Dona Irina estava nua sobre o divã. Uma taça de vinho na mão. Olhos fechados, apreciando a música que preenchia o ambiente.
A mulher sempre ficava encantada ao ouvir Edgar tocar. No fim, aquele arranjo trouxe grandes e diferentes momentos de prazer. Em uma época onde ela já não acreditava que havia muita graça na vida.
A doença que a impedia de se dedicar a sua grande paixão, foi apenas a cereja do bolo em uma série de eventos desagradáveis.
É claro, ainda era convidada a ser professora em diversas e conceituadas escolas, mas ela estava satisfeita com sua vidinha calma em uma cidade de pouco mais de duzentos mil habitantes, perto da praia e da capital. Uma agradável vida de ócio depois de anos de dedicação insana a música. E quando ela conheceu a adorável Heidi, moça que além de ser uma excelente prestadora de serviços, ainda era uma amante que entendia a importância da discrição em certas relações.
Edgar não era o primeiro amante que a jovem trouxe para a patroa, ainda que fosse de longe o mais interessante e divertido.
— Tenho certeza que quando se conhecerem perceberão que têm muito em comum.
— Um molecote? Não faz meu tipo.
— Dezessete, quase dezoito, mas posso garantir que é um achado.
— Dezessete não é dezoito. — A mulher não estava empolgada. — Para você que tem dezenove e já tem um rolo com ele pode não ser grande coisa, mas para mim... não acho que esse garoto possa me impressionar.
Heidi precisou de alguns meses para convencer a amante, mas quando aconteceu, embora ainda se sentisse um pouco incomodada com a idade do rapaz, não podia negar que ela absolutamente satisfeita. Além de um amante esforçado, Edgar era uma companhia surpreendentemente agradável.
— Você é de fato talentoso. Chega a ser um desperdício o desprezo que você tem pelo piano. — A mulher comentou. Se o desinteresse do rapaz não fosse tão absoluto, ela gostaria de ajuda-lo a desenvolver todo o seu potencial.
— Eu não tenho desprezo pelo piano. — O rapaz se defendeu sem tirar os olhos da partitura. Estava tocando uma composição da professora e como sempre, dando seu toque pessoal a música. — Eu só quero fazer dele minha profissão.
— Mas você é um excelente pianista.
— Posso continuar sendo um excelente pianista, tocando apenas quando tiver vontade, usando meu talento para impressionar garotas e ou alegrar encontros entre amigos. Isso quando e se tiver vontade de fazer qualquer uma dessas coisas.
— Entendo. E de onde vem esse desinteresse? Desculpe a insistência, é que não é comum alguém com tanto talento não querer se dedicar. A musicista em mim precisa dessa resposta.
Edgar sorriu e parou de tocar, não sabia o que dizer. Então, pensou um pouco. Normalmente apenas diria que achava a prática cansativa, mas sabia que aquela mulher de algum modo o entenderia suas inquietações sobre a música.
— Bem, dizem que eu aprendi a tocar sozinho, quando eu tinha três anos.
— Um talento inato.
— Exatamente.
— Mas...?
A mulher percebeu que havia algo nas entrelinhas.
— Uma das minhas primeiras lembranças é ver meu pai tocando. Lembro dele brincando com as teclas e sorrindo para mim. Música para mim era diversão. Então, acho que aprendi tocar observando-o.
— Mas seu pai não era tão bom!
— Não. Então eu virei a atração da casa. Isso ainda era divertido.
— Quando deixou de ser divertido?
— Quando vieram os professores. Eles convenceram a vovó que eu poderia ser o novo Beethoven, desde que me dedicasse com afinco. Horas a fio.
— E acabaram com a diversão de tocar por prazer. — Sim, Irina sabia exatamente o que era aquilo. Apesar de sua paixão pela música ter nascido na infância, era dificil lidar com os adultos bem intencionados. E quando você, apesar do talento, não se importa, é ainda pior. Ela viu ao longo dos anos pessoas que trocariam os longo e prestigiados concertos, por tocar nas festinhas de família, sem compromisso e sem pressão.
