Capítulo 4

458 Palavras
Com o passar dos meses, a gravidez de Ana Flávia não ficou mais fácil. Cada dia era uma luta diferente. Repouso, dores, enjoos… e agora, uma nova preocupação: o parto. Por conta das limitações do corpo dela, o acompanhamento precisava ser constante. Não era uma gestação simples. Cada consulta era essencial. E foi aí que, mais uma vez, alguém apareceu para segurar o que ela já não conseguia carregar sozinha. O pai dela. Sem pensar duas vezes, ele começou a pagar todas as consultas. Noventa reais por mês. Pode parecer pouco para alguns… mas, naquela realidade, fazia toda diferença. Ana Flávia ia sempre acompanhada da mãe. Era ela quem segurava sua mão, quem fazia perguntas, quem prestava atenção em cada detalhe. E, quando surgia qualquer exame a mais, qualquer necessidade inesperada… lá estava o pai dela novamente. Ajudando. Sustentando. Protegendo. Enquanto isso… o marido dela trabalhava. Ou pelo menos… era o que parecia. No começo, Ana Flávia não questionava. Ele dizia que estava tentando, que estava fazendo o possível, que as coisas iam melhorar. E ela acreditava. Como sempre acreditou. Ele ganhava entre 300 a 350 por semana. E, mesmo assim, o dinheiro nunca rendia. Nunca sobrava. Nunca dava. Era sempre ela… fazendo contas. se apertando. tentando equilibrar o pouco que tinham. Comprava o básico. Economizava em tudo. E, ainda assim, tentava guardar um pouco. Porque havia um objetivo. O parto. Naquela época, um parto particular custava cerca de 2.500 reais. Um valor alto demais para quem m*l conseguia manter o dia a dia. Mas Ana Flávia tentava. Com esperança. Com esforço. Com fé. Só que, aos poucos… algo começou a incomodar. Pequenos detalhes. Pequenas atitudes. Pequenas ausências. O jeito dele… sempre cansado demais… sempre distante… sempre com a mesma expressão. — Eu tô tentando… — ele dizia. Mas aquilo já não soava mais verdadeiro. Porque tentar… não era só falar. Era agir. Era estar presente. Era assumir. E ele não assumia. Não se interessava de verdade pelas consultas. Não fazia questão de acompanhar. Não se envolvia. Era como se tudo aquilo… não fosse com ele. E, pela primeira vez, Ana Flávia começou a enxergar. A enxergar que, enquanto ela lutava todos os dias… enquanto ela enfrentava dor, medo e renúncias… ele apenas… existia ali. Encostado. Parado. Vivendo atrás de desculpas. E, no fundo… uma verdade começou a doer mais do que qualquer outra coisa. Talvez… ele nunca tivesse realmente querido aquilo. Talvez… nunca tivesse querido ser pai. Muito menos… aprender a ser homem de verdade. Naquela noite, sentada na beira da cama, com a mão na barriga, Ana Flávia ficou em silêncio. Pensando. Sentindo. Entendendo. E, pela primeira vez… uma dúvida nasceu dentro dela. Será que… ela estava realmente acompanhada? Ou já estava sozinha… há muito tempo?
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