RAÍZES DO QUE QUEIMA

627 Palavras
🩸 ANTES A casa era grande demais pra uma criança que tinha acabado de perder tudo. Morgana ficou parada na entrada. Pequena. Silenciosa. Não chorava. Só… observava. O homem ao lado dela falava alguma coisa. Sobre casa. Sobre cuidado. Sobre segurança. Palavras vazias. E então… passos. Uma menina apareceu correndo. Cabelos claros. Olhos curiosos. Anna. — Você é ela? Direto. Sem filtro. Morgana não respondeu. Anna não se importou. Se aproximou. Sem medo. — Eu sou a Anna. Silêncio. — Você pode ficar no meu quarto se quiser. Aquilo não fazia sentido. Mas era… quente. Diferente. — E eu tenho bonecas — ela continuou — mas se você não gostar, a gente pode brincar de outra coisa. Morgana piscou. Devagar. Primeira vez que alguém falava com ela como se… ela ainda fosse criança. — Você fala pouco, né? Anna sorriu. — Tudo bem. Eu falo por nós duas. E segurou a mão dela. Simples assim. 🩸 Do outro lado do corredor… Gianni espiava. Pequeno demais. Curioso demais. Mas não chegou perto. Ficou ali. Olhando. Como se estivesse vendo algo importante… mas não soubesse o que fazer com isso ainda. 🩸 Leon não espiava. Ele encarava. Parado. Braços cruzados. Observando cada detalhe. Como se estivesse tentando entender: o que ela era. Morgana sentiu. E olhou de volta. Sem medo. Sem recuar. Silêncio entre duas crianças que já não eram mais só crianças. E ali… começou. 🩸 TEMPO DEPOIS Risos no corredor. Anna puxando Morgana pela mão. — Anda, você prometeu! — Eu não prometi. — Prometeu sim! Morgana soltou um quase sorriso. Raro. Mas Anna viu. E isso bastava. As duas grudadas. Sempre. Segredos. Risadas. Confiança. Como irmãs que não nasceram juntas… mas escolheram. 🩸 Gianni agora mais velho. Observando de longe. Desenhando. Cadernos escondidos. Rostos. Detalhes. Ela. Sempre ela. E nunca mostrou. Nunca teve coragem. 🩸 Leon… não desenhava. Mas também não desviava. Nunca. E quando cruzavam sozinhos… O silêncio era diferente. Mais pesado. Mais consciente. Mais perigoso. 🩸 AGORA A casa era a mesma. Mas ninguém ali era mais. Anna sentada ao lado de Morgana. Ainda cuidando. Ainda próxima. — Você lembra quando chegou aqui? Morgana olhou de lado. — Lembro. — Você não falava nada. — Ainda não falo muito. Anna sorriu. — Mas fala comigo. Silêncio leve. Raro. Do outro lado da sala… Leon e Gianni. Distantes. Mas não o suficiente. — Você quase matou ela. Leon disse. Baixo. Gianni travou. — Eu sei. — Não sabe. Silêncio. — Se soubesse… não teria feito. Aquilo bateu. — Eu só queria provar— — Provar o quê?! Agora veio. — Que você não é inútil? Silêncio. Gianni engoliu seco. — Eu não sou você. — Nunca vai ser. Cortante. Direto. Errado. Silêncio pesado. — Mas ela… Gianni hesitou. — Ela confiou em mim. Leon riu. Sem humor. — Ela confiou porque achou que você não ia fazer merda. Aquilo… foi o golpe. Gianni desviou o olhar. Quebrando. 🩸 Anna percebeu. — Eles vão se matar. Baixo. Morgana nem olhou. — Não hoje. Simples. Mas firme. Anna olhou pra ela. — Você fala como se controlasse isso. Morgana virou o rosto. Olhou. — Eu controlo. Silêncio. Mas Anna sentiu. Algo ali. Algo que não entendia. Ainda. 🩸 Leon levantou. A discussão morreu. Mas não acabou. Ele passou por elas. Sem parar. Mas o olhar… parou. Um segundo. Nela. E seguiu. Como se não pudesse ficar. Como se ficar fosse pior. 🩸 FINAL A casa voltou ao silêncio. Mas não ao equilíbrio. Porque agora todo mundo ali sabia: Ela não era só uma pessoa naquela casa. Ela era três coisas diferentes. Pra Anna: família. Pra Gianni: primeiro amor. E pra Leon… …o único ponto fraco que ele nunca admitiria. E talvez… o único que podia destruir ele.
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