— Exatamente. Eram rios de dinheiro, horas e mais horas de prática, fiz uma apresentação em um conservatório aos seis anos e isso foi o ápice. Foi também o fim da diversão, O que era algo de pai e filho, virou uma obrigação com estranhos. Estranhos que eu detestava, diga-se de passagem.
— Deve ter sido dificil.
— Sim, as pessoas queriam que eu viajasse, treinasse mais, ficasse longe de casa.
— Mas não era isso que você queria.
— Eu queria brincar, jogar bola, ir a praia, brincar no piano com o papai... mas preferia ficar em casa. Em uma escola comum. Quando eu tinha oito anos, alguém chegou a propor que eu poderia deixar de participar da escola regular e criar um regime especial de estudo.
— Eu conheço bem esse mundo. Se você realmente não é absolutamente apaixonado, nada faz sentido.
— Então, eu decidi que chegava de piano. Eu queria minha escola, meus amigos e nenhum professor de música por perto.
— E sua avó aceitou isso assim?
— Ela me deu uma folga, mas nunca desistiu de verdade. Também consegui negociar meu calvário. De tempos em tempos, eu retorno as aulas, para ver se minha paixão pela música aflora. Se algum professor mais dedicado me inspira.
— Mas isso nunca acontece.
— Até o momento não.
— E sua avó, como ela reage quando você volta de nossos encontros.
— Bem, eu tenho dado mais atenção ao piano ultimamente. Minha avó está encantada com isso.
— Agora eu sou me sentir culpada por estar abusando da confiança dela.
— Não. Eu já deixei bem claro que quero fazer outra coisa da vida. O sonho de ter um grande pianista na família vai ter que esperar as futuras gerações.
— E o que você quer fazer?
— Trabalhar nos negócios da família.
— Na construtora?
— Sim, quero ser arquiteto. Na verdade, sempre quis.
— Entendo. Então você vai viver com seu pai?
— Se passar no vestibular perto dele, sim. De todo modo, ano que vem devo morar sozinho, você não vai querer sair da toca por minha causa. Além do mais, ela acredita que um pouco de independência me fará bem. Assim como lavar minhas próprias cuecas.
— Você não lava suas próprias cuecas?
— Desde os oito anos. Sou mimado apenas para minha avó.
Naquela tarde não tiveram a companhia de Heidi, esta estava com um namorado novo: um italiano rico que a moça conheceu no ano anterior e apareceu do nada na porta de Dona Irina.
Decidindo que a lição de piano daquela tarde havia chegado ao fim, Edgar foi até o divã. A mulher levantou-se colocou a taça de lado e esperou que seu amante se acomodasse. E quando ele o fez, a mulher o vestiu com uma camisinha e montou nos quadris dele.
Por um tempo eles não falaram, apenas se moveram em perfeita harmonia.
Sentado na cadeira, Edgar Bolivatto observava a sua professora de piano subir e descer em seu colo. Sentiu o clímax chegando e este foi acelerado pela mordida que recebeu no ombro.
Algum tempo depois, Dona Irina o observava fixamente.
— Acho que descobri seu segredo.
— Como?
— Heidi acha que você é frio com uma rocha. Não entende como alguém tão jovem consegue lidar com isso que a gente tem, sem entrar em parafusos ou romantizar o caso. No começo estava um pouco resistente quanto a nós, mas vejo que ela tem razão. Você não é como os outros garotos de sua idade.
Edgar sorriu. A amiga já tinha falado algo do tipo.
— E você tem uma teoria sobre essa minha frieza?
— Tenho.
— Agora estou curioso.
—Esse seu olhar sempre me intrigou. Eu não sabia direito o que era, mas hoje eu o vi no italiano de Heidi e percebi: um coração partido. Arrasaram você. Minha curiosidade é quem seria capaz de partir o coração de um garoto de dezessete anos?
Edgar manteve o silêncio e a expressão neutra. Então, a professora continuou.
— Sabe, eu sempre soube que você era capaz de sentimentos intensos. Por isso você usa as mulheres. Já que não poder ter o amor para si, tem sexo. O que houve? Ela trocou você por outro.
O rapaz ainda pensou em mentir, mas isso não levaria a lugar nenhum.
— Não. Ela apenas não me quer.
— E por que você não a seduz? Tem potencial para isso.
