O que eu mais quero..
O dia estava com cara de desastre, pela manhã ao acordar me deparei com uma espinha enorme centralizada em minha testa, a cólica espremia o meu útero enquanto eu tentava fingir que não tinha nada errado e para completar, eu estava com início de gripe. Puxo o celular e vejo a mensagem de Gilbert.
"Bom dia minha Anne com E"
"Bom dia Sr. Blythe"
Tomo um banho, lavo os cabelos e assim que estou pronta para o colégio, desço para tomar café.
— Então hoje a noite temos planos? — Jerry pergunta enquanto mastiga a torrada.
— Sim — relaxo os ombros enquanto tomo leite — você acha uma boa ideia? Sabe.. eu e a perua loira juntas...
— Não, eu não acho — ele me encara — até porque, obviamente ela veio para cá por um só motivo.
— Gilbert — reviro os olhos — como ele pode ser tão ingênuo?
— Ele não é ingênuo Anne — Jerry diz — só não quer que as coisas fiquem pairando no ar sem uma resolução, talvez queira mostrar pra garota que tem você.
— Ela é mais velha — pego o celular — bonita, rica e elegante.
— Como sabe de tudo isso?
Mostro o celular.
— Você pesquisou?
— Dei uma stalkeada — digo — ela se chama Winifred.
— Eu não sei porque te deram um celular.
— Para nenhum Billy Andrews se aproveitar da minha fragilidade sozinho — encaro-o — vamos?
— Vamos.
. . .
Penso no caminho em como conseguirei dizer a Ruby que eu e Gilbert estamos mais ou menos juntos. Assim que ela sai de sua casa, encara-me um tanto irada, mas não como eu imaginei que seria.
— Poderia ter me contado antes de todos postarem nas redes sociais — ela diz assim que chega perto — olha Anne, eu não ligo mais para Gilbert Blythe, ele é todo seu.
Diana troca olhares surpresos comigo, e Ruby caminha em nossa frente rumo ao colégio.
— Tem certeza disso Ruby? — pergunto — eu queria lhe dizer mas não tive tempo.
— Estava ocupada demais beijando-o, não é?
— Olha Ruby.
— É brincadeira gente — ela se vira ficando de frente para nós — olha, eu sempre soube que Gilbert não dá a mínima para mim, eu também não sou tão trouxa para ficar atrás dele implorando atenção. Já você Anne, desde que chegou, conseguiu atrai-lo de uma forma que não entendo — ela me observa de cima abaixo — enfim, sejam felizes.
— Não vai me odiar por isso?
— Eu não posso odiar você por ter um amor não correspondido. — ela cruza os braços — de verdade Anne, seja feliz.
O resto do caminho foi acompanhado de um silêncio atormentador, mesmo assim, talvez o dia não ia ser tão desastroso como pensei que seria. Pelo menos com Ruby, tudo estava bem.
. . .
(Narração Gilbert)
— Um jantar em minha casa? — eu perguntei a Anne que sugeriu.
— Sim, olha Gilbert, acho que não há lugar melhor para me apresentar os seus amigos, inclusive a moça que cuida de você.
— Mary?
— Se você quer algo a mais comigo Gilbert, tem que ir direto ao ponto. Eu já fui em sua casa, duas vezes nas minhas contas, na verdade quatro, duas eu entrei e bom, duas não.
— Então você quer que eu chame Winifred e Bash para jantarem em minha casa junto com você e Jerry e Diana?
— Precisa que eu desenhe? — ela me encara m*l humorada.
Respiro fundo enquanto penso.
— Quer que eu vá até sua casa pedir a permissão aos seus pais? — ironizo.
Ela me encara enquanto molha o lábio inferior.
— Não é o momento ainda — ela responde — olha, só acho mais prático e melhor para evitar qualquer desastre público e sei lá, sabemos bem que "fofocas de Springdale College" nos persegue, não quero que seja uma brecha para que eles nos exponha.
As palavras de Anne entram em minha mente, e penso realmente na proporção que tomaria o fato de estarmos todos reunidos em algum lugar público.
— Essa página não dá sossego.
— Você não gosta de ser o centro não é? — encaro-a.
— Essa não é a questão — seus ombros visivelmente estão tensos — eu gosto quando o assunto é importante, não quando são apenas pessoas que não tem o que fazer tomando conta de minha vida.
— Devo concordar, você tem razão.
— E então — Diana e Jerry se juntam a nós no refeitório — onde será o tão esperado jantar?
— Em minha casa — diz Gilbert.
Elas trocam olhares enquanto Jerry e eu, tentamos decifrá-los.
— Isso não é uma boa ideia — sussurra o francês encarando-me.
— Eu sei.
. . .
(Narração Anne)
Após a reunião do teatro corri para casa.
Eu precisava me arrumar para o jantar e precisava dar um jeito de fazer aquela espinha horrorosa sumir do centro de minha testa.
