Adrian não voltou direto para a mansão.
Ficou no carro por longos minutos, os dedos cerrados contra o volante, o maxilar travado, a mente repetindo a mesma cena como um erro impossível de desfazer.
O sorriso dela.
O homem inclinado demais.
A sensação sufocante no peito.
Ciúme.
Ele odiava aquela palavra.
Era irracional.
Improvisada.
Indisciplinada.
E tudo que Adrian Vale desprezava… ele corrigia.
Quando chegou em casa, Luna ainda não havia voltado.
Isso o irritou mais do que deveria.
— Onde ela está? — perguntou ao segurança.
— Disse que voltaria sozinha, senhor.
Claro que disse.
Adrian subiu para o escritório e fechou a porta com força controlada demais para ser natural. Caminhou até a mesa, respirou fundo e tomou uma decisão.
Se Luna precisava de limites…
Ele iria criá-los.
Ela entrou na mansão duas horas depois.
Encontrou Adrian esperando.
Sentado.
Imóvel.
Frio outra vez.
— Onde você estava? — ele perguntou.
— Fora. — Luna respondeu, largando a bolsa no sofá. — Como qualquer pessoa normal.
— Você violou o contrato. — ele disse. — Saiu sem autorização. Se encontrou com alguém que eu não conheço. Criou um risco.
— Um risco pra você, não pra mim.
— Você é um risco para mim agora. — Adrian respondeu, seco.
Ela riu, incrédula.
— Ah, pronto. Vai me colocar de castigo?
— Algo parecido.
O sorriso dela morreu.
— O que você fez?
Adrian se levantou e caminhou até a mesa lateral, pegando um envelope.
— A partir de hoje, — ele disse — você terá restrições.
Luna sentiu o estômago revirar.
— Não vai sair da mansão sem um motorista.
— Não encontrará ninguém sem que eu saiba.
— E não tomará decisões públicas sem minha aprovação.
Ela o encarou, boquiaberta.
— Você enlouqueceu?
— Estou prevenindo problemas.
— Você está me punindo porque ficou com ciúme. — ela disparou.
O olhar dele se endureceu.
— Eu não sinto ciúme.
— Então por que isso tudo? — ela ergueu o envelope. — Controle reforçado? Monitoramento? Isso não é proteção. É medo.
— Chega, Luna. — ele cortou. — Você cruzou um limite.
Ela deu um passo à frente.
— O seu limite. Não o meu.
O silêncio entre eles ficou pesado.
— Essa é sua punição. — Adrian disse, firme. — E não é negociável.
Por alguns segundos, Luna apenas o encarou.
Então, lentamente, algo mudou.
Ela não gritou.
Não provocou.
Não desafiou.
Ela assentiu.
— Tudo bem.
Aquilo… não era a reação que ele esperava.
— Tudo bem? — Adrian repetiu.
— Você quer controle? — ela disse calmamente. — Fique com ele.
Ela caminhou até a escada.
— Onde você vai? — ele perguntou.
— Para o meu quarto. — respondeu sem virar. — Já que agora eu sou oficialmente uma prisioneira de luxo.
A porta do quarto dela se fechou.
E pela primeira vez desde que a conhecera…
Adrian sentiu algo errado.
Muito errado.
A noite passou silenciosa demais.
Nenhuma provocação.
Nenhuma resposta atravessada.
Nenhuma rebeldia.
Luna não desceu para o jantar.
Não reclamou.
Não desafiou.
Ela obedeceu.
E aquilo o perturbou mais do que qualquer briga.
Perto da meia-noite, Adrian parou diante da porta do quarto dela.
Levantou a mão.
Hesitou.
Bateu.
— Entra. — veio a resposta baixa.
Luna estava sentada na cama, de pijama simples, o olhar distante.
— Você não jantou — ele disse.
— Não estava com fome.
— Isso não faz parte da punição.
Ela deu de ombros.
— Eu sei.
O silêncio voltou.
— Diga alguma coisa. — Adrian disse, impaciente.
— O quê você quer que eu diga? — ela respondeu. — Que você venceu?
Ele franziu o cenho.
— Isso não é sobre vencer.
— É sempre sobre isso pra você.
Ela o encarou finalmente.
— Só não percebeu ainda que, dessa vez… você perdeu.
O peito dele apertou.
— Luna—
— Você quer me controlar porque está com medo. — ela continuou. — Mas não de mim. De si mesmo.
— Não ouse—
— Ousei. — ela cortou. — E você sabe que eu estou certa.
Ela se levantou.
— Você podia ter conversado.
— Podia ter perguntado.
— Podia ter confiado.
Ela passou por ele, indo até a porta.
— Mas escolheu punição.
— Escolheu controle.
Antes de sair, ela disse, sem olhar para trás:
— E é por isso que você vai perder o que ainda nem percebeu que quer.
A porta se fechou.
Adrian ficou sozinho no quarto dela.
E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu algo que não sabia administrar:
Arrependimento.
A punição funcionou.
Mas custou caro demais.