Ajustes de Futuro
O escritório estava silencioso naquela manhã em Formosura. Adrian havia chegado cedo, como vinha fazendo desde que tudo tinha mudado. A mesa organizada, os papéis alinhados, o computador ligado — por fora, tudo parecia igual. Por dentro, ele era outro homem.
Na tela do computador, a chamada de vídeo com o sócio já estava aberta. Do outro lado, Belo Horizonte aparecia através da janela do escritório moderno, prédios altos, trânsito ao fundo. Era outro mundo, outra rotina.
— Então, Adrian… — disse o sócio, recostando-se na cadeira. — Você pediu essa conversa urgente. O que aconteceu? Algum problema sério?
Adrian respirou fundo antes de responder.
— Não é problema. É novidade.
O sócio arqueou a sobrancelha.
— Isso vindo de você nunca é pouca coisa.
Adrian sorriu de canto.
— Eu me casei.
O silêncio do outro lado foi imediato. O sócio piscou uma, duas vezes, como se estivesse tentando processar o que tinha acabado de ouvir.
— Você… o Adrian? — perguntou, incrédulo. — O grande conquistador resolveu casar?
— Resolvi — respondeu com calma.
— Quem é essa mulher? — a curiosidade veio acompanhada de um meio sorriso. — Porque, convenhamos, isso é histórico.
Adrian pensou em Lúcia. No sorriso simples, na força silenciosa, no jeito firme de decidir. Falou dela com respeito, sem exageros, sem detalhes desnecessários.
— O nome dela é Lúcia. Ela é diferente de tudo que eu já vivi. Simples, inteligente, forte… — Ele fez uma pausa. — Ela me colocou no chão sem nunca precisar levantar a voz.
O sócio riu.
— Essa eu queria conhecer.
— Vai conhecer — respondeu Adrian. — No tempo certo.
Não falou sobre gravidez, nem sobre planos delicados. Aquilo era deles. Encerraram a conversa falando de negócios, prazos e contratos, mas o sócio ainda balançava a cabeça, rindo sozinho.
— Nunca pensei que ia ver esse dia — disse antes de desligar.
Quando a chamada terminou, Adrian ficou alguns segundos olhando para a tela apagada. Depois, pegou o celular e fez outra ligação.
— Padre? Sou eu.
Do outro lado, o amigo que estava cuidando de Sandrinha atendeu com voz tranquila.
— Pode ficar sossegado, Adrian. Está tudo bem. Ela está se cuidando direitinho, seguindo tudo à risca. A gravidez está evoluindo bem.
Adrian fechou os olhos por um instante, aliviado.
— Obrigado. Qualquer coisa, me avisa na hora.
— Pode deixar.
Ao desligar, ele sentiu o peso diminuir nos ombros. Pelo menos naquela frente, tudo estava sob controle.
Mas havia ainda muito a organizar.
Ele sabia que, no mês seguinte, precisariam viajar. O bebê estaria entrando no quarto mês, a barriga começaria a aparecer de verdade. Não dava para improvisar. Tudo precisava ser pensado, planejado, feito com cuidado.
Outra cidade. Outro médico. Roupas adequadas. Um ritmo diferente para Lúcia.
E havia a escola.
No início da tarde, Adrian passou em casa e encontrou Lúcia pronta para sair. Ela vestia uma calça simples e uma camisa clara, os cabelos presos de forma prática. Ainda carregava aquele jeito discreto que ele tanto admirava.
— Vamos? — perguntou ele.
— Vamos — respondeu ela, confiante.
Foram juntos até a escola. Adrian fez questão de caminhar ao lado dela, a mão repousando de leve em suas costas, num gesto silencioso de apoio.
A diretora os recebeu com cordialidade, mas não escondeu a surpresa quando Adrian explicou a situação.
— Casada… e grávida? — repetiu, controlando a expressão.
Lúcia manteve a postura firme. Não havia vergonha em seu olhar, apenas responsabilidade.
— Sim — respondeu com tranquilidade.
A diretora pigarreou, pegou a ficha da aluna e fez algumas anotações.
— Lúcia sempre foi uma excelente aluna. Nunca tivemos nenhum problema com ela. — Levantou os olhos. — Vamos ajustar o que for necessário. Está praticamente tudo concluído mesmo.
Adrian sentiu orgulho. Lúcia não precisou se justificar, nem se diminuir.
— Ela vai concluir os estudos — disse ele. — E vai participar da formatura.
A diretora sorriu, compreensiva.
— Claro. Isso é importante.
Quando saíram da escola, Lúcia respirou fundo.
— Achei que seria pior.
— Você foi incrível — respondeu Adrian. — Sempre é.
Caminharam pela rua em silêncio por alguns metros, até que Adrian parou.
— Eu não abro mão da sua formatura — disse sério. — Quero fotos, diploma, tudo. Um dia, vamos mostrar para nosso filho ou filha e dizer: “Olha, sua mãe terminou os estudos, mesmo com tudo acontecendo.”
Lúcia sentiu os olhos marejarem.
— Obrigada por pensar assim.
— Eu penso no futuro. No nosso. — Ele segurou a mão dela. — Cada detalhe importa.
Voltaram para casa com a sensação de que, pouco a pouco, tudo estava se encaixando. Ainda havia desafios, segredos, decisões difíceis. Mas havia também planejamento, parceria e respeito.
E, acima de tudo, havia a certeza de que não estavam sozinhos.
Aquele capítulo da vida deles estava sendo escrito com cuidado — linha por linha — para que, quando chegasse a hora, pudessem olhar para trás sem arrependimentos.