Faltava pouco mais que três minutos para o fim da partida, mas o time da casa não estava preocupado. A margem de ponto era tão larga que mesmo que acontecesse um milagre, seria impossível reverter o resultado do jogo.
A vaga para a grande final no próximo final de semana já estava garantida.
Marcelo fez uma cesta tripla, ampliando o placar ainda mais. A multidão de torcedores explodiu em gritos, parte da fanfarra tocando alegremente o hino da equipe.
O gigante sentiu a vibração da torcida e sorriu satisfeito consigo mesmo. Estavam em casa e vencendo de lavada: que presente melhor de despedida?
A cidade não poderia estar mais orgulhosa de seu filho. Desde que o Gigante começou a jogar no time do município, vinculado a escola, até mesmo o prefeito parecia encantado com o seu desempenho e se esforçando ao máximo para tirar todo proveito das realizações da equipe campeã.
E para completar o contentamento de todos, na noite anterior, vazou a notícia que Marcelo, além de estar sendo sondado pelos principais times profissionais do país e ainda seria convocado para a seleção nacional. Se confirmada a informação, ele seria um dos nome no próximo mundial.
Após a partida, já havia uma coletiva de imprensa que participariam o prefeito, treinador e o dono da escola, suposto descobrir do seu talento para falar sobre o seu futuro glorioso. Marcelo poderia lembra-lo que anos antes, ele nem mesmo queria o novo rico em sua sagrada escola, mas tinha alguns segredos que não gostaria que fossem revelados.
Seria interessante quando descobrissem que ele tinha outros planos para a própria vida.
Os colegas de equipes estavam emocionados com seu desempenho. O treinador, tão vermelho que parecia a ponto de ter um enfarto. Era engraçado como o homem conseguia reagir da mesma forma tanto na derrota como na vitória. Era do tipo nervoso e emocionado.
As meninas gritavam o nome dele, algumas mais afoitas aproveitavam os intervalos para se aproximar e fazer propostas. Marcelo sorria e com elegância se desvencilhava de cada uma delas, voltando para o jogo e se concentrado na partida. Antes era comum escolher uma fã para comemorar a vitória, mas nos últimos meses, esteve mais acomodado. Havia um boato que o pai o proibiu de se envolver com garotas locais, para evitar possíveis golpes da barriga, mas a maioria apostava em uma namorada secreta e ciumenta. Uma possível mulher mais velha e/ou casada, como segundo diziam, essa era sua preferência.
Quando o jogo acabou, estavam oficialmente na final do campeonato, que seria disputado na capital.
Foi uma loucura sair da quadra e ir para o vestiário, mas conseguiu uns momentos de silêncio quando a equipe correu para a festa da vitória. Todos conheciam o seu ritual de ficar um tempo sozinho após as partidas, então nem tentaram convencê-lo a se apressar. Após uma chuveirada, estava pronto para escapar pelos fundos, deixando prefeito, repórteres e equipe para trás, quando deu de cara com o pai. O vestiário estava totalmente vazio, algo que o Chaveiro certamente conseguiria.
— Então você agora é o menino de ouro da cidade. — Havia um quê de ironia na voz do homem. Ele gostava que o filho praticasse esporte, mas fazia questão de não deixar que isso subisse sua cabeça.
— Algo parecido. — Marcelo respondeu com a mesma ironia.
O pai olhou em volta. Esperava um pouco mais. Afinal, os políticos locais se vangloriavam de apoiar a pratica de esportes, mas estado do vestiário revelava outra coisa.
— Esse lugar não passou por uma reforma completa recentemente?
— Segundo o prefeito, sim, mas essa reforma se resumiu a troca de umas pias quebradas, uns canos com vazamento e uma pintura malfeita. Até o chuveiro dos fundos continua dando choque.
— Entendo.
— Mas o senhor não veio aqui para falar da reforma do ginásio.
— Não. Queria uns momentos a sós com você no seu grande dia. Precisamos definir o que quer realmente fazer da vida.
— Eu pensei que isso já estava decidido. Vou para Inglaterra estudar.
