A Decisão de Margarida Margarida fechou a porta da padaria com cuidado naquela tarde. O sino tilintou suave, como sempre, mas naquele dia o som pareceu diferente, mais demorado, quase solene. Ela respirou fundo antes de atravessar a rua estreita e seguir para casa. O avental ainda estava preso à cintura, cheirando a pão quente e café passado, aromas que faziam parte da sua vida desde cedo demais. Tinha apenas vinte e dois anos, mas às vezes sentia como se carregasse mais tempo nos ombros do que deveria. Não reclamava — aprendera cedo que reclamar não mudava nada —, mas sonhava. E sonhar, para ela, era um ato silencioso, quase secreto. A conversa que teria naquela noite não lhe saía da cabeça. Lúcia. A lembrança do sorriso dela, da forma como falava olhando nos olhos, sem pressa e sem

