Pequenos detalhes são mensuráveis, significados são infinitos.
O galho seco da Green Tree roçava no vidro da janela de meu quarto, fazia uma semana que eu não via o garoto que insistia em fazer minha mente ficar focada somente nele. Era incrível como algumas pessoas conseguem perpetuar sua estadia em nossa vida, apesar de pouco tempo ao nosso lado.
Respiro fundo, observo a árvore e todas as nuvens escuras que se apossam do céu em sua doce manhã.
A chuva era boa, e muitas vezes eu adorava sentir as gotas caindo do céu em meus cabelos. Mas hoje, não era um bom dia para isso acontecer pois eu estava obstinada a visitar Gilbert Blythe, prometi para mim mesma que caso ele não aparecesse no colégio, eu iria vê-lo. Eu já havia convencido Marilla, e ela estava convencida de que Gilbert Blythe é um bom garoto. Me levanto, passo ** em minhas olheiras para disfarçar, a preocupação me deixava com insônia, e estou certa de que só essa semana, eu li três livros de minha estante que estavam esquecidos.
Abro a janela, o vento forte assovia, eu sempre consigo encontrar formas de encaixar melodias naturais e a do vento é simplesmente esplêndida. Coloco uma boina azul, junto com um casaco preto e minhas calças jeans, Diana me ajudou a escolher minhas roupas novas, então, por que não usá-las para ver Gilbert? Seria uma boa maneira de causar boa impressão... Não que eu queira convencê-lo de algo...
O batuque oco soa no quarto e eu observo a porta semi-aberta.
— Entre — digo — eu já estou vestida para descer.
Jerry entra no quarto e sorri para mim.
— Diana tem bom gosto... — sua voz é convincente — está ótima Anne.
— Obrigada — digo — você acha que vai causar uma boa impressão?
— Diz por causa de Gilbert? — ele brinca — você podia estar até de bruxa, ele ia amar, Anne.
— Por que você diz isso com tanta certeza? — o encaro.
— Eu sou um garoto, e pode ter certeza que sei quando alguma garota chama a atenção. Não posso dizer que ele está apaixonado por você, pois acredito que nem deu tempo para isso, mas sei que quando ele te vê o coração entra até em descompasso.
— Eu não deveria dizer isso, mas sinto que posso me apaixonar por ele. E bom, eu não deveria pois sou nova aqui e Ruby me recebeu tão bem.
— Ruby é uma pessoa gentil, com certeza saberá como se comportar caso nada dê certo.
— Ela gosta de namorar — brinco — ela já namorou alguns garotos do colégio pelo que soube, só que era tudo para chamar atenção de Gilbert.
— Isso não funciona, se ela o quer, deveria dizer a ele.
— Ele não tem olhos para ela — brinco — até onde eu sei.
— Agora menos ainda, com você no caminho ela já perdeu as expectativas.
— Anne, desça — Marilla grita — venha Jerry.
Começo a pegar as coisas para arrumar a mesa do café. E a campainha toca, Jerry está na sala junto com o Matthew e logo se levanta para abrir a porta, de imediato ouço a voz inconfundível dizendo:
— A Anne está?
No mesmo instante, tomada por um sentimento de confusão e ao mesmo tempo ansiedade, sinto o prato escorregar de minha mão se despedaçando em milhões de pedacinhos. Me abaixo rapidamente para pegar os vidros e ouço a voz de Marilla.
— Anne tudo bem? — ela pergunta.
— Sim, sim, estou bem — digo.
— Está bem mesmo? — a voz de Gilbert soa na entrada da cozinha.
Ao mesmo tempo que o ouço, corto o dedo em um dos cacos.
— d***a! — falo segurando a ponta do dedo indicador que sangra.
— Meu Deus Anne — o garoto vem até mim e pega em minha mão.
A mesma intensidade do toque frio devido ao tempo ao lado de fora, sinto meu corpo enrijecer fazendo com que eu fique parada sem me mover.
Marilla pega os curativos e Gilbert diz:
— Permita-me fazer Senhorita.
Ela entrega para ele a caixinha, e depois sai da cozinha em busca da vassoura para recolher os vidros. Olho para a frente, Jerry e Matthew me observam, o jovem com um sorriso, e Matthew com aquele olhar sutil de confusão interna, Jerry, o cutuca como se estivesse lhe dizendo que deveriam sair, e em segundos eles saem.
— Eu não sabia que era tão atrapalhada — diz Gilbert, enquanto ergue a sobrancelha e seu olhar se fixa no meu.
Ele tira o caco de meu dedo com muito cuidado e o observo fazendo o curativo com bastante atenção.
— Deveria ter mais cuidado, moça — ele termina — você está bem?
— Sim, eu estou bem. E eu não sou atrapalhada — falo — só as vezes — ergo os ombros.
— Eu acredito, principalmente quando me lembro de quando encontrou seu armario enquanto conhecia o chão do colégio bem de pertinho — seu maxilar entorta levemente — peculiar, não acha?
Não resisto e sorrio, por um momento nossos olhares ficam fixos um no outro
— Você não ia visitá-lo hoje Anne? — Marilla interrompe.
Ele morde o lábio inferior com certeza com alguma ideia em sua mente, se eu pudesse ter algum poder, escolheria ler mentes, não a de todos, mas sim a dele, principalmente por causa das charadas que ficam flutuando no ar depois de suas feições completamente expressivas.
— Sim, sim — digo enquanto me desvinculo dele.
— É mesmo? — ele cruza os braços.
— É. Fiquei preocupada depois que você desapareceu — digo.
— Eu precisava de um tempo para me recompor depois de tudo que aconteceu, ainda não consigo acreditar que estou sozinho.
— Assim como eu — digo — fiquei por um bom tempo sozinha até conhecer Marilla e Matthew.
Marilla passa por nós e vai para a sala.
— Eu atrapalhei? — ele aponta para a mesa quase arrumada.
— Não, iamos tomar café, aliás, você já tomou?
— Faz algum tempo que não faço isso.
— Bom, está em um dia de sorte Gilbert, Marilla preparou seus maravilhosos cupcakes.
— Eu não dispenso comida — ele brinca.
— Ótimo, então nessa manhã é o nosso convidado.
. . .