O que fomos faz parte daquilo que somos
Fazia uma semana que eu não o procurava, e evitava ao máximo com todas as minhas forças ignorar o fato de que ele respondeu minha mensagem com a foto de outra garota.
Tento me convencer de que foi o melhor para mim, ainda mais sabendo que sempre estive certa a cerca de sua verdadeira essência. Lembro-me de Antony, um garoto do orfanato que insistia em dizer o quanto eu era f**a e magricela, mas quando eu estava prestes a sair daquele mísero ambiente deplorável, o qual não desejo para ninguém, o garoto disse que estava apaixonado por mim, eu fiquei tão surpresa e ao mesmo tempo tão decepcionada que disse que nunca confiaria no amor, como alguém que ama pode nos fazer sofrer com tanta facilidade?
— Está pensativa Anne — diz Marilla enquanto termina de fazer o chá.
— Não é nada, só algumas matérias que me deixam um pouco atordoadas, mas, tenho certeza que assim que eu e Diana conseguirmos nos organizar para estudar, estaremos prontíssimas para mais dez mil matérias. Fora isso, eu e Jerry devemos fazer a casa de pássaros, agora que Gilb... Minha dupla foi embora, eu sou obrigada a fazer com Jerry.
— Que bom que moram na mesma casa não é?
Concordo movimentando a cabeça.
— E o nariz, como está?
— Já consigo respirar, o que é bom. Principalmente porque é uma completa agonia não conseguir usar o nariz da maneira em que deve ser usado.
Seu sorriso é um tanto turvo, e suas mãos ágeis na hora de tirar o canecão do fogão. Pergunto-me, se Marilla estivesse se casado, seria impossível querer ter alguém tão agitada em casa como eu.
— Você não tem aula hoje? — ela me olha — já são sete e meia, não deveria estar com Jerry e Diana?
Olho para o relógio.
— Oh céus eu me esqueci completamente!
Saio correndo e pego minha mochila, solto os cabelos e chamo Jerry, ele desce e quando chegamos Diana está a nossa espera.
— Esqueceram do colégio?
Nós dois movimentamos a cabeça em um sim.
— Vamos.
. . .
— Efêmera significa apenas por um dia — falo para Ruby e Diana que movimentam a boca enquanto lancham.
— E para que eu deveria usar essa palavra? — Ruby questiona enquanto mexe no celular — olha isso — ela mostra a foto de Gilbert junto com a garota loira.
— Talvez para se conformar que Gilbert está tendo uma vida perfeita longe de todos nós — Diana ergue os ombros — Efêmera, por um dia Ruby, até descobrir que o amor da sua vida, é aquele cara ali — ela aponta para um garoto sentado sozinho.
— É errado Diana — digo — até porque, o amor da sua vida está indo até lá. — aponto para Jerry que caminha até o garoto sozinho.
— Moody é legal até — Ruby diz — e tem um talento invejável para música.
— Isso seria uma boa distração, acho que devemos nos inscrever para o teatro — Diana sugere — imagina se fossemos interpretar Romeu e Julieta.
Reviro os olhos.
— Vocês só sabem essa história, deveríamos fazer sonho de uma noite de verão, ou então Hamlet.
— Ou então nenhuma — Ruby diz — até porque eu nem conheço. Podíamos fazer, a bela e a fera, é o meu conto de fadas favorito.
— E muito sem graça! — afirmo — todo mundo sabe que ela vai se apaixonar por ele, e quebrar a fera que existe nele e blá blá blá. É tão clichê.
— Não se no final, ao invés disso ele se transformar em uma fera para sempre e comer ela. — Ruby brinca.
Automaticamente caímos na gargalhada.
— Então, Diana e Jerry — Ruby encara a morena maliciosamente enquanto ergue uma de suas sobrancelhas — o que seus pais dirão do francês charmoso e desengonçado?
A expressão de Diana muda, demonstrando seu total desânimo.
— Ainda não aconteceu nada — ela ergue os ombros — e acho que Jerry não queira nada comigo.
— Por isso repentinamente sua aparência passou a ser mais agressiva?
Ela desce os olhos em si mesma.
— Eu gosto de preto.
— Eu sou muito branca, exageradamente — digo — e preto parece que me deixa ainda mais branca, por isso uso marrom e bastante azul.
