capítulo 9- O casal perfeito diante do mundo

876 Palavras
O evento acontecia no salão mais luxuoso da cidade. Luzes quentes, taças de cristal, música baixa e conversas calculadas. Tudo ali respirava dinheiro, status e aparências impecáveis. Luna desceu a escadaria da mansão com passos firmes, usando um vestido longo azul-escuro que moldava seu corpo sem exageros. Elegante. Contida. Impecável. Não provocante. Não rebelde. Perfeita para o mundo que Adrian habitava. Ele a esperava no pé da escada. Terno preto sob medida. Postura reta. Olhar atento. Por um segundo, quando a viu, Adrian esqueceu de respirar. Ela estava linda. Mas não era isso que o desconcertava. Era a distância. Luna parou diante dele. — Estou pronta. Nada mais. Nenhum comentário. Nenhuma provocação. Nenhum olhar prolongado. — Você está… adequada — ele disse, escolhendo a palavra com cuidado. — Era o que você queria — ela respondeu. Ele estendeu o braço. Ela hesitou por meio segundo. O suficiente para que ele percebesse. Depois, apoiou a mão no braço dele. Fria. Controlada. O carro seguiu em silêncio. Durante o trajeto, Adrian tentou iniciar uma conversa casual. Comentou sobre o evento, sobre os investidores, sobre a importância da presença dela. Luna respondeu tudo com educação cirúrgica. — Entendi. — Claro. — Sem problema. Era como falar com uma versão editada dela. Quando chegaram ao salão, flashes começaram imediatamente. — Senhor e senhora Vale! — alguém chamou. Adrian endireitou os ombros. Instintivamente, colocou a mão nas costas de Luna. Ela não se afastou. Mas também não se aproximou. O toque era permitido. Necessário. Público. Nada além disso. — Vocês formam um casal impressionante — disse uma mulher elegante, sorrindo demais. — Discretos, mas tão… sólidos. Luna sorriu. O tipo de sorriso que não revela nada. — Obrigada — respondeu. Adrian observou aquele sorriso com atenção. Ela estava desempenhando um papel. E estava indo melhor do que ele. Durante a noite, eles circularam juntos. Cumprimentos. Conversas estratégicas. Fotografias. Luna sabia exatamente quando sorrir, quando tocar o braço dele, quando se inclinar levemente para parecer próxima. Era tudo cálculo. — Sua esposa é encantadora — comentou um dos investidores, afastando-se. — Sim — Adrian respondeu automaticamente. Mas algo estava errado. Ele não conseguia sentir orgulho. Sentia… desconforto. Em determinado momento, um fotógrafo pediu: — Um pouco mais próximos, por favor. Adrian puxou Luna com cuidado, envolvendo-a pela cintura. Ela se deixou conduzir. O corpo dela estava ali. Mas não estava. — Sorria — ele murmurou. Ela sorriu. Os flashes dispararam. Por fora, perfeitos. Por dentro, distantes demais. Mais tarde, enquanto conversavam com um grupo menor, um comentário atravessou o ar como lâmina. — Dizem que vocês se casaram rápido demais — disse um homem, rindo. — Mas parece que deu certo. Luna respondeu antes de Adrian. — Às vezes, decisões rápidas são as mais conscientes. Ele a olhou de lado. — Concordo — Adrian disse, tenso. — Vocês parecem muito alinhados — comentou outra mulher. — Quase… silenciosos demais. Luna inclinou a cabeça. — Nem todo silêncio é vazio — respondeu. Adrian sentiu o impacto. Ela estava falando com o mundo. Mas era para ele. Quando a música mudou, alguém sugeriu: — Uma dança? Adrian hesitou por uma fração de segundo. O suficiente. — Claro — Luna respondeu, antes que ele recusasse. A pista não estava cheia. Apenas alguns casais. Adrian pousou a mão na cintura dela novamente. — Não precisa — ele murmurou. — Se não quiser— — Está tudo bem — ela respondeu. — É esperado. Esperado. Eles começaram a dançar. Lento. Formal. Contido. O rosto dela estava calmo. Os olhos, distantes. — Você está se saindo muito bem — Adrian disse, baixo. — Você também — ela respondeu. — Luna… — Não — ela o interrompeu suavemente. — Hoje não. Ele sentiu o aviso. — Todos estão olhando — ele insistiu. — Exatamente. Ela se aproximou apenas o suficiente para parecer íntima aos olhos alheios. — Eles veem um casal forte — ela murmurou. — Seguro. Controlado. — É isso que você quer mostrar? — ele perguntou. — É isso que você construiu. A música terminou. Aplausos leves. Eles se afastaram. — Preciso ir ao banheiro — Luna disse. — Já volto. Ela não esperou resposta. Adrian ficou ali, sozinho, cercado de gente. Pela primeira vez, sentiu-se exposto. Minutos depois, ao passar por um corredor mais reservado, ele a encontrou perto da janela. — Luna — chamou. Ela virou-se. — Está tudo bem? — ele perguntou. — Está tudo perfeito — ela respondeu. — Não parece. Ela deu um pequeno sorriso. — Em público, eu sou exatamente quem você precisa. — E em particular? O olhar dela se manteve firme. — Em particular… eu estou aprendendo a não precisar mais lutar. Aquilo o atingiu em cheio. — Você está me punindo — ele disse. — Não — Luna respondeu. — Estou apenas deixando você sentir o peso das escolhas que fez. Ela passou por ele. — Vamos voltar — disse. — O casal perfeito ainda tem que sorrir para o mundo. Adrian a observou se afastar. Impecável. Elegante. Inatingível. E entendeu algo que o deixou inquieto até os ossos: Em público, Luna era a esposa perfeita. Mas, em silêncio, ela estava se afastando. E, se ele não mudasse algo logo… O mundo inteiro assistiria enquanto ele a perdia.
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