O que há de bom no mundo.
Você pode escolher ficar, ou ir embora — repetia em minha mente a cada cinco segundos — estar em um lugar onde não há nada agradável muito menos pessoas agradáveis é um completo incômodo. Percorro os olhos no cômodo e a única coisa que enxergo é uma quantidade consideravel de jovens bêbados com os hormônios a flor da pele prestes a... Deixa pra lá. Eu fui deixada para trás, Diana saiu acompanhada de Jerry e agora os dois estão dançando no meio do cômodo, Ruby desapareceu com um garoto bonito, acredito que estão se divertindo bastante em outros ambientes da casa, e eu, estou sentada em uma das poltronas disponíveis deslizando a tela do celular e me contentando em saber que a primeira "festa" que compareço é uma tremenda desgraça. Eu tenho um gosto atípico para as coisas, estilo de música, forma de se socializar, e para mim, isso não passava de uma tremenda falta de tempo, eu poderia estar imediatamente agora, lendo um livro.
— Acho que você não está gostando muito de tudo isso — um garoto se senta ao meu lado e estica a mão — eu sou Ben.
Ergo os olhos para vê-lo, sorriso brilhoso, olhos cor de avelã, cabelos pretos com um pouco de charme.
— Anne, com E — falo grosseiramente para que ele não se sinta na liberdade de dizer mais nada.
— Ben, de Benjamin — ele pronúncia com um sorriso torto — eu não gosto, mas, fazer o quê? Anne com E.
Sinto meu masseter contrair conforme tento ignorá-lo, desvio os olhos para o celular e continuo olhando as postagens no i********:. O garoto continua ao meu lado, e puxa o celular do bolso e faz a mesma coisa que eu.
— Escuta — o encaro — quem mandou você vir até aqui?
Ele me encara confuso e morde o lábio inferior.
— Ué, ninguém! — ele olha para a multidão — acha que algum deles faria isso?
— Não sei, eu não sou muito querida — ergo os ombros — ainda mais sendo uma festa da Josie que me odeia mais do que qualquer outra coisa no universo.
— E você está na casa dela?
— Fui obrigada — torno a encarar o celular, enquanto bebo um pouco de refrigerante, certamente batizado em álcool.
— Entendo... Namorado?
Engasgo, e sinto minhas bochechas queimarem, o garoto se levanta e bate três vezes nas minhas costas, o que o leva a estar atrás de mim, assim que sinto o ar novamente baterem em meus pulmões digo:
— Era para me ajudar a desengasgar não ajudar meus pulmões a saírem voando.
Ele gargalha.
— Me desculpe, às vezes não consigo controlar a força. Você está bem? — ele se senta.
— Sim — sorrio — obrigada por tentar me ajudar ao invés de me m***r ou sei lá, rir de mim.
— Acho que você realmente não é querida por essas pessoas.
— Consequências — derrubo o celular e nos abaixamos para pegar rítmicamente, o que ocasiona em dois rostos próximos o suficiente para um beijo, mas não o suficiente para mim que não costumo beijar alguém no primeiro dia em que a vejo, contudo, Benjamin (um nome propicio para dar uma cantada ridícula), percorre o olhar até pará-lo em minha boca, e eu faço o mesmo, precisava saber se seus lábios eram tão bonitos quanto seus olhos. No mesmo instante, o barulho de um flash, faz com que voltemos para nossa posição na cadeira.
— Obrigada — digo assim que ele me entrega o celular.
— De nada — ele sorri.
— Certo pessoal — diz Josie se concentrando no meio do cômodo enquanto bate o talher em uma taça — hoje temos novos convidados — ela diz alegre, e os veteranos já sabem como devemos receber os calouros.
Alguns se entre olham, outros não entendem, certamente os calouros.
— Vou chamar para o nosso círculo, alguns veteranos e todos os calouros.
A voz de Josie é perspicaz.
— Anne, Diana, Ruby, Tillie, Jane, são as nossas calouras de hoje — Benjamin, Jerry, Filippe, os calouros de hoje — encaro Benjamin — venham até aqui.
Em poucos segundos estamos todos no centro do cômodo.
— E agora, Billy e Théo — os veteranos a se juntar a nós.
— E o que temos que fazer? — perguntou Diana.
— O jogo do beijo — ela diz.
Nós nos sentamos, os dez, e Josie girou a garrafa.
— Ruby e Filippe — ela diz — tem que ser um beijo, um beijo real.
Pelo que sei, Ruby já era experimente nesse assunto de beijo, sempre que podia, ela estava presa em alguma boca por aí. Diana, eu senti um pouco de receio principalmente por saber que se ela caísse com outra pessoa ao invés de Jerry, os dois ficariam completamente aborrecidos.
— Francês e Diana — Josie diz.
Eles sorriem e logo se beijam. Agora só faltava eu e mais duas garotas, e confesso, algo dentro de mim gritava que aquela brincadeira seria completamente contra mim.
— Tillie e Théo.
Os dois repetem o mesmo ato dos outros.
— Agora, temos um grande problema — sua voz é irônica — Billy não pode beijar a Jane porque são irmãos então... Só resta a Anne.
— Isso é insano — falo — você é namorada dele Josie.
