capítulo 3

412 Palavras
A notícia da gravidez se espalhou rápido. E, pela primeira vez em muito tempo, a casa dos pais de Ana Flávia se encheu de alegria. Abraços. Sorrisos. Lágrimas. — Eu vou ser avó… — a mãe repetia, emocionada, segurando o rosto da filha. Todos vibravam. Todos comemoravam. Mas, no meio da felicidade, também havia dúvidas. Porque, para eles… não fazia sentido. — Como assim quatro meses, Ana Flávia? — perguntavam, confusos. — Você não percebeu nada? E, de fato, parecia estranho. Mas Ana Flávia sempre foi mais cheinha. A barriga não mudou de forma evidente… não teve enjoos no começo… não sentiu nada que levantasse suspeitas. Até então. Porque no segundo dia depois da descoberta… tudo mudou. Os enjoos vieram com força. Fortes. Intensos. Incontroláveis. Ela vomitava o dia inteiro. Mal conseguia se alimentar. A dor no estômago, que antes já existia, agora parecia pior do que nunca. Era como se o corpo dela tivesse decidido sentir tudo de uma vez. Entre exames e consultas, veio outra notícia… dessa vez, ainda mais assustadora. — Seu útero é pequeno… — disse a médica, com cuidado. — É muito difícil levar uma gestação assim até o final. As palavras caíram como um peso. Quase impossível. Ana Flávia tinha apenas 19 anos. Faltavam três meses para terminar o ano letivo, concluir a escola… seguir com os planos que ainda restavam. Mas, naquele momento, tudo mudou. Ela foi colocada em repouso. Sem poder ir à escola. Sem poder sair. Sem poder viver a vida como antes. As atividades começaram a ser enviadas para casa. Ela tentava fazer tudo com dedicação, mesmo passando m*l, mesmo cansada, mesmo com medo. Ela queria terminar. Queria conseguir. Mas quando chegaram as provas… nada do que ela havia estudado estava ali. Nada fazia sentido. Era como se todo esforço tivesse sido em vão. E, no final… ela reprovou. Aquilo doeu. Doeu mais do que ela esperava. Não era só a escola. Era mais um sonho ficando para trás. Mais uma parte da vida que ela precisava abrir mão. Naquela noite, deitada, com a mão sobre a barriga ainda pequena, Ana Flávia chorou em silêncio. Não de arrependimento. Mas de medo. De insegurança. De cansaço. Ela estava perdendo muito… mas, ao mesmo tempo, carregava tudo. Respirou fundo, enxugou as lágrimas e sussurrou, quase sem voz: — Vai valer a pena… por você. Porque, mesmo com dor… mesmo com medo… ela já sabia. Agora, mais do que nunca… era tudo por aquele bebê.
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