Maria Clara
Eu jamais esquecerei a sensação que me atingiu quando passei pela porta giratória do prédio Al-Rashid Holdings pela primeira vez. O hall de entrada se estendia a perder de vista, revestido de mármore bege e colunas cromadas que refletiam a luz suave dos lustres pendentes. O silêncio imperava, interrompido apenas pelo clique uniforme dos saltos sobre o piso polido. Parecia que ali cada passo reverberava como um anúncio de poder.
Segurei firme a alça da pasta executiva, tentando lembrar a mim mesma que estava preparada para aquilo: MBA concluído, experiência em multinacional e a confiança de toda a minha família depositada em mim. Ainda assim, meu coração disparava, e o frio na nuca denunciava a mistura de expectativa e receio.
— Good Morning, senhorita Santos — saudou-me um recepcionista em inglês, em traje impecável. Ainda bem que falo muito bem o inglês. Três anos no cursinho de inglês e espanhol valeram a pena. — A sala do Sheik Ahmed al-Rashid é o 42º andar. O elevador express liga diretamente.
Assenti, engolindo em seco, e caminhei em direção ao elevador de aço escovado. As portas se fecharam lentamente, bloqueando o mundo lá embaixo. Apertei o botão 42 e encarei meu reflexo: rosto atento, maquiagem discreta, cabelo preso num coque rígido. Parecia a profissional que queria ser — mas por trás daqueles olhos, tremia a menina que nunca estivera tão perto de alguém com tanto poder.
O elevador atingiu a velocidade máxima e, num breve instante, os números se sucederam: 10… 20… 35… 42. As portas deslizaram, revelando um corredor com carpete vermelho-escuro e painéis de madeira de nogueira. Na extremidade, uma grande porta de vidro fosco com a inscrição “Ahmed al-Rashid” em dourado.
Antes que pudesse levantar a mão, a porta se abriu. Do outro lado, uma ante sala minimalista exibia apenas uma poltrona preta e um vaso com orquídeas brancas, como se cada elemento ali guardasse um propósito. Um assistente pessoal surgia por trás de uma divisória curva.
— Maria Clara Santos? O Sheik receberá daqui a um instante. Posso oferecer água ou um café árabe?
— Água, por favor — respondi, tentando manter a voz quase neutra.
Ele saiu, e passei alguns momentos contemplando o espaço silencioso. Cada detalhe parecia projetado para testar minha paciência: a fragrância discreta de incenso, o relógio de parede sem ponteiros visíveis, o som abafado de passos ao longe. Imaginei que, a cada poltrona vazia, alguém poderoso pudesse estar sentado do outro lado.
O assistente voltou para me guiar por uma segunda porta, desta vez de vidro transparente. Ao atravessá-la, deparei-me com um escritório monumental. De um lado, janelas panorâmicas revelavam o horizonte de Dubai; do outro, móveis de linhas retas criavam uma ilha de luxo discreta. No centro, atrás de uma vasta escrivaninha de madeira escura, ele se pôs de pé.
Ahmed al-Rashid, conseguir falar, era a primeira imagem que teria de um mito. Alto, ombros largos encaixados num smoking de corte perfeito, camisa branca impoluta e gravata de seda preta. O rosto era angular, testa marcada por sobrancelhas densas, e os olhos… meu Deus, os olhos eram de um azul tão profundo que pareciam conter todo o céu, e, ao mesmo tempo, o vazio de um deserto sem fim. Meu peito se apertou, e por um segundo faltou ar.
Ele me estudou em silêncio, inclinando apenas um pouco o queixo. A voz, quando veio, teve o peso de uma tempestade que se aproxima.
— Senhorita Santos, seja bem-vinda a Al-Rashid Holdings — disse ele, estendendo a mão direita, adornada por um anel de ônix. — Fiquei satisfeito ao saber que aceitou nosso convite.
Apertei sua mão e senti o calor firme dos dedos dele. A textura fria do metal do anel contrastou com a força contida naquele aperto. Foi um choque sutil: ao mesmo tempo acolhedor e ameaçador.
— Obrigada, Sheik — consegui responder, mantendo-me ereta. — É uma honra fazer parte de sua equipe.
Ele entrou na sala, no escritorio, circulou a escrivaninha e se aproximou. Seu perfume era amadeirado, com um toque de especiarias que me encheu de curiosidade e cautela. Fiquei a poucos palmos do seu rosto, e pude notar as linhas finas ao redor dos olhos, como cicatrizes de quem já viu demais.
— Espero que esteja pronta para os desafios que a aguardam — murmurou, a voz baixa o suficiente para que apenas eu escutasse. — Aqui, nada se resolve com gentileza.
O tom de aviso soou como um açoite. Meu estômago se revirou, mas uma fagulha de determinação se acendeu. Não saí de São Paulo para desistir, não mesmo.
— Estou pronta — garanti, ainda que as pernas tremessem por dentro. Esse homem mexe comigo de um jeito.
Ele assentiu pela primeira vez com leveza, como aprovando a resposta.
— Então, começaremos agora mesmo. Sente-se, por favor.
Peguei a cadeira diante da mesa e me acomodei. Ele voltou ao lugar atrás da escrivaninha e abriu um envelope de couro preto, entregando-me um segundo contrato — desta vez, mais breve mas recheado de cláusulas ambíguas.
— Eis o adendo ao seu vínculo — explicou. — Leia com atenção. Depois, discutiremos as condições… pessoais.
Minhas mãos tremeram ao folhear as páginas. “Condições pessoais” soava como um eufemismo mórbido. Por um instante, olhei novamente para aqueles olhos azuis — e algo ali brilhou, como se desafiando se ousar recusar.
— Claro — arrisquei, dominando o nó na garganta.
Ele sorriu, mas foi um sorriso contido, quase imperceptível. Um convite sutil para o abismo que havia aceitado explorar. Nesse momento, percebi que aquela “primeira imagem” não era apenas de um chefe implacável, mas de um homem cuja prioridade seria sempre o controle — e eu seria seu teste mais precioso.