🩸 ANTES
A casa era grande demais pra uma criança que tinha acabado de perder tudo.
Morgana ficou parada na entrada.
Pequena.
Silenciosa.
Não chorava.
Só… observava.
O homem ao lado dela falava alguma coisa.
Sobre casa.
Sobre cuidado.
Sobre segurança.
Palavras vazias.
E então…
passos.
Uma menina apareceu correndo.
Cabelos claros.
Olhos curiosos.
Anna.
— Você é ela?
Direto.
Sem filtro.
Morgana não respondeu.
Anna não se importou.
Se aproximou.
Sem medo.
— Eu sou a Anna.
Silêncio.
— Você pode ficar no meu quarto se quiser.
Aquilo não fazia sentido.
Mas era… quente.
Diferente.
— E eu tenho bonecas — ela continuou
— mas se você não gostar, a gente pode brincar de outra coisa.
Morgana piscou.
Devagar.
Primeira vez que alguém falava com ela como se…
ela ainda fosse criança.
— Você fala pouco, né?
Anna sorriu.
— Tudo bem. Eu falo por nós duas.
E segurou a mão dela.
Simples assim.
🩸
Do outro lado do corredor…
Gianni espiava.
Pequeno demais.
Curioso demais.
Mas não chegou perto.
Ficou ali.
Olhando.
Como se estivesse vendo algo importante…
mas não soubesse o que fazer com isso ainda.
🩸
Leon não espiava.
Ele encarava.
Parado.
Braços cruzados.
Observando cada detalhe.
Como se estivesse tentando entender:
o que ela era.
Morgana sentiu.
E olhou de volta.
Sem medo.
Sem recuar.
Silêncio entre duas crianças que já não eram mais só crianças.
E ali…
começou.
🩸 TEMPO DEPOIS
Risos no corredor.
Anna puxando Morgana pela mão.
— Anda, você prometeu!
— Eu não prometi.
— Prometeu sim!
Morgana soltou um quase sorriso.
Raro.
Mas Anna viu.
E isso bastava.
As duas grudadas.
Sempre.
Segredos.
Risadas.
Confiança.
Como irmãs que não nasceram juntas…
mas escolheram.
🩸
Gianni agora mais velho.
Observando de longe.
Desenhando.
Cadernos escondidos.
Rostos.
Detalhes.
Ela.
Sempre ela.
E nunca mostrou.
Nunca teve coragem.
🩸
Leon…
não desenhava.
Mas também não desviava.
Nunca.
E quando cruzavam sozinhos…
O silêncio era diferente.
Mais pesado.
Mais consciente.
Mais perigoso.
🩸 AGORA
A casa era a mesma.
Mas ninguém ali era mais.
Anna sentada ao lado de Morgana.
Ainda cuidando.
Ainda próxima.
— Você lembra quando chegou aqui?
Morgana olhou de lado.
— Lembro.
— Você não falava nada.
— Ainda não falo muito.
Anna sorriu.
— Mas fala comigo.
Silêncio leve.
Raro.
Do outro lado da sala…
Leon e Gianni.
Distantes.
Mas não o suficiente.
— Você quase matou ela.
Leon disse.
Baixo.
Gianni travou.
— Eu sei.
— Não sabe.
Silêncio.
— Se soubesse… não teria feito.
Aquilo bateu.
— Eu só queria provar—
— Provar o quê?!
Agora veio.
— Que você não é inútil?
Silêncio.
Gianni engoliu seco.
— Eu não sou você.
— Nunca vai ser.
Cortante.
Direto.
Errado.
Silêncio pesado.
— Mas ela…
Gianni hesitou.
— Ela confiou em mim.
Leon riu.
Sem humor.
— Ela confiou porque achou que você não ia fazer merda.
Aquilo…
foi o golpe.
Gianni desviou o olhar.
Quebrando.
🩸
Anna percebeu.
— Eles vão se matar.
Baixo.
Morgana nem olhou.
— Não hoje.
Simples.
Mas firme.
Anna olhou pra ela.
— Você fala como se controlasse isso.
Morgana virou o rosto.
Olhou.
— Eu controlo.
Silêncio.
Mas Anna sentiu.
Algo ali.
Algo que não entendia.
Ainda.
🩸
Leon levantou.
A discussão morreu.
Mas não acabou.
Ele passou por elas.
Sem parar.
Mas o olhar…
parou.
Um segundo.
Nela.
E seguiu.
Como se não pudesse ficar.
Como se ficar fosse pior.
🩸 FINAL
A casa voltou ao silêncio.
Mas não ao equilíbrio.
Porque agora todo mundo ali sabia:
Ela não era só uma pessoa naquela casa.
Ela era três coisas diferentes.
Pra Anna:
família.
Pra Gianni:
primeiro amor.
E pra Leon…
…o único ponto fraco que ele nunca admitiria.
E talvez…
o único que podia destruir ele.