Capítulo 22

887 Palavras
O Que Começa Sem Avisar Naquela noite, sozinho em seu quarto, Adrian demorou a pegar no sono. O silêncio da casa contrastava com o barulho dentro dele. Pensava em Lúcia. Não de um jeito comum, não como pensava nas outras mulheres que haviam passado por sua vida. Com as outras sempre fora simples: cama, prazer, despedida. Nada ficava. Nada criava raiz. Com Lúcia era diferente. Ela ocupava os pensamentos dele sem esforço. O jeito simples, o riso discreto, o olhar firme e ao mesmo tempo doce. O modo como vivia sem pressa, sem telas, sem máscaras. Adrian percebeu, quase assustado, que estava começando a gostar dela de um jeito que nunca tinha gostado de mulher nenhuma. E isso o deixou inquieto. Na manhã seguinte, ao descer a escada, encontrou os pais sentados à mesa, conversando animados. O cheiro de café fresco tomava a casa. — Hoje tem churrasco na casa do Raul — dizia Dona Margarete. — É aniversário da Alice, minha comadre. — Verdade — completou o pai. — Já fazia tempo que não reunia o pessoal assim. Dona Margarete virou-se para o filho. — Meu filho, nós vamos ao churrasco mais tarde. Mas antes preciso ir à cidade comprar umas coisas. Posso ir com você? Adrian tentou disfarçar o sorriso que se formou. — Claro, mãe. Por dentro, ele sabia: seria a oportunidade perfeita para passar mais um tempo com Lúcia. Mesmo que fosse só vê-la de longe, ouvir sua voz, sentir aquela presença que o desarmava. Enquanto isso, na casa de Raul, o dia também começava cedo. Lúcia já tinha colocado a carne para marinar. Temperava com cuidado, do jeito que aprendera com a mãe, sem pressa, respeitando o tempo de cada coisa. Mais cedo, tinha ido buscar mandioca fresca para cozinhar à noite. Gostava de fazer tudo ela mesma. A casa estava animada. Não era uma festa grande, mas era cheia de afeto. Risadas soltas, cheiro de tempero, gente entrando e saindo da cozinha. Sandrinha chegou cedo, como sempre, abraçando a tia Alice com entusiasmo. — Feliz aniversário, tia! — disse, enchendo o rosto da mulher de beijos. — Minha menina — respondeu Alice, emocionada. — Meus pais não vêm — explicou Sandrinha. — A senhora sabe como eles são… mas eu vim. E trouxe um presente. Ela saiu até a varanda e voltou com uma orquídea linda, delicada, cheia de flores. — Que coisa mais linda! — exclamou Alice. — Vou cuidar com carinho. O churrasco seria responsabilidade de Lúcia. Ela não se importava. Gostava de cuidar, de organizar, de ver as pessoas bem. Vestia uma calça confortável e uma camiseta simples, os cabelos longos presos de lado. Quando a família de Adrian chegou, a casa pareceu ganhar outro ritmo. Dona Margarete foi logo abraçando Alice, chamando-a de comadre, desejando saúde e muitos anos de vida. Os homens se cumprimentaram com apertos de mão firmes, conversas sobre o tempo, a fazenda, o trabalho. Adrian entrou logo atrás. E, como se fosse inevitável, seus olhos procuraram Lúcia. Ela estava perto da churrasqueira, concentrada, virando a carne com cuidado. Quando levantou o olhar e o viu, sorriu. Um sorriso simples, sem intenção aparente — e que, ainda assim, fez o coração dele acelerar. Sandrinha percebeu. Ela observava tudo de longe, com atenção. Viu o jeito como Adrian olhava para Lúcia. Não era um olhar qualquer. Não era desejo rápido, desses que passam. Era um olhar que ficava. Sandrinha sorriu sozinha. Aproximou-se e sentou-se perto dele, como quem não quer nada. — Você é o Adrian, não é? — perguntou. — Sou — respondeu, educado. — E você é a Sandrinha. — A própria — disse ela, rindo. — Amiga da Lúcia. Quase irmã. Adrian assentiu. — Ela é especial — comentou, sem pensar muito. Sandrinha inclinou a cabeça, observando-o com mais atenção. — É sim — concordou. — E muito. Ela sabia quem Lúcia era. Sabia que, apesar de tudo o que já vivera, Lúcia ainda era uma garota simples. Não tinha dado nenhum beijo na boca de um rapaz. Não tinha vivido romances, nem promessas quebradas. O coração dela ainda era intacto. Mas Sandrinha também sabia como as coisas funcionavam. — E você? — perguntou, direta. — O que acha dela? Adrian respirou fundo antes de responder. — Acho que ela… é diferente de tudo que já conheci. Sandrinha sorriu, satisfeita. — Então cuidado — disse, sem tom de ameaça, apenas verdade. — Porque a Lúcia não é para passar o tempo. Ele a encarou, sério. — Eu não estou aqui para brincar. Sandrinha levantou-se, dando um leve tapinha no ombro dele. — Ainda bem. Enquanto isso, Lúcia seguia com o churrasco, alheia à conversa. A mãe a observava com orgulho. A filha estava ali, firme, inteira, rodeada de pessoas que a amavam. Quando Adrian se aproximou da churrasqueira, Lúcia sentiu o coração acelerar um pouco. — Quer ajuda? — ele perguntou. — Já está tudo sob controle — respondeu, sorrindo. Ele ficou ali mesmo assim, perto, conversando sobre coisas simples. O calor do fogo, o cheiro da carne, a tarde se transformando em noite. O aniversário de Dona Alice seguiu assim: simples, verdadeiro, cheio de afeto. E, entre olhares discretos, risos contidos e conversas cuidadosas, algo novo começava a nascer — sem aviso, sem pressa, mas com força suficiente para mudar tudo.
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