— Parece nervosa — Diana entra no quarto.
Ladeio de um lado para o outro ainda debaixo do roupão pois não havia encontrado uma roupa digna para a ocasião.
— Se vamos na casa dele, você pode usar algo mais ousado — ela sugere enquanto vasculha minhas roupas.
Ela joga uma calça jeans branca, uma regata com brilho e uma jaqueta preta de couro.
— Calça branca? — falo — sem chance eu estou em péssimos dias para isso.
— A calça branca te deixa com a b***a maior — ela ergue os ombros — ok, ok.
Deslizo o olhar para observar-me.
— Eu não quero parecer ser mais... Sensual que ela. Gilbert me conhece o suficiente para saber que eu não tenho nada de sensual.
— Veste isso.
Ela joga um vestido vermelho.
— Sério?
— Você não quer parecer uma criança que está procurando a mamadeira, quer?
Movimento a cabeça em um não.
— Então Anne, você não está em sua cidade do interior. Tem que ser um pouco mais ousada.
— Eu beijei ele na porta do colégio — digo enquanto tento a convencer de que sou ousada.
— Ele te beijou, a atitude foi dele — ela me encara com aqueles olhos verdes constrangedores.
— Eu prefiro algo mais simples.
Ela puxa uma saia preta de couro, com uma regata vinho de brilho.
— Sem reclamações — ela diz — veste isso.
— Você não acha exagerado demais? Vamos só na casa dele.
— Vamos na casa dele, conhecer uma garota que descaradamente quer roubar ele de você... Ah Anne, se eu estivesse no seu lugar, eu iria para deixá-la no chinelo.
— O que? — pergunto.
— Deixa para lá, é uma metáfora que os brasileiros usam.
— Interessante — encaro-a.
— Vamos, já são sete e meia, daqui a pouco temos que ir.
. . .
A casa estava impecável, o cheiro da comida invadia meu cérebro.
— Olá Anne — disse a governanta, conhecida como Mary.
— Olá Mary — digo cumprimentando-a.
— Venha — ela diz — Gilbert já vai descer.
Nós quatro caminhamos silenciosamente para a sala. Assim que Mary se retira, Diana cutuca minha perna, e diz cochichando.
— Estou com um pressentimento r**m sobre essa noite.
— Você não é a única, acho que por isso somos melhores amigas — lhe encaro enquanto as unhas cravam em minha perna — eu não consigo parar de fazer isso — aponto para as marcas.
— Você não pode ficar se machucando por causa disso. — ela diz com a voz um pouco falha — olha lá, Gilbert está vindo.
Gilbert desce as escadas, concentrado em manter os olhos fixos somente em mim. Seu estilo clássico e ao mesmo tempo elegante, seu sorriso galanteador e sua forma sedutora de falar.
— Oi pessoal.
Todas as vezes que Gilbert falava, era impossível não sentir o fervor derretendo minha sanidade, se eu pudesse, todas as vezes que ele falava, lhe daria um bom e demorado beijo.
A campainha tocou.
Gilbert veio até mim e me deu um beijo de cumprimento. O encarei sorrindo, e logo meus pensamentos foram inundados de negatividade, assim que a jovem loira, alta, bonita e sensual, adentrou a grande sala. Ela fixou os olhos em mim, como se estivesse prestes a me m***r somente com uma piscada.
— Onde está Bash? — Gilbert disse interrompendo aquele momento desagradável.
— Adivinha Gil — ela deu risada — está conversando com sua governanta.
Gilbert sorri. E ela chega mais perto de nós dois.
Ela lhe dá um abraço e um beijo, e estica a mão para mim.
Assim que nossos dedos se tocam, já sinto nossas energias opostas. Isso não daria certo, nunca.
— Eu sou Winifred — ela diz como se estivesse prestes a me picar com seus dentes afiados de naja.
— Eu sou Anne, com E.
Ela enlaça o braço em Gilbert, certamente para provocar-me, olhando por cima do ombro como se a guerra já estivesse ganha.
— Vamos Gilbert, mostre-me esse bela casa.
Enlaço meu braço no lado livre de Gilbert.
— Vamos meu amor — digo com ironia — vamos mostrar o quanto sua biblioteca é vasta, tenho certeza que uma jovem tão encantadora como Winifred certamente aprendeu o que sabe, com livros.
Ela revira os olhos, como se nunca em hipótese alguma gostasse de ler.
— Afinal, a biblioteca é sua parte favorita, não é amor?
Gilbert assente sem graça.
— Venha Winnie — falo com sarcasmo — vou lhe mostrar algumas leituras que fizemos quando EU estive aqui.
Faço questão de enfatizar, para ela saber que a terra que ela estava invadindo pensando que não tinha escritura, já tinha, e estava no nome de Anne.
. . .