— Você será convocado para seleção. Para disputar o mundial.
— Eu não vou. A gente já havia decidido isso, não?
— Mas é uma oportunidade. Se for realmente o que você quer, daremos um jeito. Você sabe que não é obrigado a abrir mão de nada que goste por minha causa.
— Sei, e para sua informação, eu não gosto de basquete tanto assim. Nunca me passou pela cabeça ser profissional.
— Tem certeza? Seu talento é inegável. Você de longe foi o melhor em quadra hoje.
— Mas não era essa a proposta? Que eu fosse o melhor em tudo o que me dedicasse?
O chaveiro observou o filho com atenção. Parecia que ainda não estava convencido.
— Você sabe que eu nunca o impediria de fazer o que quer para colocar meus planos em ação. Se quiser explorar novas possibilidades, ou posso adiar os planos, ou vender nossas participações...
— Pai, nada mudou para mim. Ano que vem vou me dedicar aos estudos como planejamos desde o começo. Depois, volto para que assumir meu papel.
— A quem você quer impressionar?
A pergunta do chaveiro fez o coração do rapaz dar um salto, mas ele se manteve firme ao responder.
— O senhor, a mim mesmo. Quem mais vale a pena nesse lugar?
— Não sei. Não temos conversado muito ultimamente.
— Não há ninguém pai, eu m*l posso esperar para seguir com minha vida e deixar isso tudo para trás.
— Espero que realmente seja assim. Quando você sair desse vestiário, terá mais fãs e mais bajuladores. Não se esqueça que só querem participar das fotografias do momento de gloria e se caísse em desgraça amanhã, nenhum estenderia a mão para ajudá-lo.
— Como já disse pai, o basquete é só mais um degrau que decidi subir. Quando terminar o estadual, também termina minha vida de atleta.
— Acho incrível como você e Edgar são parecidos em alguns aspectos.
— O que o senhor quer dizer?
— Ele também jogou a carreira de pianista no lixo.
— Até onde sei, ele está tendo aulas e levando muito a sério. Nunca o vi tão dedicado como nos últimos tempos.
— Você já viu a professora?
— Na verdade, não.
O chaveiro sorriu com indulgencia.
— Muito bem, mas eu vou te dar um conselho: não conte ainda que não seguirá carreira no esporte. Seja evasivo e diga que vai analisar a situação com calma.
— E por que?
— Você vai querer manter os bajuladores calmos por hora.
— É, apesar que não me importo se vou agradar ou não.
— Sei que não, de todo modo, coloquei todas as nossas propriedades a venda. Quando fomos embora, não pretendo voltar.
Horas mais tarde...
— Você demorou. — Reclamou Rosana quando Marcelo chegou a cabana.
— Foi dificil escapar. Estavam prestando muita atenção em mim, até mesmo meu pai deu as caras no vestiário.
— Seu pai? Não sabia que ele estava na cidade.
— Ele voltou por que eu vou ser convocado para seleção, para disputar o mundial.
— O mundial? Mas nesse caso, você teria que se juntar ao grupo para treinar...
— Eu não vou.
— Não vai?!
— Não, no próximo semestre eu estarei em Oxford. Será perfeito, afinal, você não vai passar um ano em Paris?
— É isso o que minha mãe quer.
— E você? O que quer?
— Eu quero apenas sobreviver a esse ano. Quanto a Paris, só vou acreditar quando acontecer. Em minha família nenhum plano é um plano de verdade até acontecer.
— Mas você está se preparando há bastante tempo para isso.
— Eu sei, mas se demonstrar real interesse sobre o assunto, vão usar como instrumento de barganha. Faz tempo que descobri que quando sabem que quero muito algo, sempre tentam usar isso contra mim.
— Então é por isso que você se esforça tanto para me esconder?
— Talvez, ou talvez eu não queira ser apontada como mais uma conquista sua.
— Hei, o conquistado aqui sou eu, lembra? Você me seduziu desde o começo.
