Esforço pelo bem
Depois de boa parte da noite estar forçando Winnie a falar sobre livros, decidi dar uma trégua. O assunto já estava ficando pesado, e a jovem loira entediada. Assim que o jantar ficou pronto, fomos direto para a sala de estar, onde seria servido. Gilbert sentou-se ao meu lado, e logo quando Winifred viu, sentou-se também, deixando-o entre nós duas; Diana sentou em nossa frente, ao lado de Jerry, e Mary e Bash, um em cada ponta.
A mesa era grande o suficiente para caber todos nós. Mesmo assim, eu ainda estava incomodada em ter que dividir Gilbert com a perua loira.
Diana toda hora estava a encarando, mas ela, cheia de classe agia como se o mundo fosse cor de rosa. Gilbert puxa o celular durante a refeição e nos encara um tanto confuso, sua expressão a maioria das vezes natural, acho que confusão mental faz parte do histórico de Gilbert.
- Tenho más notícias - ele mexe os ombros - parece que começou uma nevasca.
- O que? - me levanto para olhar a janela - não dizia na previsão que isso ia acontecer.
- Eles realmente não avisaram - ele diz vindo atrás de mim.
Encaramos a parte externa da casa, e somos surpreendidos com uma grande quantidade de neve caindo do céu escuro. Estava tão forte e tão intenso, que eu já imaginava o que estava por vir.
Uma ligação de Marilla me tira de meu transe, e eu paro de pensar por alguns segundos para poder falar com ela.
"Anne? Vocês estão na casa de Gilbert ainda?"
"Sim Marilla"
"Deixe-me falar com a moça que cuida dele por favor"
Caminho até Mary que me observa atenta.
- Minha... - respiro fundo - Marilla quer falar com você.
"Alô?"
Mary sai por alguns instantes da sala, e Winifred me observa com dictério, afronto-a e ela desvia.
- Anne - Mary me entrega o celular.
"Anne, converse com Mary... Até breve, se cuide"
"Até breve Marilla"
- Parece que Matthew não consegue sair com a caminhonete.
- Então Gilbert pode nos levar, não pode? - o encaro.
- Na verdade, as ruas estão repletas de neve, falaram na previsão que só vai piorar, então acho melhor vocês passarem a noite aqui.
Todos trocamos olhares, até eu e Winifred, que no momento era o único motivo que me deixava feliz em saber que eu passaria a noite na mansão de Blythe.
- Acho que não temos muita escolha - Winifred se levanta.
- Aqui tem muitos quartos - diz Gilbert otimista - não tantos para cada um ficar com um.
- Temos cinco quartos Gilbert - diz Mary também otimista.
Gilbert me encara e sinto minha bochecha ferver, não Gilbert, por favor não sugira que eu durma com...
- Anne fica com Diana - ele ergue os ombros.
- Winifred fica comigo - diz Mary - e vocês garotos, cada um em um quarto.
Todos concordamos.
- Enquanto isso, podemos terminar a nossa refeição? - diz Gilbert - eu ainda estou com muita fome.
- Seria estranho se não estivesse - Mary enfatiza.
Sinto minhas mãos frias, certamente depois da notícia eu fiquei assim, era como se uma parte do meu coração deixasse de bombear a quantidade de sangue necessária para irrigar as minhas extremidades.
Nos sentamos novamente, seja lá quem foi que preparou o jantar, ele estava fabuloso.
- Essa é uma das melhores comidas que eu já comi - diz Bash lendo por alguns minutos meus pensamentos.
Mary nitidamente fica retraída, o que indica que ela foi a responsável por um paladar tão aprimorado.
- Mary tem jeito com a cozinha - Gilbert elogia - sempre teve, não é?
Mary assente. Sinto minhas mãos tremerem.
- Está com frio? - Gilbert segura em minha mão, deixando-a quente.
Winifred nos encara, e derruba "acidentalmente" o copo de suco em Gilbert.
Ele se levanta e acaba me molhando também.
Diana suspira forte, como se me avisasse que aquilo certamente foi proposital.
- Me desculpe Gil - a loira pega o guardanapo e desliza em parte de sua calça.
- Não tem problema - ele responde educadamente - eu devo subir para me trocar.
- Deixe Anne no quarto dela para que ela faça o mesmo - sugere Diana - afinal, ela também se molhou.
Se bem conheço Diana Barry, ela usou uma estratégia para que eu também saísse do cômodo, assim, Winifred não teria possibilidades de nos acompanhar, digo, acompanhar Gilbert.
Quando estamos subindo, um grande questionamento manipula minha mente imatura, e se agora, estivéssemos prontos para o passo dois? Sinto as bochechas quentes.
- Você está bem? - Gilbert leva a mão a minha bochecha - está vermelha feito uma pimenta.
Desvio os olhos e foco o chão.
- Eu eu estou ótima - repuxo o lábio em um breve sorriso - qual é o seu quarto?
Ele aponta para o último quarto do corredor.
- Interessante.
- Quer conhece-lo?
Meu corpo entra em combustão espontânea.
- Eu não deveria - respondo sem graça.
- Conhecer o meu quarto não significa que... - ele da uma risada cínica - algo a mais vai acontecer.
- Não deveria acontecer - ergo os ombros - afinal, você tem visitas.
- Não pensei que seria tão difícil - ele suspira forte.
- Quer mais um chute na canela Gilbert? - lhe encaro - você achou que me convidaria para entrar em seu quarto e eu...
- Não Anne, pelo amor! - ele amassa o guardanapo - estou falando que não pensei que seria tão difícil fazer você interagir com as visitas.
- Desculpe - digo envergonhada - eu deveria ter imaginado que estava falando disso.
