O lugar ainda cheirava a sangue.
Corpos no chão.
Silêncio pesado.
Respiração que não voltava ao normal.
Gianni encostado na parede.
Braço enfaixado.
Olhos… errados.
Ele viu tudo.
Viu o irmão virar outra coisa.
Viu ela quase morrer.
E pela primeira vez…
não tinha o que dizer.
Morgana limpava a lâmina.
Devagar.
Como sempre.
Mas o movimento não era o mesmo.
Leon estava parado.
De costas.
Imóvel.
Como se qualquer movimento a mais…
quebrasse alguma coisa.
— Eu errei.
A voz de Gianni saiu baixa.
Rasgada.
Ninguém respondeu.
— Eu fiz merda.
Silêncio.
Leon fechou os olhos.
Por um segundo.
Mas não virou.
— Eu quase matei ela.
Aquilo…
quebrou o ar.
Leon virou.
Devagar.
E o olhar…
não era de irmão.
Era de sentença.
— Você quase matou muita coisa hoje.
Baixo.
Frio.
Gianni assentiu.
Não discutiu.
Porque sabia.
Sabia mesmo.
Silêncio.
Morgana levantou o olhar.
— Já foi.
Simples.
Mas não leve.
Gianni olhou pra ela.
— Não.
Aquilo não era negação.
Era culpa.
— Não foi só missão.
Silêncio.
Ela sustentou o olhar.
— Então aprende.
Direto.
Sem carinho agora.
E aquilo…
doeu mais que qualquer bronca do Leon.
Gianni desviou o olhar.
— Eu vou consertar.
Leon soltou um riso curto.
Sem humor.
— Não vai.
Silêncio.
— Você vai obedecer.
Aquilo fechou a conversa.
Gianni assentiu.
Dessa vez…
de verdade.
E saiu.
A porta fechou.
Agora só os dois.
Silêncio.
Pesado.
Denso.
Errado.
Leon ainda de pé.
De costas.
Morgana observando.
— Você perdeu o controle.
Ela disse.
Simples.
Ele não respondeu.
— Eu vi.
Silêncio.
Ele virou.
Devagar.
Os olhos nele…
diferentes.
— Você não devia ter vindo daquele jeito.
A voz dela saiu baixa.
Mas não era crítica.
Era… outra coisa.
— Eu devia deixar você lá?
Seco.
Ela deu um passo.
— Não.
Mais perto agora.
— Mas não daquele jeito.
Silêncio.
— Você não pensa quando faz isso.
Ele riu.
Baixo.
Sem humor.
— Eu penso em você.
Aquilo ficou.
Pesado.
Perigoso.
Ela travou por um segundo.
Pequeno.
Mas ele viu.
E foi suficiente.
Ele deu um passo.
Agora não tinha espaço.
De novo.
— Isso é o problema.
Ela disse.
Baixo.
— Ou a solução.
Ele respondeu.
Silêncio.
Respiração próxima.
Errada.
Ela não recuou.
Nunca recuava.
— Você vai se f***r desse jeito.
Ele inclinou levemente o rosto.
— Já tô.
Mais perto.
— Desde que você apareceu.
Aquilo não era charme.
Era verdade.
Crua.
Silêncio.
Ela ergueu o olhar.
— E ainda não aprendeu.
Ele aproximou mais.
Agora…
perto demais.
— Não quero aprender.
O ar ficou pesado.
Ela poderia recuar.
Mas não recuou.
Erro.
Os lábios quase se encontraram.
De novo.
Aquele mesmo maldito ponto.
Onde tudo quebra.
Ou começa.
E dessa vez…
ninguém se mexeu.
Por um segundo…
dois…
três—
Ela virou o rosto.
Quebrou.
Mas não saiu.
Ficou ali.
Respiração perto.
— Isso aqui vai dar merda.
Baixo.
— Já deu.
Ele respondeu.
Silêncio.
Mas nenhum dos dois se afastou.
E isso…
era pior.