Luna acordou antes do despertador.
Não por ansiedade.
Nem por medo.
Mas porque, pela primeira vez desde que assinara aquele contrato, ela estava… vazia.
Não havia raiva pulsando nas veias.
Não havia planos de provocação.
Não havia vontade de lutar.
E isso, de algum modo, a assustava menos do que deveria.
Ela se levantou, tomou banho em silêncio, vestiu uma roupa simples e desceu para o café da manhã exatamente no horário estipulado.
Pontual.
Adrian já estava à mesa, lendo algo no tablet. O café fumegava intacto à sua frente. Ele levantou os olhos no instante em que ela entrou — como sempre fazia — esperando algo.
Uma reclamação.
Um comentário ácido.
Um desafio.
Mas Luna apenas assentiu levemente com a cabeça.
— Bom dia.
A voz saiu neutra. Educada. Controlada.
Adrian piscou uma única vez.
— Bom dia — respondeu, depois de um segundo a mais do que o normal.
Ela sentou-se à mesa. Serviu-se de café. Pegou uma fatia de pão.
Comeu.
Em silêncio.
O som da xícara tocando o pires pareceu alto demais naquele ambiente grande demais.
— Dormiu bem? — ele perguntou.
Era uma pergunta comum. Social. Automática.
Luna ergueu os olhos apenas o suficiente para responder.
— Dormi.
Nada mais.
Nenhum detalhe.
Nenhuma emoção.
Adrian voltou ao tablet, mas não conseguiu se concentrar. As palavras na tela pareciam embaralhadas. Algo estava fora do lugar — e ele não sabia corrigir.
— Hoje à tarde tenho uma reunião externa — disse, finalmente. — Você ficará na mansão.
— Certo.
A resposta veio rápida. Fácil.
Sem resistência.
O maxilar de Adrian se contraiu quase imperceptivelmente.
— Se precisar de algo… — ele começou.
— Peço a alguém da equipe — Luna completou, sem olhar para ele. — Não se preocupe.
Não se preocupe.
A frase soou como um aviso.
Ela terminou o café, levantou-se e recolheu o próprio prato — algo que nunca fazia antes. Caminhou até a cozinha e o deixou sobre a pia, ignorando o olhar atento da governanta.
— Tenha um bom dia — disse ao passar por Adrian.
E saiu.
Sem olhar para trás.
Adrian ficou parado, o tablet esquecido na mesa.
Aquilo…
aquilo não era vitória.
Era perda.
Durante o dia, ele tentou se concentrar no trabalho. Tentou agir como sempre. Tentou manter o controle.
Mas o silêncio de Luna o seguia.
Ela não apareceu no escritório.
Não mandou mensagens.
Não fez perguntas.
Não exigiu nada.
Era como se tivesse se encaixado perfeitamente no molde que ele criara.
E isso era perturbador.
No meio da tarde, Adrian chamou a governanta.
— Ela saiu do quarto hoje?
— Apenas para a biblioteca, senhor. Ficou lendo por algumas horas.
— Leu o quê?
— Um romance antigo. Algo… melancólico.
Adrian dispensou a mulher com um gesto.
Melancólico.
À noite, Luna apareceu para o jantar vestida de forma impecável. Um vestido simples, discreto, elegante. O cabelo preso. Nenhuma maquiagem exagerada.
Linda.
Distante.
Ela sentou-se à mesa sem dizer uma palavra.
— Amanhã teremos um jantar social — Adrian disse, quebrando o silêncio. — Alguns investidores. Você irá comigo.
— Claro.
A resposta veio sem hesitação.
— Preciso que você—
— Vou me comportar — ela disse calmamente. — Como sempre.
Ele pousou os talheres devagar demais.
— Luna…
Ela ergueu o olhar.
— Sim?
Ele esperou.
Esperou que ela perguntasse o quê.
Esperou impaciência.
Esperou irritação.
Nada veio.
— Você não vai dizer nada? — ele perguntou, por fim.
— Sobre o quê?
— Sobre… — ele fez um gesto vago com a mão. — Tudo isso.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Não há nada a dizer. Você deixou claro o que espera de mim.
— E o que eu espero de você? — ele perguntou, a voz mais baixa.
Ela o encarou por um longo segundo.
— Obediência.
A palavra caiu pesada entre eles.
— Isso não é verdade — Adrian respondeu rápido demais.
— É sim — Luna disse com calma. — E está tudo bem.
Está tudo bem.
Nada naquela situação estava bem.
— Você parece… diferente — ele comentou.
— Estou apenas cansada — ela respondeu. — Cansada de lutar contra algo que não vai mudar.
— Eu posso rever algumas coisas — ele disse, cauteloso. — As restrições…
Luna pousou o guardanapo sobre a mesa.
— Não faça isso.
— Isso o quê?
— Fingir que está cedendo por mim — ela disse. — Você só vai fazer isso porque se sentiu desconfortável. Não porque entendeu.
— Você acha que eu não entendo? — ele retrucou.
Ela se levantou.
— Acho que você só entende quando perde o controle — respondeu. — E isso ainda não aconteceu.
Ela caminhou até a porta.
— Boa noite, Adrian.
E saiu.
Dessa vez, ele não a seguiu.
Ficou ali, sentado, encarando a cadeira vazia à sua frente.
Mais tarde, já deitado, Adrian não conseguiu dormir.
Pensou nela.
No silêncio.
Na obediência perfeita.
Pensou na forma como Luna o enfrentava antes. Como o olhava com fogo nos olhos. Como o desafiava.
Aquilo era vida.
Agora havia apenas distância.
Ele se levantou, caminhou pelo corredor e parou diante da porta do quarto dela.
Ficou ali.
Sem bater.
Sem entrar.
Sem coragem.
Do outro lado da porta, Luna estava acordada.
Deitada de lado, encarando a parede, sentindo o peso de tudo o que não dizia.
Ela sabia.
Sabia que o silêncio doía nele.
E, pela primeira vez desde que tudo começara, não sentiu culpa por isso.
Porque algumas guerras não se vencem gritando.
Algumas se vencem…
quando o outro percebe tarde demais o que perdeu.