O remorso é o veneno da vida
— Diana abra o i********: — peço — estão pensando que eu e Jerry... Isso não é um absurdo? Como se dão o direito de fazer comentários inescrupulosos ao meu respeito? — encaro Jerry — ao nosso respeito!
— As pessoas costumam ser maldosas Anne — diz Jerry — você deve saber, pois... Acredito que já passou por várias situações embaraçosas e difíceis.
— Sim, mas estamos todos no começo da puberdade, não imaginei que conseguiam ser tão insensíveis e infantis.
— É difícil Anne — Diana pousa a mão em meu ombro e me olha enquanto mordisca a pele do lábio superior — mas você é forte o suficiente para suportar.
— Enfim, vida é curta demais para ser gasta fomentando animosidade ou remoendo erros. — chegamos na rua de casa — amanhã será melhor.
— Você é uma poetisa Anne!
— Ah não Diana, essa frase é da Jane Eyre, eu procuro dizer para mim mesma quando sinto que as coisas estão fora de controle.
— É o seu segundo dia de aula Anne, apenas isso. Fique tranquila.
Sorrio.
Diana pega o celular e mostra o número de seu telefone para Jerry, ele faz o mesmo. Por que todo mundo tem um celular e eu não?
— Eu deveria ficar chateada em saber que os dois tem celular menos eu?
— Não se preocupe Anne, eu te empresto o meu se você quiser falar com o Gilbert Blythe.
Diana me encara e encara meu primo, completamente sem juízo, de fato.
— Não seja inconveniente Jerry, Gilbert Blythe é o futuro namorado da Ruby.
— Da Ruby Gillis? — ele gargalha — ele não dá a mínima para ela.
— Como assim? Anne você não pode.
— Não Diana, Jerry está sendo prematuro em suas ideias malucas. Não se preocupe, eu não tenho intenção nenhuma de... Fazer sei lá o que com Gilbert Blythe, ele é egocêntrico e cheio de soberba.
— Não é não. — Diana me encara — Billy Andrews sim, mas Gilbert? Jamais Anne!
Jerry fica cabisbaixo enquanto Diana defende Gilbert.
Só eu que senti que talvez os dois tenham se identificado até demais?
— Hoje a noite nos vemos? — Diana disse — eu venho lhe chamar.
— Certo Diana, até mais tarde.
Diana atravessa a rua e entra em sua casa gigante e elegante, e nós dois seguimos rumo a entrada de nossa simples casinha.
— Não pense nisso Jerry — falo antes de entrarmos.
— Pensar no que? — ele pergunta curioso.
Oh céus como é inocente!
— Em namorar Diana Barry — lhe encaro — é a única amiga que tenho até agora e você não vai estragar isso.
— Mas eu nunca...
— Jerry, me prometa.
— Eu não posso prometer isso, da mesma forma que você não pode prometer que nunca irá se apaixonar pelo garoto da mansão.
— Eu nunca vou me apaixonar por ele Jerry. — digo encarando-o.
Escutamos um barulho no lado de dentro da casa, e Marilla grita. Corremos e quando abrimos a porta Matthew está no chão desmaiado com uma xícara quebrada em pequenos fragmentos de porcelana, eu não sei a dimensão do sentimento de medo que se apossa de mi, mas, meus instintos gritam silenciosamente para que Matthew, meu querido Matthew Cuthbert estivesse vivo.
— Vou ligar a caminhonete — diz Jerry.
— Certo — largo as coisas no chão e palpo seu punho para sentir sua pulsação, ainda estava lá, um tanto acelerada mas estava.
— Matthew! — Marilla chora — por favor Matthew.
— Venha Anne, vamos colocá-lo na traseira — diz Jerry.
Com dificuldade, carregamos Matthew, no meio do caminho o Sr. Barry chega junto com sua família e nos ajuda a colocá-lo lá.
— Sabe dirigir garoto? — ele encara Jerry.
— Sim estou com minha carteira de motorista aqui.
Eu e Marilla vamos atrás com Matthew e Jerry junto com o Sr. Barry na frente. Matthew continua desacordado, e encaro Marilla que mexe na barra da saia enquanto nem sequer desvia os olhos de seu irmão.