— Rosa é indispensável no meu guarda roupa — Ruby movimenta o dedo indicador como se fosse uma fada — apesar de meu comportamento um tanto bruto, eu ainda consigo ser um amorzinho — ela suga suas bochechas imitando um peixe.
— Vejamos — Josie chega e se senta ao nosso lado — três garotas perdidas no meio do círculo da impopularidade.
Respiro fundo e a encaro.
— A propósito Anne, você fica muito melhor sem aquele negócio esquisito no seu nariz.
— Era um curativo — falo — e isso não lhe diz respeito.
— Que bom que fizeram as pazes — seus olhos vacilam entre mim e Ruby — eu acho que não seria capaz de perdoar uma traição, tem certeza que prefere esse tipo de amizade? — ela encara Ruby.
Ruby apesar de seu jeito frágil, às vezes conseguia ser muito mais forte do que eu.
— Antes ela, que você — ela encara Josie Pye e se levanta para encará-la de cima — e sabe Josie, eu prefiro andar com uma garota que beija o garoto que eu gosto, a andar com uma garota que tortura os outros psicologicamente, acho que você merece que eu lhe diga isso — ela respira e diz com veemência — você é uma vaca.
Diana se levanta e puxa o braço de Ruby. Josie aparentemente sem graça, pensa em uma resposta digna para deixar sua honra intacta. Mas ela não faz, ela só pega a maçã do prato de Ruby e morde.
— Você não é a primeira que diz isso. — ela enrola um dos cachos com o indicador — a propósito, eu vim aqui chamá-las para uma festa, esse final de semana meus pais irão viajar e a casa é toda minha, só estarão os populares, caso queiram se enturmar, bom, tirando Gilbert que está aproveitando sabiamente sua viagem com a garota loira rica.
Falar de Gilbert era atingir o ponto fraco de Ruby, e indiretamente o meu. Eu nunca imaginei que uma de minhas melhores amigas, estaria apaixonada pelo mesmo garoto que eu.
— Enfim, caso queiram ir, será às nove horas, no sábado.
— E por que exatamente está nos convidando se nunca sequer cogitariamos em ser sua amiga? — Diana a encara.
— Um dia fomos amigas Diana — ela rebate — acho que isso não deveria ser um segredo.
— Não se eu me arrepender disso — a voz de Diana é carregada de desafeto.
— Caso queiram, serão bem vindas, assim como os outros não populares que selecionei para convidar. — ela ergue os ombros — quer um spoiler? O francês gato, estará lá — ela aponta para Jerry — acho que você, não deveria desapontá-lo.
. . .
Dia de festa
"E então, nós vamos?" - Ruby
"Eu adoraria fugir de casa por alguns minutos, não aguento mais ter que tocar piano para Minnie May" - Diana
"Não sei, isso não me parece um convite inocente, com certeza Josie esconde muito mais coisas" - Anne
"Só saberemos se formos" - Diana
"A verdade Diana, é que você está louca para ir" - Ruby.
"Eu gosto de festas" - Diana
"Então vamos" - Ruby
"Certo, vamos" - Diana
"Anne?" - Diana e Ruby
"Oi, estou pensando" - Anne
"Por favor Anne, só essa eu prometo" - Diana
"Tudo bem" - Anne.
. . .
— Eu ainda acho que isso não foi uma boa ideia — digo enquanto estamos a caminho.
O Uber nos encara pelo retrovisor e Diana mexe nos cabelos medianos enquanto confere a maquiagem com a câmera do celular.
— É uma boa ideia sim — diz Ruby — imagina quantos garotos gatos Josie conhece.
— Não é você que é apaixonada em Gilbert Blythe? — a olho.
— Você também é — ela ergue os ombros — e agora ele está provavelmente nos braços de outra enquanto você Anne, está indo curtir uma festa.
Finjo não ter escutado.
— Chegamos — Diana abre a porta do carro e descemos.
— E o pagamento? — a olho, sabe... Eu tenho dinheiro aqui comigo.
— Eu paguei com o cartão.
— A casa de Josie é linda — falo encarando a mansão.
— E aparentemente está tendo uma festa.
— E agora, o que fazemos?
— Entramos — Diana nos puxa — aconteça o que acontecer, essa noite será marcante em nossas vidas.
— Tenho quase certeza que você veio preparada, muito mais do que nós — Ruby diz olhando-a — acha que hoje a noite rola algo entre você e Jerry?
— Eu tenho certeza.
. . .