Capítulo 3: Cláusulas Ocultas

875 Palavras
Maria Clara Eu jamais tinha imaginado que um documento pudesse pesar tanto na alma. Quando fui falar com ele, não estava mais, parecia magia ou bruxaria. O homem sumiu e quem estava ali era o assistente dele, disse que se chama Abdel, e deslizou o envelope de couro marrom sobre a mesa de ébano, senti um arrepio percorrer meu corpo. O ar no escritório pareceu congelar. Ele se acomodou atrás da escrivaninha e, com a postura sempre impecável, chamou-me com um gesto contido. Não estava entendendo nada. Que palhaçada era essa? — Por favor, leia — disse ele, a voz firme, sem emoção aparente. Sem alternativas, cedi ao seu pedido, meus movimentos traindo o pavor que me consumia. Com mãos trêmulas, desatei o laço de couro, revelando páginas de papel finíssimo e perfumado. O título, gravado em relevo dourado, fez-me engolir em seco: "Acordo Matrimonial – Cláusulas de União e Confidencialidade". Meu coração disparou, quase saltando pela garganta. Lancei um olhar chocado ao assistente, que gesticulou para que prosseguisse a leitura. Respirei fundo e continuei. Virei a primeira folha e li em silêncio: “O presente contrato tem por objeto formalizar a união civil entre Maria Clara Santos e Ahmed al-Rashid, com prazo mínimo de doze meses, obrigando as partes aos deveres recíprocos de fidelidade, assistência mútua e… confidencialidade absoluta.” Fixei os olhos no termo “união civil” e, de repente, todas as reuniões, os jantares de gala, os gestos suaves de boas-vindas tomaram um contorno diferente. Aquilo ia muito além de um emprego. — Casar? — arrisquei, levantando o olhar para Abdel. — Eu… isso não estava no meu contrato original. Não mesmo! Ele manteve a face impassível. — Foi um adendo solicitado pelo próprio Sheik. Para selar a aliança com o consórcio internacional, ele precisa demonstrar um laço pessoal e contínuo. A união civil garante estabilidade política e vantagem fiscal aos investimentos. Senti o frio atravessar meu peito. Tentei compreender: um casamento de fachada para consolidar negócios multimilionários. Um ato de poder transformado em lei. — E… e se eu recusar? — arrisquei, as palavras saindo falhas. — Não me inscrevi para ser noiva de ninguém. Eu vim para trabalhar, não para casar. Ele inclinou a cabeça, como quem pondera a gravidade de cada palavra. — A recusa implica na rescisão imediata do seu vínculo com a Al-Rashid Holdings. Sem emprego, sem visto, sem passaporte, sem apoio. Você ficaria sem nada — explicou, seco. Um estalo interno me fez entender que já dera tudo de mim: carreira, reputação, sonhos. Perder aquele contrato significaria ser jogada no limbo, presa a Dubai sem perspectiva de retorno. Meu peito ardia entre o medo e a raiva. Onde fui me meter. — Isso é… — Eu respirei fundo, tentando firmar a voz. — Isso é… Coercitivo. Sinto como se você me prendesse num cárcere de luxo. Abdel ergueu uma sobrancelha. — Não há coação quando o benefício é mútuo. Ele oferece moradia, carro, segurança 24 horas e status social. Você está livre para recusar, mas está ciente das consequências. Fechei os olhos, sentindo o peso da escolha apertar minhas têmporas. A sala parecia girar. As janelas já não exibiam mais o azul tranquilizador do céu, mas o vazio gélido de quem observa o destino pender para um lado ou outro. — Eu… preciso de tempo para pensar — arrisquei. Abdel bateu levemente com as pontas dos dedos na madeira escura. — Seu prazo expira em duas horas. O Sheik espera sua assinatura antes do jantar. Duas horas. Tempo suficiente para raciocinar — ou para me entregar ao pânico. Saí da sala, sentindo-me uma marionete controlada por fios invisíveis. No corredor silencioso, o eco dos meus passos acompanhava as batidas aceleradas do meu coração. Encostei-me à parede de nogueira, fechei os olhos e enxuguei a lágrima que estava querendo cair. Meus pensamentos giravam incessantemente: Casar com um desconhecido? Viver sob as amarras de um contrato? Ser apenas um peão em um jogo de poder? Do outro lado do corredor, janelas do chão ao teto revelavam o deserto que se estendia além da cidade: dunas de areia dourada, suaves, implacáveis. Foi ali que me dei conta: a vida me empurrava para dentro daquele mar de incertezas, e não podia recuar. Voltei à escrivaninha. Abdel me aguardava em pé, olhando meu reflexo no tampo liso. Ele estendeu uma caneta prateada. A luz incandescente fez o metal brilhar, quase ofuscando minha visão. — Sua decisão — disse ele, com voz grave. Segurei a caneta como se fosse um bisturi prestes a cortar minha liberdade. Um grito interno me pedia: “Recuse! Fuja!” Mas meus dedos gelados deslizaram sobre o papel, e logo tracei meu nome na linha destinada à “noiva prisioneira”. O “clique” da caneta soou dentro de mim como um sinistro carimbo de ferro. Meu olhar encontrou o de Abdel, que se limitou a um leve aceno, como quem confirma que o tabuleiro foi montado. Quando o contrato retornou às mãos dele, soube que não havia mais volta. Naquele instante, não éramos apenas empregador e funcionária: éramos noivos de conveniência — peças de um jogo de poder tão antigo quanto a areia do deserto, e tão implacável quanto o próprio tempo.
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