— Sim, mas o ritual do calouro deve ser feito independente de qualquer coisa.
— E então... Billy — ela diz.
Antes que ele falasse eu prossegui, não ia deixar ele me humilhar publicamente.
— Eu me recuso a beijar ele.
Consigo escutar os murmúrios baixinhos em torno de nós.
— Não colocaria minha boca nessa menina sardenta.
— Eu tenho nojo de você Billy Andrews — grito — tenho repúdio a sua presença, eu me recuso e pronto.
— Ela está certa Josie, você não disse que isso ia acontecer quando nos convidou.
— Mas você aceitou não foi Diana?
Diana se silencia.
— Ela não é obrigada — Ruby diz.
— Calma garotas — Josie pega a garrafa do chão — tem o castigo de quem rejeita.
A encaro.
— Você deve escolher um dos garotos e... Devem entrar naquele quartinho, o próximo passo só direi depois que você escolher.
— Que castigo mais ridículo! — falo.
— Você veio, tem que fazer — Josie diz — vamos, é uma brincadeira só.
— Certo.
Respiro fundo e olho para todos os garotos, eu não podia escolher Jerry, Diana ficaria magoada e eu seria muito egoísta, a Ruby também ficaria magoada se eu escolhesse Filippe, na verdade ela diria que sou invejosa, Billy? Só se for para matá-lo, Théo nunca, amigos de Billy devem ser como ele.
— Eu escolho o Benjamin. — o encaro — se ele não se importar é claro.
— Não me importo — ele sorri — mesmo que eu não saiba o que vai acontecer.
— Venham, entrem — ela nos puxa — certo, entreguem os celulares para os seus amigos confiáveis — entrego o meu para Diana, ele entrega para Filippe — vocês só poderão sair, quando se beijarem... — ela diz e tranca a porta, deixando nós dois presos no quartinho.
. . .
— Podemos dizer que nos beijamos.
— Não podemos — ele diz — estamos sendo monitorados — ele aponta para a câmera.
— Eu deveria ter imaginado isso — falo — é muito a cara da Josie Pie.
— Ou seja... Não temos escolha.
— Eu não gosto de beijar pessoas que não conheço — sento-me no carpete do armário — desculpe, mas ficarei aqui até que eles se cansem de esperar.
— Certo. Tudo bem — ele se senta.
No mesmo instante, a luz se apaga.
— Ótimo, estão usando um método de indução.
— É um quartinho bem arquitetado — ele diz.
— E agora, como vamos fazer para o tempo passar? — pergunto.
— Vamos nos conhecer.
. . .
(Narração Gilbert)
A lua cheia trazia um ar romântico para a noite, e lá estava eu, observando-a refletida no mar infinito, pensando na única pessoa a qual poderia me tirar de minha prisão interior. Fazer um cruzeiro é incrível, mas chega uma hora que seu corpo pede para voltar para casa, e eu sentia que já estava na hora de eu retornar. Ficar algumas semanas fora, foi o suficiente para que eu percebesse que eu deveria permanecer em Springdale para continuar minha vida, fazer as pazes com Anne e terminar os estudos.
— Pensando na garota não é? — Bash apareceu ao meu lado dando-me uma cotovelada.
— Talvez — ergo os ombros — mas não sei se devo ter esperanças ainda.
— Winifred está caidinha por você.
— Eu gosto dela, mas não posso confundir as coisas, ela é apenas uma amiga.
— É sério que vocês não deram nenhuma bitoquinha? — ele movimentou os lábios enquanto beijava a própria mão.
— Ridículo — disse uma mulher passando ao nosso lado.
— Senhora, ele não estava falando com você — defendo-o.
— Ela fez isso porque sou n***o amigo — ele bate em minhas costas — estou acostumado.
— Isso é algo que ainda não consigo entender, estamos no século XXI e as pessoas não entendem que somos todos iguais. Se Mary estivesse aqui, diria algumas verdades para essa mulher.
— Mary é sua namorada?
— Não — digo — Mary é minha governanta. A garota se chama Anne com E. — olho em direção a lua novamente — e não somos namorados.
— Você fala dela com tanta admiração, que qualquer um diria que são mais do que isso.
— Eu não sei o que somos.
— Então volte para descobrir — ele me encoraja — não se deixa assuntos inacabados para trás, ainda mais, tratando-se de uma garota.
— Você tem razão — falo — assim que pararmos no próximo porto, voltarei para Springdale.
— É melhor voltar de avião — ele diz — se for voltar com outro navio demorará semanas para chegar.
— Está certo — respondo — farei isso.
Bash sai e fico sozinho novamente admirando o reflexo da Lua.
O que Anne diria se estivesse aqui?
Puxo o celular do bolso, e abro o i********: para mandar uma mensagem a Anne através de Diana, lhe dizendo que voltarei para explicar a foto pessoalmente. Mas assim que a tela abre, dou de cara com a foto de Anne e de um garoto, prestes a se beijarem, os dois estão abaixados, encarando um ao outro.
Desligo a tela, guardo o celular no bolso, respiro fundo e algo clareia minha mente, lembrando-me que Gilbert Blythe não dá aviso prévio.
. . .