Ele põe a mão debaixo do meu queixo e o ergue fazendo com que nossos olhares se encontrem.
- E então, você quer conhecer meu quarto, ou não?
. . .
O quarto tinha uma decoração excepcional, trabalhado em azul (minha cor favorita) e prata. Os objetos eram todos aparentemente novos, inclusive um telescópio, aponto para o objeto que nos permite ver o céu com clareza.
- Eu não sabia que você gostava de ver as estrelas.
- É uma das coisas que mais amo fazer.
Me viro assim que noto que ele está prestes a tirar a camisa, mas me virar era em vão porque eu sabia que meu subconsciente daria um jeito de bisbilhotar, o vejo através do pequeno espelho em sua cômoda. E ele, já sabendo que eu estava o vendo dá um belo sozinho malicioso.
- Está tudo bem bisbilhotar - ele brinca - afinal, se eu estivesse no seu lugar faria o mesmo.
- Gilbert! - o repreendo.
- Estou brincando - sua voz é mansa.
Ele pega uma roupa e depois entra em uma das portas que aparentemente é a suíte de seu quarto.
Analiso cada canto, com a intenção de manter a memória vivida em minha mente para sempre.
Mesmo sabendo que, a única coisa que vai perpetuar nos meus pensamentos é vê-lo sem camisa.
- Quer ver? - ele sai vestido apontando em direção ao telescópio.
Movimento a cabeça em um sim e ele me mostra como usar.
- Talvez não seja possível ver além disso - diz - está nevando.
- Me leve até o meu quarto - peço - eu também preciso me trocar.
. . .
Já estávamos todos acomodados, e Diana tagarelava o tempo todo, eu não podia condená-la por isso, até porque, se ela havia adquirido essa mania um tanto irritante de falar demais, a culpa era exclusivamente minha.
- Essa garota dissimulada! - sua voz é histérica.
- Diana, acho que devemos tentar dormir - sugiro - já está tarde.
Ela se vira e em poucos segundos, cai no sono. Já eu, não acostumada com a cama, pensando o que Gilbert estava fazendo, apegada na lembrança de seu abdômen nu perfeitamente moldado, pensando exclusivamente em como seria beijá-lo em um local não público. Respiro fundo, e me viro na cama, mas nada, a insônia decidiu chegar e acabar com a minha expectativa de um sono restaurador.
Me levanto. Eu precisa de água, e diferente de meu quarto, esse aqui não tinha uma garrafa pronta esperando-me.
. . .
(Narração Gilbert)
A insônia não permitia com que eu entrasse em um descanso profundo, pensar que Anne estava dividindo o mesmo teto que eu, mas não a mesma cama, era torturador. Talvez eu não devesse pensar em como seria tê-la em meus braços por completo, mas era inevitável pensar, principalmente a sentindo a poucos metros de mim.
Escuto o barulho de uma das portas se abrindo. Por sorte, meu quarto ficava no final, e eu poderia ver quem estava saindo, meus instintos diziam que eu deveria ir atrás.
Caminho silenciosamente atrás da pessoa, ainda sem conseguir ver com clareza quem era, poderia ser Diana, e ela levaria um susto ao me ver as escuras a perseguindo. Mas não, assim que o primeiro reflexo de luz se direciona para a pessoa, consigo ver sutilmente uma mexa cor de fogo. Meu coração acelera e sinto o ar preso em meus pulmões. Como ela reagiria se me encontrasse a perseguindo no meio da noite? Pensaria que eu sou um p********o?
- Anne? - falo baixinho, mas ela não escuta.
Por um segundo chego a acreditar que talvez ela pudesse sofrer de sonambulismo, mas não. Ela entra na cozinha e procura por algo.
Acendo a luz e ela me encara assustada.
- Quer me m***r de susto Gilbert? - ela põe a mão no coração - meu Deus!
- O que está procurando? - falo sem graça enquanto remexo nos cabelos.
- Um copo - ela encosta no balcão - eu estou morrendo de sede.
Pego um copo com água e entrego para ela.
- Eu não queria te assustar - digo chegando perto.
Vejo que ela se arrepia, mas dessa vez eu sei que não é de frio.
Ela treme e fica vermelha novamente.
- Você está bem? - pergunto.
Ela fica estática, como se pensasse seriamente em algo, seus olhos estão em um ponto fixo da cozinha, e a mão vazia da batidinhas leves na superfície do balcão.
- Anne? - lhe chamo.
Daria tudo para que pudesse ler sua mente, e saber se ela pensa no mesmo que eu.
- Seria errado eu... - ela me encara - deixa pra lá.
Ela me entrega o copo e sai da cozinha apagando a luz rapidamente. Corro atrás dela e seguro em sua mão, estamos no escuro, não completamente, a luz de fora clareia através das cortinas, e eu ainda consigo olhá-la.
- Diga - falo em seu ouvido.
E sem dizer nada, ela me beija. O sentimento de possuí-la me contagia, eu me alerto mentalmente para não passar dos limites, mas é impossível, ainda mais sabendo que não tem ninguém nos olhando.
Suas mãos deslizam em minhas costas, e suas unhas se cravam. Ela me abraça com força, e o ar denso deixa o clima ainda mais contagioso. Assim que ela se desvincula, desliza o nariz no meu. No meio do breu nossos olhos ainda conseguem se encontrar. Ela tira minha camisa, e eu a puxo para mais perto de mim. Estávamos tão envolvidos, que nem sequer notamos a presença de outra pessoa no cômodo. A luz se acende, e antes que pudéssemos ver quem estava nos olhando, um apagão desliga tudo, inclusive as luzes do lado de fora.
. . .