DEPOIS DO FOGO

499 Palavras
O lugar ainda cheirava a sangue. Corpos no chão. Silêncio pesado. Respiração que não voltava ao normal. Gianni encostado na parede. Braço enfaixado. Olhos… errados. Ele viu tudo. Viu o irmão virar outra coisa. Viu ela quase morrer. E pela primeira vez… não tinha o que dizer. Morgana limpava a lâmina. Devagar. Como sempre. Mas o movimento não era o mesmo. Leon estava parado. De costas. Imóvel. Como se qualquer movimento a mais… quebrasse alguma coisa. — Eu errei. A voz de Gianni saiu baixa. Rasgada. Ninguém respondeu. — Eu fiz merda. Silêncio. Leon fechou os olhos. Por um segundo. Mas não virou. — Eu quase matei ela. Aquilo… quebrou o ar. Leon virou. Devagar. E o olhar… não era de irmão. Era de sentença. — Você quase matou muita coisa hoje. Baixo. Frio. Gianni assentiu. Não discutiu. Porque sabia. Sabia mesmo. Silêncio. Morgana levantou o olhar. — Já foi. Simples. Mas não leve. Gianni olhou pra ela. — Não. Aquilo não era negação. Era culpa. — Não foi só missão. Silêncio. Ela sustentou o olhar. — Então aprende. Direto. Sem carinho agora. E aquilo… doeu mais que qualquer bronca do Leon. Gianni desviou o olhar. — Eu vou consertar. Leon soltou um riso curto. Sem humor. — Não vai. Silêncio. — Você vai obedecer. Aquilo fechou a conversa. Gianni assentiu. Dessa vez… de verdade. E saiu. A porta fechou. Agora só os dois. Silêncio. Pesado. Denso. Errado. Leon ainda de pé. De costas. Morgana observando. — Você perdeu o controle. Ela disse. Simples. Ele não respondeu. — Eu vi. Silêncio. Ele virou. Devagar. Os olhos nele… diferentes. — Você não devia ter vindo daquele jeito. A voz dela saiu baixa. Mas não era crítica. Era… outra coisa. — Eu devia deixar você lá? Seco. Ela deu um passo. — Não. Mais perto agora. — Mas não daquele jeito. Silêncio. — Você não pensa quando faz isso. Ele riu. Baixo. Sem humor. — Eu penso em você. Aquilo ficou. Pesado. Perigoso. Ela travou por um segundo. Pequeno. Mas ele viu. E foi suficiente. Ele deu um passo. Agora não tinha espaço. De novo. — Isso é o problema. Ela disse. Baixo. — Ou a solução. Ele respondeu. Silêncio. Respiração próxima. Errada. Ela não recuou. Nunca recuava. — Você vai se f***r desse jeito. Ele inclinou levemente o rosto. — Já tô. Mais perto. — Desde que você apareceu. Aquilo não era charme. Era verdade. Crua. Silêncio. Ela ergueu o olhar. — E ainda não aprendeu. Ele aproximou mais. Agora… perto demais. — Não quero aprender. O ar ficou pesado. Ela poderia recuar. Mas não recuou. Erro. Os lábios quase se encontraram. De novo. Aquele mesmo maldito ponto. Onde tudo quebra. Ou começa. E dessa vez… ninguém se mexeu. Por um segundo… dois… três— Ela virou o rosto. Quebrou. Mas não saiu. Ficou ali. Respiração perto. — Isso aqui vai dar merda. Baixo. — Já deu. Ele respondeu. Silêncio. Mas nenhum dos dois se afastou. E isso… era pior.
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