— Sim, mas tive que escolher entre ela e minha família.
— O bom rapaz sempre.
Ele sorriu sarcástico.
— Eu posso mostrar o quanto sou bom.
A mulher sorriu maliciosamente.
— Hum, coração partido ou não, você é uma delícia. Vem meu gostoso, me mostra do que é capaz...
*~*~*
Marcelo estava ansiosa. Rosana estava atrasada. O sol quase já havia se posto e logo a estrada estaria na mais completa escuridão. Se durante o dia já era complicado encontrar aquela cabana, imagine a noite?
Então faróis surgiram no meio da escuridão. O coração do rapaz deu um solto.
— Foi dificil encontrar? — Marcelo perguntou m*l a namorada desceu do carro.
— Não. Suas instruções foram perfeitas.
— Então por que demorou tanto?
— Precisei dar uma volta no segurança que minha mãe colocou em meu pé. Ocasionalmente, ela inventa essas coisas.
— Mas você não terá problemas por isso? — Odiava a situação deles. Queria contar para todo mundo que estavam namorando, queria ser apresentado a família dela, mesmo sabendo que era muito provável que se opusessem a relação.
— Essas crises de mãe do ano passam com muita facilidade. Logo ela arranja algo interessante para fazer e me esquece.
— Mas e o segurança?
— Ele está ocupado com outras tarefas, um trabalhinho extra que anda fazendo para minha mãe e meu pai não pode saber. Eu faço de conta que eu não sei, ele faz vista grossa e fica de bico calado sobre minhas fugas.
— Parece um bom acordo.
— É o único acordo possível, no final todos ganham.
— Quanto tempo até seus pais sentirem a sua falta?
A moça deu de ombros.
— Eu passo muito tempo fora de casa. Sou envolvida em diversas atividades dentro e fora da escola, então nunca tenho exatamente hora para voltar.
— Você pode passar a noite fora?
— Sim, há um acordo tácito que se eu não me envolver em fofocas, posso fazer o que quiser. Na verdade, o único que controla os meus horários, é o Renato, mas ele está estudando fora.
Ouvir a moça falar do namorado incomodou Marcelo. Sabia que ela provavelmente estava esperando que ele voltasse para casa antes de terminar a relação, ainda assim, era um incômodo a indefinição da situação dos dois.
De todo mundo, não queria pensar em coisas desagradáveis. Ela estava ali, precisava aproveitar o tempo deles juntos.
— Se você não voltar para casa hoje, alguém vai notar?
— Posso dizer que passei a noite no sítio, faço isso quando preciso me concentrar nos estudos. O caseiro e a esposa não vão me desmentir. Só preciso chegar lá antes do dia amanhecer.
O coração de Marcelo deu um salto. Passar a noite inteira nos braços de sua deusa loira. Era um sonho que não esperava realizar tão cedo.
*~*~*
Rosana não conseguiu dormir. Estava cansada e satisfeita, mas preocupada.
Não era que estivesse arrependida do que estava vivendo. Como sempre imaginou, estar nos braços de Marcelo era encontrar o seu paraíso particular.
Queria que o tempo dos dois juntos durasse o máximo possível, mas sabia que o relógio não parava de correr. Mesmo ali, deitada em seus braços, sentia a triste agonia da despedida. Por mais que quisesse, a história dos dois já nasceu condenada. Uma aventura de último ano na escola, antes de assumir seu papel como uma Mendonça.
É claro, pelos planos da mãe, Rosana passaria um ano em Paris antes de retornar para cursar administração em uma universidade federal. Seu diploma, obviamente, seria um enfeite na parede, para exibir para as visitas.
— Ah, minha querida, o único papel que vai garantir sua vida boa é uma bela certidão de casamento, se seguir os conselhos de sua mãe e escolher a pessoa certa. É só não fazer nada e******o.
Ao lembrar das palavras Amália, Rosana não pôde deixar de sorrir. A mãe ficaria mortificada se imaginasse a quão estúpida ela estava sendo.
O que dizer? Fazer coisas estúpidas muitas vezes gera um prazer absoluto. E ela sabia o quanto sua vida estava condenada a ter pouquíssima satisfação.