— Bobagem, eu sou só mais uma fã boba, que vivia babando pelos cantos, com medo que percebessem que era louca por você.
— Então vamos considerar um empate? Nós dois nos apaixonamos e ponto final.
*~*~*
Quando Edgar chegou em casa naquela noite, uma surpresa o aguardava.
— Sei não, mas esse seu olhar não é de alguém satisfeito por passar horas praticando no piano.
Ao ouvir a voz de Carlos Bolivatto, o rapaz estancou. Aquela visita imprevista podia ser um problema. Seria fácil esconder o caso da avó, mas quase impossível do seu pai.
— Hoje foi o jogo da semifinal do campeonato de basquete. Marcelo foi perfeito, como sempre.
— As garotas ainda se aproximam de você por causa dele?
— Sempre, mas isso não me incomoda. Sou um dos maiores fã dele. — E deixando a mochila sobre o sofá, tratou de mudar de assunto. — Não sabia da sua visita.
— Eu estava com saudades. Principalmente por que soube que dessa vez não quer passa as férias comigo.
— Marcelo vai estudar na Inglaterra. Pensamos passar as férias juntos. Ano que vem nossa vida seguirá rumos diferentes.
— Mas o pai está de mudança, vai transferir os negócios...
— Eu sei. O Marcelo me falou.
— O pai dele colocou todas as propriedades na cidade a venda. Eles não pretendem voltar.
Aquela informação era novidade para Edgar, mas ele apenas viu nela um reforço para sua posição.
— Mais um motivo para eu aproveitar o tempo com meu melhor amigo.
Carlos não reagiu a resposta do filho.
— Sua avó me contou que você apresentou suas opções para vestibular.
Então aquele era o problema.
— E...?
— Pensei que você fosse morar comigo. Temos boas universidades...
— Eu sei, pai, mas acredito que morar sozinho será uma boa experiência para mim.
— Eu não duvido disso, porém, pensei que seria uma boa oportunidade de ficarmos juntos por um tempo.
— Sempre teremos os feriados, pai.
— Mas você vai dividir esse tempo com a sua avó. Se você morasse comigo, seria mais fácil para todos.
— Mas eu não quero o fácil pai. Não é justo comigo. Eu sempre faço o que é fácil para todos. Quando o senhor foi embora, eu fiquei para trás, porque seria mais fácil para a vovó e para o senhor.
— Não foi fácil para mim, filho e você sabe disso.
Mas Edgar não queria seguir por aquele caminho, não queria se lamentar, não queria reclamar. Queria apenas seguir com a vida e fazer suas próprias escolhas.
— Eu quero deixar minhas opções em aberto, ok? Não decidi ainda onde vou cursar, vai depender de onde passar. Quanto as despesas, não se preocupe, vou usar a poupança que vovó fez para mim para bancar minhas contas. Talvez tente um estágio.
— Isso é um absurdo, Edgar. É claro que eu vou bancar suas despesas enquanto você estudar, essa não é a questão, o que eu realmente queria é ter você ao meu lado por uns tempos. Sinto sua falta e realmente sonhei em termos esse tempo juntos.
— Pai, eu não sou mais um garoto de sete anos. Eu quero viver minha própria vida.
Algo de decepção passou pelo semblante de Carlos, mas ele nada disse. Edgar quase se arrependeu de suas p************s, talvez estivesse exagerando, mas ao mesmo tempo pensava em como foi fácil para o pai deixa-lo para trás quando se mudou. Ele não podia agora estreitar a distância construída em dez anos.
— Entendo. Raquel vai ficar decepcionada. Ela estava tão empolgada com sua mudança. Quer até mesmo reformar o seu quarto.
— Nada impede ela de fazer isso. Não estarei morando com vocês, mas sempre teremos os encontros de família.
— Então é isso? Vamos nos tornar parentes que se veem no feriado?
Edgar queria dizer que já eram isso, mas ele sabia que o pai se ofenderia, então apenas deu de ombros e falou.
— Eu não sou mais criança, pai. Talvez seja essa a compreensão que falte a vocês.