Capítulo 56

1050 Palavras
Dias em Silêncio, Amor em Detalhes Os dias seguintes passaram de um jeito diferente. Mais lentos, mais silenciosos, mais cheios de pequenas rotinas que, sem que nenhum dos dois percebesse de imediato, iam construindo algo profundo entre Lúcia e Adrian. Desde a primeira madrugada, ela levou a sério a missão que assumira. O despertador do celular vibrava baixinho sobre a mesa de cabeceira, sempre nos horários certos. Duas da manhã. Cinco. Oito. Lúcia acordava sem reclamar, levantava-se devagar para não fazer barulho demais, conferia a receita, separava os comprimidos, pegava a água. — Adrian… — chamava baixo, tocando de leve o braço dele. Ele acordava ainda grogue, os olhos semicerrados. — Já é hora? — murmurava. — É — respondia ela, paciente. — Abre a boca. Ele obedecia, como uma criança, e depois sorria. — Você é muito brava cuidando. — E você é muito teimoso doente — ela respondia, ajeitando o travesseiro dele. Durante o dia, a rotina não era diferente. Lúcia acordava cedo, mesmo sem precisar ir para a lida. Aquilo era estranho para ela. O corpo acostumado ao trabalho pesado, ao sol, ao cavalo, ao campo… agora estava ali, dentro de casa, entre panos limpos, remédios, pomadas e curativos. Mas ela não reclamava. Sentava-se ao lado de Adrian, examinava a perna com cuidado, limpava os arranhões com algodão e soro, passava a pomada com os dedos firmes, mas delicados. — Vai arder um pouco — avisava sempre. — Dói menos quando é você — ele respondia, meio brincando, meio sério demais. Ela fingia não ouvir, concentrada em terminar o curativo direito. Depois envolvia a perna com a faixa, certificando-se de que estava firme, mas confortável. — Pronto. Agora nada de ficar mexendo — dizia. — Sim, senhora — ele respondia, rindo. Ela também ajudava Adrian a se levantar. Passava o braço dele por cima dos ombros, ajustava as muletas, ficava atenta a cada passo. — Devagar — repetia. — Não é corrida. — Eu sei, eu sei… — ele resmungava. — Mas você não sai do meu lado nem um segundo. — Nem vou — respondia simples. — Enquanto não estiver bom. Ramires estava afastado da lida. Aquilo, para Lúcia, era quase estranho demais de explicar. A parte dela que resolvia tudo, que enfrentava conflito, que montava cavalo e dava ordem… estava em silêncio. Guardada. Ela não saía. Não ia à fazenda. Não resolvia problemas. Não montava cavalo. A prioridade era Adrian. E, aos poucos, ela começou a conhecer o mundo dele dentro daquela casa. As manhãs eram tranquilas. Café passado na hora, pão quente, às vezes um bolo simples que Dona Margarete tinha deixado antes de viajar. Lúcia sentava à mesa com ele, mesmo quando ele ainda estava meio sonolento. — Você sempre toma café assim devagar? — perguntou um dia. — Sempre — ele respondeu. — Gosto de sentir o gosto das coisas. Ela achou curioso. Na vida dela, café era rápido, quase automático, muitas vezes em pé, antes de sair correndo para o trabalho. — Vou aprender isso — disse. — Parar um pouco. — Você vive acelerada demais — ele comentou. — Alguém tem que ser — ela respondeu. — Mas agora… agora eu estou aqui. As tardes eram de descanso forçado para ele e de descoberta para ela. Adrian gostava de assistir séries. Tinha várias favoritas, de gêneros que Lúcia quase nunca tinha parado para ver. No começo, ela sentava meio distante, dizendo que só ia ficar ali fazendo companhia. — Pode escolher — dizia ele, entregando o controle. — Eu não entendo dessas coisas — ela respondia. — Então vamos começar do começo. E assim começaram. Ela se pegava interessada nas histórias, nos personagens, nas reviravoltas. Às vezes comentava algo sério, às vezes fazia perguntas óbvias, às vezes ria de coisas que nem eram para rir tanto assim. — Você se empolga fácil — ele dizia, divertido. — E você fala demais durante o episódio — ela devolvia. Virou costume. Às vezes ela se sentava mais perto. Outras vezes, ele acabava dormindo no meio do episódio, a respiração ficando pesada, tranquila. Lúcia diminuía o volume da TV, ajeitava a manta sobre ele e ficava ali, observando. Ela começou a aprender as manias dele. Que ele gostava de chocolate meio amargo, mas só depois do almoço. Que preferia suco de laranja pela manhã e café forte à tarde. Que dormia melhor com a luz do abajur acesa. Que ficava inquieto quando sentia dor, mas não reclamava em voz alta. E Adrian, por sua vez, começou a aprender sobre Lúcia naquele silêncio. Via como ela era atenta, como percebia pequenas mudanças — um gemido contido, um olhar diferente, um movimento mais lento. — Está doendo mais hoje — ela dizia, sem perguntar. — Um pouco — ele admitia. — Então hoje você não vai levantar tantas vezes. — Lúcia… — Sem discussão. Ele sorria. Não adiantava discutir com ela. À noite, ela continuava firme. Mesmo cansada, mesmo com o corpo pedindo descanso, levantava para dar os remédios, verificar a perna, trocar a posição dos travesseiros. — Você devia dormir mais — ele disse certa vez, quase culpado. — Eu durmo quando você dorme — respondeu. — E quem cuida de você? Ela pensou por um instante. — Agora… você também cuida. Só não percebeu ainda. E era verdade. Mesmo machucado, Adrian fazia o que podia. Agradecia sempre, segurava a mão dela quando ela parecia cansada demais, puxava conversa quando percebia que ela estava quieta. — Você sente falta da lida, não sente? — perguntou uma noite. Ela demorou a responder. — Sinto — admitiu. — Mas não me arrependo. — Nem um pouco? — Nem um pouco — repetiu, firme. Ela tinha deixado o serviço de lado, deixado Ramires quieto, deixado o mundo esperar. E, pela primeira vez em muito tempo, Lúcia se permitia simplesmente estar. Estar cuidando. Estar presente. Estar ficando. Os dias passaram assim, costurados por curativos, séries, cafés lentos, silêncios bons e olhares que diziam mais do que qualquer palavra. E, sem perceber, Lúcia entendeu algo que nunca tinha aprendido na lida ou no comando: Cuidar de alguém também era uma forma de amar. E Adrian, sendo cuidado por ela, descobriu que nunca esteve tão seguro quanto naquele tempo em que o mundo lá fora parou — e ela ficou.
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