capítulo 6- O ciúmes que ele não sabia sentir

932 Palavras
Luna não dormiu bem. Não porque a cama era desconfortável — era perfeita demais. Mas porque a presença dele ainda parecia impregnada no quarto. O quase. O silêncio. O olhar. Ela levantou cedo, vestiu um jeans simples e uma camiseta branca e decidiu fazer algo que não fazia desde que assinara aquele contrato absurdo: Sair sozinha. Sem avisar. Sem pedir. Sem obedecer. O jardim da mansão era enorme, mas ela passou direto pelo portão principal. — Senhora Vale — o segurança chamou —, o senhor Adrian… — Não precisa avisar ninguém — ela cortou. — Eu volto. Ela saiu antes que alguém discutisse. Respirou o ar da rua como se estivesse escapando de uma prisão invisível. --- O café era pequeno, simples, barulhento. Perfeito. Luna sentou perto da janela e pediu um café forte. Estava mexendo no celular quando ouviu uma voz conhecida. — Luna? Ela ergueu o olhar e congelou. — …Theo? Theo Martinez. O passado em forma de sorriso torto e jaqueta de couro. O garoto que conhecia sua versão antes da raiva virar armadura. — Caramba — ele riu. — Achei que estivesse em outro país. — Eu… — ela hesitou — é complicado. — Pelo visto. — ele brincou, sentando-se sem pedir. — Você desapareceu. — A vida aconteceu. — Aconteceu rica, pelo visto. — ele apontou para o relógio caro no pulso dela. — Não começa. Theo sorriu, aquele sorriso fácil que sempre a desarmava. — Fico feliz em te ver. E ela… ficou feliz também. Não percebeu o carro preto estacionando do outro lado da rua. --- Adrian estava atrasado para uma reunião quando o segurança informou: — Senhor… a senhora Vale saiu sozinha. O maxilar dele travou. — Como assim, sozinha? — Ela disse que voltaria logo. Adrian não respondeu. Entrou no carro. Localização do celular. Uma olhada. Um endereço. Café. Algo dentro dele apertou — e não fazia sentido algum. Quando chegou, viu primeiro o cabelo dela pela janela. Depois viu o sorriso. E então… o homem sentado à frente dela. Rindo. Inclinado demais. Próximo demais. O peito de Adrian queimou. Ciúme. Puro. Cru. Não planejado. — Quem é ele? — murmurou, já abrindo a porta do carro. --- Luna estava rindo de algo que Theo disse quando a sombra caiu sobre a mesa. — Achei você. A voz fria cortou o ar. Luna levantou o olhar — e o sorriso morreu na hora. — Adrian?! Theo olhou de um para o outro, confuso. — Uau… — ele murmurou. — Então é ele. — Ele quem? — Adrian perguntou, o olhar fixo em Theo. — Meu amigo. — Luna respondeu rápido. — Theo. — Amigo. — Adrian repetiu, o tom perigoso. — Ex-namorado? — Theo perguntou, curioso. — Marido. — Adrian corrigiu, seco. Silêncio. Theo piscou. — Espera… o quê? Luna levantou-se. — Você não devia estar aqui. — Você saiu sem avisar. — Adrian respondeu, controlado demais para ser saudável. — Isso é uma quebra direta da cláusula. — Não existe cláusula que me proíba de sair! — ela rebateu. — Existe a que exige que você obedeça. — ele disse. — E eu não autorizei. Theo se levantou também. — Ei, cara — disse —, acho que você está exagerando. Adrian finalmente olhou para ele. O olhar que fazia conselhos de administração tremerem. — Isso não te diz respeito. — Diz sim — Theo respondeu — quando você fala com ela como se fosse propriedade. O ar ficou pesado. — Adrian… — Luna começou. Mas ele não tirava os olhos de Theo. — Você toca nela? — perguntou, baixo. — Adrian! — Luna arregalou os olhos. Theo franziu a testa. — Não. — respondeu. — Mas se tocasse, não seria da sua conta. Foi aí que Adrian perdeu algo. Não o controle total. Mas a frieza. Ele deu um passo à frente. — Afaste-se dela. — Ou o quê? — Theo desafiou. Luna entrou entre os dois. — Chega! — ela disse. — Vocês não são animais! Ela encarou Adrian. — Você não pode aparecer assim. — Não pode decidir com quem eu falo. — E não pode sentir ciúme como se tivesse esse direito. O silêncio caiu pesado. Adrian a encarou. — Eu não sinto ciúme. — Então o que é isso?! — ela apontou entre eles. Ele respirou fundo. Uma vez. Duas. — É proteção. — disse, por fim. — Não. — Luna respondeu firme. — Isso é medo. Os olhos dele escureceram. — Medo de quê? Ela sustentou o olhar. — De não me controlar. O mundo pareceu parar. Theo pigarreou. — Olha… eu acho melhor ir. — disse. — Mas… foi bom te ver, Luna. Ele se aproximou e beijou a bochecha dela. Adrian ficou imóvel. Mas algo dentro dele explodiu. Quando Theo se afastou, Adrian segurou o braço de Luna. — Vamos. — disse. — Solta. — ela respondeu na hora. — Luna— — Solta agora. Ele soltou. O olhar dele queimava. — Isso não acabou. — Adrian disse. — Não mesmo. — ela respondeu. — Porque você acabou de descobrir algo novo. — O quê? Ela se aproximou, o olhar firme, desafiador. — Que eu não sou sua… — Que você não manda no que eu sinto… — E que, se você não aprender a lidar com isso… Ela deu um passo para trás. — Vai ser você quem vai perder o controle primeiro. Ela virou as costas e saiu do café. Adrian ficou parado. O peito apertado. A mandíbula tensa. Ciúme. Ele não sabia sentir aquilo. E agora… não sabia como parar.
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