— Ficará tudo bem Marilla — seguro em sua mão — Matthew não ousaria nos deixar agora, talvez devêssemos pedir a Deus para deixá-lo ficar por mais alguns anos nessa vida terrena.
— Oh Anne, você ainda consegue arrancar sorrisos de mim nos momentos mais difíceis.
— É isso que uma filha faz, não é?
— Sim, Anne, é isso que uma filha faz.
. . .
O ambiente melancólico deixava-me cada vez mais apreensiva com tudo, se Matthew fosse recolhido agora para o seu descanso eterno, o que seria de mim e Marilla?
— Anne — Jerry toca em meu ombro e me viro para olhá-lo — Matthew está bem.
Suspiro aliviada, e sinto meu corpo automaticamente relaxar após a notícia reconfortante. Pego um copo de isopor, e espero meu café expresso ficar pronto, quando sou surpreendida pela doce voz dizendo:
— O que faz aqui?
Encaro Gilbert Blythe que me observa um tanto curioso. Uma de suas sobrancelhas está erguida e seus lábios desenham um belo e apaixonante sorriso torto.
— Meu... Ah.. Matthew sofreu um acidente e tivemos que trazê-lo para cá.
— Matthew é seu pai?
— Tutor legal.
— Ah entendi — ele fica sem graça — desculpe eu não queria ser tão intrometido.
— E o que lhe trás aqui, Gilbert?
Seu sorriso se perde e só consigo focar em seus lindos olhos esverdeados encarando-me com tristeza. É nessa hora que sinto, que não deveria ter perguntado nada.
— Meu pai está aqui — ele diz — há algum tempo sofre com um câncer e agora está tendo uma piora significativa.
— Eu sinto muito — digo enquanto direciono minhas mãos até às dele, contudo, o destino optou por esse não ser o momento de tocá-lo.
Somos surpreendidos pelo líquido preto conhecido como Capuccino descendo como uma cascata sentido aos nossos pés.
— Esqueci que essa máquina não é tão nova quanto a que tenho em casa — digo — olha só essa sujeira.
Ele chama uma das faxineiras do hospital e pede para ela um pano.
— Não seria mais fácil perguntar se ela podia limpar?
— Gosto de ser educado — ele me encara — me sinto melhor, o tempo todo tem pessoas querendo fazer as coisas para mim. Me oferecer a ajudar é aliviador.
— Você não é tão egocêntrico e egoísta como pensei — falo por impulso.
— O que? Por que achou isso?
Ergo os ombros em resposta, talvez eu não devesse dizer nada além do meu objetivo.
— Às vezes sou espontânea demais — a faxineira chega com um esfregão e limpa a sujeira — obrigada — digo encarando-a.
— Ser espontânea não é r**m, é uma qualidade admirável. Mas não justifica o fato de me achar... Egocêntrico e egoísta. Isso é tudo que eu não sou.
— Eu fico feliz em saber isso Gilbert.
— Talvez você devesse me dar uma chance de lhe mostrar.
— Acho que terei tempo o suficiente para descobrir isso.
Encaro-o e sorrio.
— Agora devo ir — ele diz — até breve Anne.
— Até.
Que tipo de pessoa eu sou?
Consigo tirar conclusões precipitadas de um garoto gentil e cavalheiro, somente olhando as pessoas que o rodeiam. Remorso é pouco para sentir, eu estava arrependida e decepcionada com tudo isso. Caminho em direção onde Matthew está, e passo pelo quarto do pai do Gilbert, sei porque ouço a voz de Gilbert em desespero. Respiro fundo, paro e dou meia volta. Me posiciono na porta do quarto, e o garoto está prostrado sobre o corpo do pai. Entro sem me importar com as pessoas, alguém me puxa para trás e ele se recompõe e pede para a pessoa me soltar, e antes que eu pudesse pensar, o garoto popular e cheio de si, como eu havia deduzido, está em meus braços chorando feito um bebê quando tem o doce roubado. E eu impulsivamente enlaço meu braço nele, sem me importar se estávamos sendo vistos, aquele abraço, apesar de inesperado e inadequado, era tudo o que precisávamos.
. . .