Capítulo 23

846 Palavras
O Sabor do Que Fica Lúcia cuidava do churrasco com atenção, como se cada detalhe fosse importante. Virava a carne no tempo certo, observava o fogo, sentia o cheiro que se espalhava pelo quintal e misturava-se às risadas baixas e às conversas simples. De vez em quando, levantava os olhos para observar a festa. Não era uma festa grande, mas era cheia. Cheia de afeto. O olhar dela parou na mãe. Dona Alice conversava animada, sorria com facilidade, recebia abraços, parecia leve. Aquilo bastava para Lúcia. Ver a mãe feliz era como um prêmio silencioso por tudo o que tinham vivido juntas. Ela respirou fundo, sentindo um nó bom no peito. Foi quando percebeu Adrian se aproximando. Ele caminhava devagar, como se não quisesse atrapalhar. Parou ao lado dela, observando o jeito firme com que ela cuidava da churrasqueira, a segurança nos movimentos, o rosto levemente corado pelo calor do fogo. — Posso ajudar? — perguntou, num tom baixo. Lúcia sorriu sem tirar os olhos da carne. — Não precisa — respondeu. — Está tudo certo aqui. Adrian assentiu, mas não se afastou. Ficou ali, apenas olhando. — Você é uma caixa de surpresas, Lúcia — disse ele, quase sem perceber que falava em voz alta. Ela virou o rosto para ele, curiosa. — Por quê? — Porque… — ele fez um gesto vago — eu não sei nada disso. Churrasco, tempero, fogo… você faz tudo com tanta naturalidade. Ela deu de ombros. — A gente aprende fazendo. Ele sorriu, sentindo algo apertar no peito. Não era só admiração. Era mais fundo. Era aquela sensação estranha de estar diante de alguém que não precisava provar nada, que simplesmente era. Lúcia terminou de assar uma parte da carne, cortou com cuidado e montou um prato. Estendeu para ele. — Prova. Adrian pegou o prato ainda quente. Cortou um pedaço pequeno, levou à boca. No primeiro instante, fechou os olhos sem perceber. O sabor era intenso, macio, equilibrado. Não era só a carne. Era o tempero, o cuidado, o tempo certo. — Meu Deus, Lúcia… — disse, sincero. — Que carne maravilhosa. Ela sorriu, um sorriso simples, sem vaidade. — Que bom que gostou. — Não… — ele balançou a cabeça. — Gostar é pouco. Acho que é a melhor carne que já comi. Ela riu, baixinho. — Você exagera. — Não exagero — respondeu. — Eu falo o que sinto. E, naquele instante, Adrian percebeu algo com clareza assustadora: ele estava perdido. Perdido naquele sorriso, naquele jeito calmo, naquela mulher que cuidava do churrasco como quem cuida da vida. Ele estava apaixonado. A constatação veio sem alarde, sem trombetas, mas firme. Não era desejo. Não era curiosidade. Era algo que ficava. Lúcia continuou servindo as pessoas, indo e vindo, enquanto Adrian permanecia ali, acompanhando tudo como quem assiste a algo precioso demais para perder um segundo. Quando ela voltou para perto dele, segurando um copo, perguntou: — Você aceita uma bebida? Adrian levantou os olhos. — O que você está bebendo, Lúcia? Ela estendeu o copo, sem dizer nada. — Isso. Ele pegou o copo com cuidado, observando o líquido claro. — É o quê? — Prova — respondeu ela, divertida. Adrian levou o copo à boca e tomou um gole generoso. No segundo seguinte, sentiu a garganta queimar. Tossiu, levando a mão ao peito, os olhos marejados. — Lúcia… — disse, entre tosses — isso é forte! Ela arregalou os olhos, preocupada. — Você está bem? Ele respirou fundo, tentando se recompor. — Agora estou — respondeu, ainda rouco. — Mas isso devia vir com aviso. Ela riu, daquela risada aberta que parecia limpar o ambiente. — É só uma bebida caseira — explicou. — Meu tio que faz. — “Só” — ele repetiu, sorrindo. — Acho que perdi uns cinco anos de vida nesse gole. Ela continuou rindo, e Adrian pensou que aquele som era uma das coisas mais bonitas que já tinha ouvido. Ficaram ali, lado a lado, observando a festa seguir. Dona Alice recebeu os parabéns, a orquídea foi colocada num lugar de destaque, as conversas se misturavam ao cheiro da carne e da mandioca cozinhando. Adrian olhou novamente para Lúcia. Não com pressa. Não com intenções escondidas. Apenas olhando. Ela percebeu. — O que foi? — perguntou. Ele hesitou por um segundo. — Nada — respondeu. — Só estava pensando que… essa noite está boa. Lúcia concordou. — Está mesmo. E estava. Não porque havia festa, nem carne boa, nem bebida forte. Mas porque havia algo acontecendo ali, silencioso, entre dois olhares que começavam a se reconhecer. Adrian sentiu, pela primeira vez em muito tempo, vontade de ficar. Não só naquela festa. Mas naquela história que começava a se desenhar, devagar, no ritmo do fogo baixo, do tempero certo e do que não precisa ser apressado. E Lúcia, mesmo sem saber dar nome àquilo, sentiu que algo tinha mudado. Como se, naquele instante, o mundo tivesse ficado um pouco mais atento, mais próximo. O churrasco seguiu. Mas, para os dois, algo já tinha ficado marcado. Não no prato. No coração.
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