Capítulo 69

832 Palavras
Ajustes de Futuro O escritório estava silencioso naquela manhã em Formosura. Adrian havia chegado cedo, como vinha fazendo desde que tudo tinha mudado. A mesa organizada, os papéis alinhados, o computador ligado — por fora, tudo parecia igual. Por dentro, ele era outro homem. Na tela do computador, a chamada de vídeo com o sócio já estava aberta. Do outro lado, Belo Horizonte aparecia através da janela do escritório moderno, prédios altos, trânsito ao fundo. Era outro mundo, outra rotina. — Então, Adrian… — disse o sócio, recostando-se na cadeira. — Você pediu essa conversa urgente. O que aconteceu? Algum problema sério? Adrian respirou fundo antes de responder. — Não é problema. É novidade. O sócio arqueou a sobrancelha. — Isso vindo de você nunca é pouca coisa. Adrian sorriu de canto. — Eu me casei. O silêncio do outro lado foi imediato. O sócio piscou uma, duas vezes, como se estivesse tentando processar o que tinha acabado de ouvir. — Você… o Adrian? — perguntou, incrédulo. — O grande conquistador resolveu casar? — Resolvi — respondeu com calma. — Quem é essa mulher? — a curiosidade veio acompanhada de um meio sorriso. — Porque, convenhamos, isso é histórico. Adrian pensou em Lúcia. No sorriso simples, na força silenciosa, no jeito firme de decidir. Falou dela com respeito, sem exageros, sem detalhes desnecessários. — O nome dela é Lúcia. Ela é diferente de tudo que eu já vivi. Simples, inteligente, forte… — Ele fez uma pausa. — Ela me colocou no chão sem nunca precisar levantar a voz. O sócio riu. — Essa eu queria conhecer. — Vai conhecer — respondeu Adrian. — No tempo certo. Não falou sobre gravidez, nem sobre planos delicados. Aquilo era deles. Encerraram a conversa falando de negócios, prazos e contratos, mas o sócio ainda balançava a cabeça, rindo sozinho. — Nunca pensei que ia ver esse dia — disse antes de desligar. Quando a chamada terminou, Adrian ficou alguns segundos olhando para a tela apagada. Depois, pegou o celular e fez outra ligação. — Padre? Sou eu. Do outro lado, o amigo que estava cuidando de Sandrinha atendeu com voz tranquila. — Pode ficar sossegado, Adrian. Está tudo bem. Ela está se cuidando direitinho, seguindo tudo à risca. A gravidez está evoluindo bem. Adrian fechou os olhos por um instante, aliviado. — Obrigado. Qualquer coisa, me avisa na hora. — Pode deixar. Ao desligar, ele sentiu o peso diminuir nos ombros. Pelo menos naquela frente, tudo estava sob controle. Mas havia ainda muito a organizar. Ele sabia que, no mês seguinte, precisariam viajar. O bebê estaria entrando no quarto mês, a barriga começaria a aparecer de verdade. Não dava para improvisar. Tudo precisava ser pensado, planejado, feito com cuidado. Outra cidade. Outro médico. Roupas adequadas. Um ritmo diferente para Lúcia. E havia a escola. No início da tarde, Adrian passou em casa e encontrou Lúcia pronta para sair. Ela vestia uma calça simples e uma camisa clara, os cabelos presos de forma prática. Ainda carregava aquele jeito discreto que ele tanto admirava. — Vamos? — perguntou ele. — Vamos — respondeu ela, confiante. Foram juntos até a escola. Adrian fez questão de caminhar ao lado dela, a mão repousando de leve em suas costas, num gesto silencioso de apoio. A diretora os recebeu com cordialidade, mas não escondeu a surpresa quando Adrian explicou a situação. — Casada… e grávida? — repetiu, controlando a expressão. Lúcia manteve a postura firme. Não havia vergonha em seu olhar, apenas responsabilidade. — Sim — respondeu com tranquilidade. A diretora pigarreou, pegou a ficha da aluna e fez algumas anotações. — Lúcia sempre foi uma excelente aluna. Nunca tivemos nenhum problema com ela. — Levantou os olhos. — Vamos ajustar o que for necessário. Está praticamente tudo concluído mesmo. Adrian sentiu orgulho. Lúcia não precisou se justificar, nem se diminuir. — Ela vai concluir os estudos — disse ele. — E vai participar da formatura. A diretora sorriu, compreensiva. — Claro. Isso é importante. Quando saíram da escola, Lúcia respirou fundo. — Achei que seria pior. — Você foi incrível — respondeu Adrian. — Sempre é. Caminharam pela rua em silêncio por alguns metros, até que Adrian parou. — Eu não abro mão da sua formatura — disse sério. — Quero fotos, diploma, tudo. Um dia, vamos mostrar para nosso filho ou filha e dizer: “Olha, sua mãe terminou os estudos, mesmo com tudo acontecendo.” Lúcia sentiu os olhos marejarem. — Obrigada por pensar assim. — Eu penso no futuro. No nosso. — Ele segurou a mão dela. — Cada detalhe importa. Voltaram para casa com a sensação de que, pouco a pouco, tudo estava se encaixando. Ainda havia desafios, segredos, decisões difíceis. Mas havia também planejamento, parceria e respeito. E, acima de tudo, havia a certeza de que não estavam sozinhos. Aquele capítulo da vida deles estava sendo escrito com cuidado — linha por linha — para que, quando chegasse a hora, pudessem olhar para trás sem arrependimentos.
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