Capítulo 38

1191 Palavras
Quando o Amor Acorda no Meio da Noite Naquela noite, Adrian descobriu algo que não tinha planejado, nem previsto, nem sequer imaginado que aconteceria daquele jeito: ele amava Lúcia. Não era um pensamento leve, nem uma ideia passageira. Era uma certeza inteira, que se assentou no peito enquanto a festa ainda acontecia, enquanto as pessoas riam, enquanto a música ecoava. No dia do seu aniversário de vinte e oito anos, ele não estava apenas comemorando mais um ano de vida — estava sentindo algo nascer dentro dele. Quando Sandrinha lhe enviou o vídeo da apresentação de Lúcia, mais tarde, já em casa, o sentimento ganhou forma definitiva. Ele assistiu uma, duas, três vezes. A imagem dela no palco, segura, concentrada, cantando em português, inglês e espanhol, tocando violão com aquela delicadeza firme, parecia irreconciliável com a simplicidade da menina da varanda, do tereré, do sorriso tímido. E ainda assim, era a mesma pessoa. — Eu tô perdido — murmurou sozinho, sentado na cama, o celular na mão. Perdido no melhor sentido possível. Ele estava completamente amarrado nela. E o mais impressionante para si mesmo era perceber que tudo isso tinha acontecido sem sequer um beijo mais ousado, sem pressa, sem toque além do permitido. Era sentimento puro, construído em conversa, respeito, silêncio e admiração. — Eu nunca amei assim — admitiu em voz baixa. Enquanto isso, Lúcia chegava em casa com o coração ainda acelerado pela noite. A festa tinha sido linda, mas agora o silêncio da fazenda trazia outra energia. Ela passou pela varanda, deixou a bolsa sobre a mesa e foi direto para o lugar onde Diana costumava ficar. Diana. A cachorrinha estava com os filhotes, que Lúcia ajudava a cuidar desde que nasceram. Era um dos momentos que mais lhe traziam paz. Mas naquela noite, algo estava diferente. Diana estava quieta demais. — O que foi, minha menina? — Lúcia perguntou, agachando-se. A c****a levantou o olhar devagar. Estava triste, abatida. Não se mexeu como de costume, não abanou o r**o. Lúcia sentiu um aperto imediato no peito. Conhecia aquele olhar. Alguma coisa não estava bem. Ela pegou Diana no colo com cuidado, sentindo o corpo quente demais. — Não… — sussurrou, preocupada. Entrou rápido em casa e chamou os pais. — Pai… mãe… a Diana não tá bem. Seu Raul se aproximou, avaliou com calma, mas o semblante ficou sério. — Melhor levar no veterinário — disse. — Mas não sozinha essa hora. Lúcia assentiu. Olhou para Diana, que respirava com dificuldade. Depois, quase sem pensar, pegou o celular de botão que estava sobre a mesa. As mãos tremiam levemente. Discou um número que já sabia de cor. Era tarde. Madrugada. Mas ela não pensou duas vezes. O telefone chamou poucas vezes antes de ser atendido. — Alô… — a voz de Adrian saiu carregada de sono, mas imediatamente alerta ao reconhecer o número. — Lúcia? — Adrian… — a voz dela falhou no primeiro instante. — Desculpa ligar essa hora. O tom dela dizia tudo. Ele sentou na cama no mesmo segundo. — O que aconteceu? — É a Diana… ela não tá bem. Eu vou levar no veterinário agora. Do outro lado da linha, Adrian já estava de pé. — Onde você tá? — Em casa. Ele nem deixou ela continuar. — Tô chegando. — Adrian, não precisa… — Precisa sim — respondeu, firme, mas com doçura. — Você não vai sozinha. Ele desligou antes que ela pudesse argumentar. Vestiu a primeira camisa que encontrou, pegou a carteira, as chaves e saiu de casa sem pensar duas vezes. O coração dele dizia exatamente onde precisava estar. No caminho, dirigia com atenção, mas a mente estava nela. Na voz dela. Naquela ligação curta que tinha carregado tanto. — Ela precisa de mim — repetia para si mesmo. Quando chegou à fazenda, viu o carro de Lúcia parado com o motor ligado. Ela estava sentada no banco do motorista, com Diana no colo, tentando acalmá-la. Ao ver Adrian se aproximar, sentiu um alívio tão grande que os olhos se encheram de lágrimas. Ele abriu a porta sem dizer nada. — Eu tô aqui — disse apenas. Ela respirou fundo. — Obrigada por vir. — Sempre — respondeu, simples. Ele fechou a porta, deu a volta e entrou no carro do lado do passageiro. — Vamos — disse. — Eu fico com ela, você dirige. Ou se preferir, eu dirijo. — Eu dirijo — respondeu Lúcia, enxugando rapidamente o rosto. Durante o trajeto, o silêncio foi preenchido apenas pelo som do motor e pela respiração de Diana. Adrian mantinha a mão sobre o dorso da c****a, fazendo carinho com cuidado, enquanto Lúcia dirigia concentrada. — Ela vai ficar bem — disse ele, mais para ela do que para si mesmo. — Eu espero — respondeu Lúcia, com a voz baixa. Chegaram ao veterinário de plantão. Adrian desceu primeiro, ajudou Lúcia a sair com Diana no colo. Dentro da clínica, tudo foi rápido: atendimento, exames, perguntas. Lúcia respondia, mas a mente parecia distante. Adrian estava ao lado dela o tempo todo, atento, presente. Depois de algum tempo, o veterinário explicou que Diana tinha tido uma complicação, mas que tinha chegado a tempo. Precisaria ficar em observação. Lúcia sentou-se na cadeira da sala de espera, sentindo o corpo finalmente relaxar. Adrian se sentou ao lado dela. — Você foi muito forte — disse. — Eu fiquei com medo — confessou. Ele olhou para ela com ternura. — Coragem não é não sentir medo. É agir mesmo com ele. Ela sorriu de leve, cansada. — Você sempre sabe o que dizer. — Não sei — respondeu. — Só falo o que sinto. O silêncio voltou, mas agora era tranquilo. Lúcia encostou a cabeça no encosto da cadeira, fechando os olhos por alguns segundos. Adrian observou aquele rosto que ele já sabia amar. Amava em silêncio, em cuidado, em presença. Sem pensar muito, estendeu a mão e tocou de leve na mão dela. Lúcia não se afastou. Pelo contrário, virou a mão e entrelaçou os dedos aos dele. — Obrigada por vir — repetiu. — Eu viria quantas vezes fosse preciso. Ela abriu os olhos e o encarou. — Mesmo de madrugada? Ele sorriu. — Principalmente de madrugada. Ela sentiu o coração aquecer. Ficaram assim por alguns minutos, mãos dadas, compartilhando aquele momento simples e intenso. Quando finalmente puderam voltar para casa, o céu já começava a clarear levemente. Adrian a acompanhou até o portão da fazenda. — Me avisa qualquer coisa — disse ele. — Qualquer hora. — Aviso — respondeu Lúcia. Ela hesitou por um instante, depois se aproximou e o abraçou. Um abraço firme, sincero, que dizia tudo o que as palavras não conseguiam. Adrian fechou os olhos por um segundo. Naquela madrugada, sem discursos, sem promessas, ele soube com clareza: não era só paixão, não era só encanto. Era amor. Um amor que acordava no meio da noite, que atravessava estradas, que ficava em silêncio ao lado de uma sala de espera. E enquanto Lúcia entrava em casa, com o coração ainda apertado pela preocupação com Diana, sentia algo novo também: a certeza de que não estava sozinha.
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