FIO DA LÂMINA

509 Palavras
A rua era estreita demais pra erro. Prédios antigos comprimiam o ar. Luzes falhando. Som de passos que não pertenciam a ninguém. Morgana parou antes da esquina. Sem olhar pra trás. — A partir daqui, você respira baixo. Gianni assentiu. Mais sério agora. Menos impulso. Ou tentando. — Dois na porta. Um no fundo — ela continuou — você pega o fundo. Ele franziu o cenho. — Sozinho? Ela virou o rosto. Olhar frio. — Quer ajuda pra andar também? Silêncio. — Segue o plano — ela finalizou. E então sumiu na esquina. Gianni ficou um segundo. Só um. Respirou fundo. E foi. Dentro, o ar era pesado. Cheiro de cigarro. Metal. Tensão. O primeiro homem caiu antes de entender. Morgana não fez barulho. Nunca fazia. O segundo tentou reagir. Tarde. Ela limpou a lâmina na própria roupa dele. Calma. Precisa. E então… parou. Algo estava errado. Silêncio demais. O tipo de silêncio que não é ausência. É espera. Do outro lado, Gianni avançava. Passos mais rápidos do que deveriam. Respiração mais pesada. Ele abriu a porta do fundo com impulso. Erro. O homem já estava esperando. — Tarde — o russo disse. Sotaque carregado. Arma levantada. O disparo veio rápido. Gianni desviou por pouco. O tiro pegou de raspão no ombro. Dor. Quente. Imediata. Ele avançou mesmo assim. Raiva tomando frente. Corpo contra corpo. Impacto. Queda. E então… silêncio. Mas não vitória. Morgana ouviu. Um único disparo. Ela não correu. Mas acelerou. Quando chegou… viu. Gianni encostado na parede. Respiração irregular. Sangue começando a manchar a camisa. E um corpo no chão. — Eu mandei você não entrar assim. A voz dela saiu fria. Controlada. Mas os olhos… não. Gianni deu um meio sorriso. Forçado. — Funcionou. Ela se aproximou. Rápido agora. A mão dela foi direto no ferimento. Pressão. Sem delicadeza. — Isso não é funcionar. Ele travou o maxilar. Dor subindo. — Eu matei. Ela olhou pra ele. Direto. — E quase morreu junto. Silêncio. Ela rasgou um pedaço da própria roupa. Amarrou firme. Contenção rápida. Eficiente. — Você não segue ordem — ela disse — você reage. — Eu resolvo. Ela aproximou o rosto. Mais perto. Mais baixo. — Você complica. Silêncio. E então… passos. Mais gente. Morgana levantou na hora. Olhar mudando. Frio de novo. — Levanta. — Tô bem. Mentira. Ela puxou ele pelo braço. Sem perguntar. — Anda. Agora não era mais missão. Era saída. Eles saíram pelos fundos. Rápido. Limpo. Mas não invisíveis. De longe… alguém observava. Sem intervir. Sem se mostrar. Só assistindo. Aprendendo. No carro, o silêncio voltou. Mas agora tinha dor no meio. Gianni encostou a cabeça. Respiração pesada. Morgana dirigia. Foco total. — Você vai precisar de ponto — ela disse — Já tive pior. Ela não respondeu. Só dirigiu. Mais rápido. Do outro lado da cidade… Leon olhava o celular. Uma mensagem. Curta. “Deu contato.” E outra logo depois. “Ele se feriu.” O maxilar dele travou. Silêncio. E então… ele pegou as chaves. Porque agora… não era mais só guerra. Era pessoal.
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