Capítulo 37

1211 Palavras
Três Línguas, Um Só Sentimento Adrian ainda sentia o coração acelerado quando atravessou o espaço entre as mesas até onde Lúcia estava. O barulho da festa continuava ao redor — risadas, conversas, música retomando aos poucos —, mas para ele tudo parecia distante, como se estivesse dentro de uma bolha criada só para aquele momento. Os olhos dele estavam fixos nela, e não era apenas pela surpresa do que tinha acabado de acontecer no palco. Era pela forma como Lúcia tinha se revelado mais uma vez, indo além de tudo o que ele achava que já conhecia. Ela estava linda. Não de um jeito óbvio ou exagerado, mas com uma elegância natural que vinha de dentro. A maquiagem destacava seus olhos cor de mel, que brilhavam sob as luzes suaves da festa. O vestido escolhido por Sandrinha parecia ter sido feito sob medida, acompanhando cada movimento dela com leveza. O cabelo solto caía pelos ombros, emoldurando o rosto sereno, ainda um pouco corado pela emoção de ter cantado. Quando Adrian chegou perto, Lúcia levantou o olhar e sorriu, aquele sorriso que sempre o desmontava. — Você sumiu — ela disse, em tom baixo, quase provocando. — Eu precisava… — ele começou, mas parou, passando a mão pelo cabelo, como fazia quando estava nervoso. — Eu precisava te ver de perto. Ela riu de leve, sem desviar o olhar. — Então conseguiu? — Consegui — respondeu. — E ainda não estou acreditando no que vi. Eles ficaram alguns segundos em silêncio, apenas se olhando. Havia algo novo ali, uma intensidade diferente, como se depois daquela apresentação uma porta tivesse se aberto entre os dois. Não era mais só admiração ou carinho. Era um encantamento profundo, desses que pegam desprevenido. — Lúcia… — ele disse, por fim. — Você tem noção do que fez comigo hoje? Ela abaixou um pouco o olhar, tímida. — Eu só quis fazer algo especial pra você. — Você fez muito mais do que isso — respondeu ele. — Eu fiquei extasiado. Não só pela música… mas por você. Ela levantou o rosto de novo, curiosa. — Como assim? Adrian respirou fundo, procurando as palavras certas. — Você cantou em português, inglês e espanhol com uma naturalidade absurda. Mudava de uma língua pra outra como se fosse a coisa mais simples do mundo. Eu fiquei olhando e pensando… como eu não sabia disso? Como você consegue ser tanta coisa ao mesmo tempo? Lúcia sorriu, um pouco envergonhada. — São só línguas, Adrian. — Não — ele corrigiu, com suavidade. — Não são “só línguas”. É dedicação, é inteligência, é sensibilidade. Você entende o sentimento de cada música, de cada palavra. Isso… isso não é comum. Ela sentiu o rosto esquentar. — Eu aprendi porque precisava — explicou. — Algumas coisas na vida da gente não são luxo, são necessidade. Ele assentiu, observando cada detalhe dela, como se quisesse guardar aquela imagem para sempre. — Mesmo assim — disse —, ver você ali, segura, cantando… negociando outro dia em inglês como se estivesse conversando com alguém da fazenda… tudo isso me faz querer você ainda mais perto. Lúcia sentiu o coração bater forte. A proximidade dele era diferente naquela noite. Adrian sempre fora respeitoso, cuidadoso, mas agora havia algo a mais no jeito como ele falava, como se aproximava. Não era pressa. Era intensidade. — Você está bem? — ela perguntou, percebendo o olhar fixo demais. — Estou — respondeu, sorrindo de canto. — Só estou tentando entender como alguém consegue ser tão linda por fora e por dentro ao mesmo tempo. Ela respirou fundo, sentindo um misto de felicidade e nervosismo. — Você também está diferente hoje — disse ela, desviando um pouco o foco para não ficar ainda mais corada. — Diferente como? — Mais… sensível — respondeu, escolhendo a palavra com cuidado. Ele riu baixo. — Talvez seja porque hoje eu vi você por inteiro, Lúcia. Não só a garota da varanda, do tereré, da fazenda. Mas a mulher que canta, que fala outras línguas, que se coloca no mundo sem medo. Ela o olhou com atenção. Aquela palavra — mulher — ecoou dentro dela de um jeito novo. Não a assustou. Pelo contrário. Fez com que se sentisse vista, respeitada. — Eu fico feliz que você tenha gostado — disse. — Eu fiquei com medo de você achar exagero. — Exagero? — ele repetiu, quase ofendido. — Eu fiquei foi orgulhoso. Muito. Eles caminharam juntos até um canto mais tranquilo do jardim, onde as luzes eram mais suaves e o som da festa chegava abafado. Adrian parou perto de uma árvore, apoiando-se no tronco, e Lúcia ficou diante dele. — Posso te falar uma coisa? — ele perguntou. — Pode. — Enquanto você cantava, eu pensei que precisava de você perto de mim. Não só hoje, não só agora. Perto de verdade. No dia a dia. Na vida. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi cheio de significado. Lúcia sentiu um frio bom na barriga. — Adrian… — ela começou, mas ele ergueu a mão, pedindo um segundo. — Eu sei que tudo pra você tem tempo, tem cuidado, tem respeito — disse. — E eu quero fazer tudo do jeito certo. Mas eu precisava que você soubesse disso. Ela se aproximou um pouco mais. Agora estavam a poucos centímetros de distância. Lúcia podia sentir o perfume dele, ver os detalhes do rosto, a forma como os olhos dele a observavam com atenção quase reverente. — Eu gosto de você — disse ela, com firmeza. — Do jeito que você é comigo. Do jeito que me olha. Do jeito que respeita meu tempo. Ele sorriu, aliviado. — Então eu estou no caminho certo. — Está — confirmou. Adrian estendeu a mão devagar, como sempre fazia, dando a ela a chance de decidir. Lúcia colocou a mão na dele sem hesitar. O contato foi simples, mas carregado de significado. Ele entrelaçou os dedos aos dela, sentindo como sua mão ainda estava um pouco fria. — Você ficou nervosa lá no palco? — perguntou. — Muito — confessou, rindo. — Achei que minhas pernas iam falhar. — Não parecia — ele disse. — Parecia que você nasceu pra aquilo. Ela balançou a cabeça. — Eu nasci pra ser quem eu sou — respondeu. — O resto eu aprendo. Adrian ficou em silêncio por um instante, absorvendo aquela frase. Depois levou a mão dela até mais perto do peito, num gesto protetor, cuidadoso. — Eu quero aprender com você — disse. — Sobre música, sobre línguas… sobre esse jeito simples e forte que você tem. Lúcia sentiu os olhos marejarem, mas sorriu. — E eu quero aprender com você também. A música da festa aumentou um pouco de volume, alguém chamou Adrian de longe, mas ele não se moveu imediatamente. Ficou ali, olhando para Lúcia como se nada mais existisse. Naquela noite, ele não estava apenas apaixonado. Estava admirado, envolvido, profundamente tocado. E Lúcia, com seus olhos cor de mel brilhando sob as luzes do jardim, sentiu que aquele vínculo entre eles estava se transformando em algo ainda mais forte — algo que nenhuma língua do mundo seria capaz de explicar por completo, mas que ambos sentiam com clareza no coração.
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