Capítulo 68

793 Palavras
Planos à Mesa Eles desceram juntos para o café da manhã ainda com o silêncio da casa acordando aos poucos. A luz da manhã entrava pelas janelas grandes da sede da fazenda, iluminando a mesa posta com cuidado — pão fresco, café passado na hora, frutas cortadas. Para os olhos de quem visse de fora, era apenas mais um café. Para eles, era especial. Havia algo diferente no ar: a sensação de começo, de responsabilidade compartilhada, de decisões que já não eram individuais. Adrian puxou a cadeira para Lúcia antes de sentar. Ela agradeceu com um sorriso tímido, daqueles que vinham carregados de significado. Ainda estava se acostumando com tudo — com a palavra “esposa” ecoando na cabeça, com a casa nova em reforma, com o plano que exigia cuidado e silêncio. E, apesar do medo, havia também uma alegria serena. — Dormiu bem? — perguntou ele, servindo o café. — Dormi — respondeu Lúcia. — Melhor do que eu imaginava. Ele sorriu. O sorriso de quem entende mais do que foi dito. Enquanto comiam, Adrian parecia pensativo. Observava Lúcia em pequenos detalhes: o jeito como ela cortava o pão, como olhava ao redor da mesa, como parecia atenta a tudo. Aquela atenção, ele sabia, era o que a tornava tão forte. E também o que a colocava, às vezes, em risco. — Estive pensando em algo — começou, com cuidado. — Não é uma decisão pequena, então quero te ouvir. Lúcia levantou os olhos. — Pode falar. — Eu queria que você viesse trabalhar comigo no escritório. Pelo menos por um tempo. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, processando. — Trabalhar… com você? Na cidade? — Sim. — Ele apoiou a mão na mesa, firme. — Não só pelo trabalho em si. Mas porque assim a gente fica junto. Eu fico sabendo de tudo, você fica perto de mim, e nada acontece sem que a gente saiba. O que está em jogo agora é grande demais pra gente dar bobeira. Lúcia entendeu na hora. Não era controle. Era cuidado. Era estratégia. — E o que eu faria lá? — perguntou, curiosa. — O que você já faz tão bem. Organização, leitura de contratos, e-mails… — Ele sorriu. — Você é melhor com papelada do que muita gente formada por aí. Ela riu, meio sem jeito. — Nunca pensei nisso. — Eu pensei. — Ele a olhou com carinho. — E pensei também que, enquanto isso, você poderia escolher as coisas da casa. Lúcia franziu a testa. — Como assim? — Os móveis. A decoração. — Ele falou como quem diz algo simples. — A casa já é nossa. Eu comprei, a reforma já está andando. Mas eu não quero que seja só “minha” casa. Quero que tenha você em cada canto. Ela piscou, surpresa. — Adrian… você está falando sério? — Muito. Lúcia apoiou o cotovelo na mesa, levando a mão à boca, emocionada. — Mas… eu posso escolher tudo? — Tudo o que você quiser. — Ele riu. — Eu confio no seu gosto. E, sinceramente, quero que você se sinta em casa. De verdade. Ela respirou fundo. Aquilo era grande. Mais do que móveis, era espaço. Era pertencimento. — Eu nunca imaginei que alguém ia me dizer isso — confessou. — Sempre fui eu que me adaptei às coisas. Agora… parece que as coisas estão se adaptando a mim. Adrian estendeu a mão por cima da mesa e segurou a dela. — Porque você merece. E porque agora a gente decide junto. O café seguiu com conversas mais leves. Falaram sobre a reforma — a cozinha que Lúcia queria clara, a sala com espaço para livros, uma varanda grande para o tereré no fim de tarde. Adrian escutava tudo com atenção, anotando mentalmente cada detalhe. — Eu quero uma mesa grande — disse ela. — Pra família, pras visitas… nada de casa fechada. — Então vai ter — respondeu ele. — A maior que você quiser. Quando terminaram, Dona Alice passou pela sala e sorriu ao vê-los juntos. — Parece que esse café rendeu assunto — comentou. — Rendeu planos — respondeu Adrian, com respeito. Lúcia sorriu, orgulhosa e um pouco assustada com tudo o que estava por vir. Mais tarde, enquanto subiam novamente, Lúcia parou no meio da escada. — Adrian? — Oi. — Obrigada por confiar em mim assim. Ele se aproximou, falando baixo: — Confiança é quando a gente constrói junto. E eu não quero construir nada sem você. Ela assentiu, sentindo que, apesar dos desafios, estava exatamente onde precisava estar. Aquele café da manhã não tinha sido apenas uma refeição. Tinha sido o primeiro passo concreto de uma vida pensada a dois — com cuidado, estratégia e, acima de tudo, amor.
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