Luna não dormiu bem.
Não porque a cama era desconfortável — era perfeita demais.
Mas porque a presença dele ainda parecia impregnada no quarto.
O quase.
O silêncio.
O olhar.
Ela levantou cedo, vestiu um jeans simples e uma camiseta branca e decidiu fazer algo que não fazia desde que assinara aquele contrato absurdo:
Sair sozinha.
Sem avisar.
Sem pedir.
Sem obedecer.
O jardim da mansão era enorme, mas ela passou direto pelo portão principal.
— Senhora Vale — o segurança chamou —, o senhor Adrian…
— Não precisa avisar ninguém — ela cortou. — Eu volto.
Ela saiu antes que alguém discutisse.
Respirou o ar da rua como se estivesse escapando de uma prisão invisível.
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O café era pequeno, simples, barulhento.
Perfeito.
Luna sentou perto da janela e pediu um café forte.
Estava mexendo no celular quando ouviu uma voz conhecida.
— Luna?
Ela ergueu o olhar e congelou.
— …Theo?
Theo Martinez.
O passado em forma de sorriso torto e jaqueta de couro.
O garoto que conhecia sua versão antes da raiva virar armadura.
— Caramba — ele riu. — Achei que estivesse em outro país.
— Eu… — ela hesitou — é complicado.
— Pelo visto. — ele brincou, sentando-se sem pedir. — Você desapareceu.
— A vida aconteceu.
— Aconteceu rica, pelo visto. — ele apontou para o relógio caro no pulso dela.
— Não começa.
Theo sorriu, aquele sorriso fácil que sempre a desarmava.
— Fico feliz em te ver.
E ela… ficou feliz também.
Não percebeu o carro preto estacionando do outro lado da rua.
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Adrian estava atrasado para uma reunião quando o segurança informou:
— Senhor… a senhora Vale saiu sozinha.
O maxilar dele travou.
— Como assim, sozinha?
— Ela disse que voltaria logo.
Adrian não respondeu.
Entrou no carro.
Localização do celular.
Uma olhada.
Um endereço.
Café.
Algo dentro dele apertou — e não fazia sentido algum.
Quando chegou, viu primeiro o cabelo dela pela janela.
Depois viu o sorriso.
E então… o homem sentado à frente dela.
Rindo.
Inclinado demais.
Próximo demais.
O peito de Adrian queimou.
Ciúme.
Puro.
Cru.
Não planejado.
— Quem é ele? — murmurou, já abrindo a porta do carro.
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Luna estava rindo de algo que Theo disse quando a sombra caiu sobre a mesa.
— Achei você.
A voz fria cortou o ar.
Luna levantou o olhar — e o sorriso morreu na hora.
— Adrian?!
Theo olhou de um para o outro, confuso.
— Uau… — ele murmurou. — Então é ele.
— Ele quem? — Adrian perguntou, o olhar fixo em Theo.
— Meu amigo. — Luna respondeu rápido. — Theo.
— Amigo. — Adrian repetiu, o tom perigoso.
— Ex-namorado? — Theo perguntou, curioso.
— Marido. — Adrian corrigiu, seco.
Silêncio.
Theo piscou.
— Espera… o quê?
Luna levantou-se.
— Você não devia estar aqui.
— Você saiu sem avisar. — Adrian respondeu, controlado demais para ser saudável. — Isso é uma quebra direta da cláusula.
— Não existe cláusula que me proíba de sair! — ela rebateu.
— Existe a que exige que você obedeça. — ele disse. — E eu não autorizei.
Theo se levantou também.
— Ei, cara — disse —, acho que você está exagerando.
Adrian finalmente olhou para ele.
O olhar que fazia conselhos de administração tremerem.
— Isso não te diz respeito.
— Diz sim — Theo respondeu — quando você fala com ela como se fosse propriedade.
O ar ficou pesado.
— Adrian… — Luna começou.
Mas ele não tirava os olhos de Theo.
— Você toca nela? — perguntou, baixo.
— Adrian! — Luna arregalou os olhos.
Theo franziu a testa.
— Não. — respondeu. — Mas se tocasse, não seria da sua conta.
Foi aí que Adrian perdeu algo.
Não o controle total.
Mas a frieza.
Ele deu um passo à frente.
— Afaste-se dela.
— Ou o quê? — Theo desafiou.
Luna entrou entre os dois.
— Chega! — ela disse. — Vocês não são animais!
Ela encarou Adrian.
— Você não pode aparecer assim.
— Não pode decidir com quem eu falo.
— E não pode sentir ciúme como se tivesse esse direito.
O silêncio caiu pesado.
Adrian a encarou.
— Eu não sinto ciúme.
— Então o que é isso?! — ela apontou entre eles.
Ele respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
— É proteção. — disse, por fim.
— Não. — Luna respondeu firme. — Isso é medo.
Os olhos dele escureceram.
— Medo de quê?
Ela sustentou o olhar.
— De não me controlar.
O mundo pareceu parar.
Theo pigarreou.
— Olha… eu acho melhor ir. — disse. — Mas… foi bom te ver, Luna.
Ele se aproximou e beijou a bochecha dela.
Adrian ficou imóvel.
Mas algo dentro dele explodiu.
Quando Theo se afastou, Adrian segurou o braço de Luna.
— Vamos. — disse.
— Solta. — ela respondeu na hora.
— Luna—
— Solta agora.
Ele soltou.
O olhar dele queimava.
— Isso não acabou. — Adrian disse.
— Não mesmo. — ela respondeu. — Porque você acabou de descobrir algo novo.
— O quê?
Ela se aproximou, o olhar firme, desafiador.
— Que eu não sou sua…
— Que você não manda no que eu sinto…
— E que, se você não aprender a lidar com isso…
Ela deu um passo para trás.
— Vai ser você quem vai perder o controle primeiro.
Ela virou as costas e saiu do café.
Adrian ficou parado.
O peito apertado.
A mandíbula tensa.
Ciúme.
Ele não sabia sentir aquilo.
E agora… não sabia como parar.