Capítulo sete.

1213 Palavras
Onde estiver você será meu lar A manhã não tinha o mesmo brilho que o dia anterior, eu nem sequer consegui pregar os olhos, em pensar que agora a vida de Gilbert estaria somente em suas mãos. O pai havia entrado em coma, e apesar de continuarmos os dois no hospital ele estava em uma sala e eu em outra. Matthew estava em observação e eu e Jerry ficamos ao lado de fora e Marilla dentro acompanhando o irmão, mas eu, eu não queria me desligar do hospital frio, eu precisava ficar lá porque a qualquer momento Gilbert apareceria com a notícia fatal, e eu precisava estar aqui para que ele pudesse encontrar o lar em alguém. Ele cruzou o corredor e ergui os olhos cansados para vê-lo, seu semblante nitidamente abatido, porém ainda não revelava que algo pior havia acontecido, ele precisou somente me olhar para que eu entendesse que ele precisava de mim. — E então — digo sem tirar os olhos dele. Ele sorri torto, um sorriso triste. — E então que ele não voltou — seu corpo desaba na cadeira — pedi para desligarem os aparelhos. — Eu sinto muito Gilbert — sento ao seu lado — eu sinto muito de verdade. Ele segura minha mão e me olha com fascínio, penso em algo para lhe dizer, mas, não posso, eu não tenho palavra alguma para lhe trazer algum conforto. — Tudo bem — ele suspira — eu sabia que deixar tudo ligado era o mesmo que adiar o inevitável. — Talvez devesse voltar para casa — digo — talvez fosse melhor para poder espairecer. — Preciso de muito mais para espairecer Anne, voltar para casa seria um peso ainda maior. — Talvez eu pudesse acompanhá-lo, eu vou conversar com Marilla e vou pedir para que ela deixe eu ir com você. — Está certa de que isso é uma boa ideia? — Você não pode ficar sozinho nesse momento Gilbert — aperto sua mão — eu juro que tento segurar a língua para não dizer nada que não seja favorável para a situação, Matthew está bem, ele só está em observação devido a pancada na cabeça. Ele pisca repetidas vezes e tento compreender como o seu masseter consegue desenhar todo o seu rosto o deixando ainda mais bonito do que já é. Sua tristeza tinha um quê romântico, eu não sei porque mas ele conseguia ficar lindo estando triste. Levanto-me e caminho até o quarto de Matthew, Marilla me olha e encara o irmão que consciente mexe na faixa em sua cabeça. — Gilbert mandou desligarem o aparelho de seu pai — falo — e agora está tão desconsolado que m*l consegue falar, sugeri que saíssemos um pouco do hospital para que ele pudesse respirar, eu estou tão triste que sequer consigo pensar Marilla! Deixe-me acompanhá-lo até que ele retorne para tratar do enterro, por favor. Marilla leva a mão ao coração claramente em choque com o meu pedido. — Oh céus Anne! — ela diz enquanto passa a mão nos pequenos fios soltos de seu coque ajeitando-os — não acha um pouco precipitado sair com um garoto o conhecendo a um dia? — Dois, dois dias Marilla — digo — ele é um bom garoto pergunte a Jerry... — Leve Jerry com vocês — ela diz. — Deixe ela ir Marilla — Matthew se intromete — conhecemos Anne o suficiente para saber que ela não se envolverá em nenhum problema. — Sim, eu sei me defender — seguro nas mãos de Marilla — e ficarei honrada por saber que vocês confiam em mim. — Certo Anne vá. E depois direto para casa. — Farei isso — falo — muito obrigada, vocês não sabem o quanto é importante saber que confiam em mim. Saí às pressas do hospital e quando cheguei do lado de fora, Gilbert Blythe esperava dentro de um carro no lado do motorista, olhando através da janela aparentemente me esperando. Entro no carro e o encaro que sorri e aperta o volante. — Você não me disse que tem um carro — digo — não que eu devesse saber mas... — Ah não, esse não é meu — sua voz é suave — esse é o do meu pai que ficou aqui, não vejo problemas em irmos para minha casa assim eu pego o meu. — Tudo bem — puxo o cinto um tanto tensa, o qual emperra antes mesmo de descer, obrigando o jovem garoto a se reclinar em cima de mim para soltar o cinto preso. Fecho os olhos, parecia um sonho, o perfume amadeirado o deixava ainda mais masculino, se eu pudesse optaria por cheirá-lo de perto o resto da vida. Seu rosto se inclina e ficamos perto o suficiente para nos beijarmos, mas eu não estava preparada para isso, e nem era o momento oportuno e também Gilbert até então não era o garoto certo para pensar em beijar. — Está calor aqui — aperto o botão do vidro que se abre e ele pula para o banco dele — você não está com calor? — o encaro. Ele da um sorriso um pouco mais malicioso, e assente enquanto da partida do carro. — Talvez a culpa seja seus cabelos vermelhos como o fogo — ele brinca. Reviro os olhos e o ameaço dizendo: — Se tivesse uma apostila aqui, faria questão de atirá-la em você. Em segundos, o carro já está fora do hospital, e nós rumo a algum lugar que com certeza tornaria esse evento apesar de triste, marcante, de um jeito bom. . . . A casa de Gilbert Blythe era muito mais do que apenas uma casa, da última vez que estive em seu jardim imaginei a bela princesa Cordelia caminhando entre as passagens floridas e pensando em seu belo e amargurado romance triste. Já dentro da casa de Gilbert eu conseguia enxergar uma garota rica da cidade grande dizendo não a todos os seus pretendentes interesseiros. — Isso não é nada — ele falou quando me viu observando a linda sala decorada — venha. Ele puxa minha mão me levando para frente de uma porta enorme de madeira. — Abra — ele sorri — vamos. Abro a porta e me deparo com uma vasta biblioteca cheia de livros de todos os modelos. — Antes de minha mãe morrer ela deixou uma carta para mim que dizia, os livros darão asas a sua imaginação Gilbert, use-os com cautela. — Isso é lindo — grito dentro do grande cômodo — eu estou apaixonada por essa biblioteca. — Use-a com cautela — ele diz — vou pegar algumas coisas de meu pai e tomar um banho, fique a vontade para ler o que quiser. As coisas só ficavam melhores a proporção que um novo livro era posto em minha frente, durou um tempo para o jovem garoto moreno voltar, quando ele voltou, senti que tudo estava da maneira que deveria ser. Conseguimos visitar vários lugares, sem sair da grande casa que mais parecia um palácio. Fomos a Roma, visitamos a Grécia, fomos a França e até ao Brasil. Tudo em minutos diante dos belos e extraordinários livros a nossa frente. Lemos um pouco de Shakespeare, e terminamos nossa tarde recitando uma frase importante e profunda de Cora Coralina que dizia: " Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir. " — Cabe a você decidir a dimensão da sua dor, Gilbert — o encaro segurando em suas mãos — e cabe a mim ajudá-lo a superá-la. . . .
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