas dores, resolveu fazer um teste. Sem expectativa. Sem esperança. Apenas por fazer. Mas quando olhou… O mundo parou. Duas linhas. Nítidas. Visíveis. Reais. O coração disparou tão forte que parecia que ia sair do peito. As mãos tremiam, os olhos se encheram de lágrimas. — Não… não é possível… — sussurrou, sem acreditar. Mas era. O exame de sangue confirmou. Ela estava grávida. Ana Flávia chorou. Chorou como nunca tinha chorado antes. Porque, depois de tudo que ouviu… depois de anos acreditando que talvez nunca pudesse viver aquele momento… ela estava carregando um milagre. Dias depois, ainda em choque, foi fazer a ultrassom. Deitou na maca, nervosa, ansiosa… com o coração cheio. A médica começou o exame em silêncio… até que, de repente, falou surpresa: — Meu Deus… você não sente o bebê mexer? Ana Flávia franziu a testa, confusa. — Não… A médica virou a tela. E ali estava. Pequeno… mas cheio de vida. Se mexendo. Se movimentando. Existindo. Os olhos de Ana Flávia se encheram de lágrimas no mesmo instante. — Você já está com quatro meses de gestação — disse a médica, ainda surpresa. Quatro meses. Quatro meses… e ela nem sabia. Ana levou a mão até a barriga, como se tentasse, pela primeira vez, sentir de verdade. O coração batia forte. A emoção sufocava. Ali… naquele momento… ela entendeu. Nada mais seria sobre ela. Agora… era tudo por aquele bebê.
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