Capítulo 16

736 Palavras
Verdade de Lúcia A noite anterior ainda pairava sobre Lúcia como o perfume forte do café que insistia em ficar nas mãos. O jantar com Dona Margarete fora cordial demais para ser simples. Havia perguntas feitas com cuidado, olhares que pareciam medir mais do que palavras e um silêncio pesado entre uma resposta e outra. Dona Margarete não dissera nada diretamente, mas Lúcia saíra dali com a certeza incômoda de que a verdade já rondava a casa — e, quando a verdade ronda, é porque está pronta para entrar. Na manhã seguinte, o sol nascia limpo, dourando a varanda da casa de Lúcia. Adrian chegou cedo, como sempre fazia quando precisava resolver algo importante. Não trazia pressa nos passos, mas trazia inquietação nos olhos. — Você me chamou — disse ele, aceitando o café que Lúcia lhe ofereceu. — Parecia urgente. Lúcia respirou fundo antes de sentar-se à frente dele. As mãos estavam firmes, embora o coração batesse acelerado. — É urgente — respondeu. — E não é fácil. Adrian inclinou-se um pouco, atento. — Aconteceu alguma coisa depois do jantar com minha mãe? — Aconteceu dentro de mim — Lúcia respondeu, com honestidade. — E eu não posso mais fingir que não aconteceu. Houve um silêncio breve, cortado apenas pelo canto distante de um passarinho. Lúcia levantou-se, caminhou até a janela e voltou. Quando falou de novo, sua voz estava mais segura. — Adrian, eu sempre fui leal ao rancho. Trabalhei com afinco, dei resultados, resolvi problemas que pareciam impossíveis. Mas fiz isso escondida atrás de nomes diferentes. O cenho de Adrian se franziu. — Como assim? Ela encarou-o diretamente. — Lúcia… Luna… Ramires. — pronunciou cada nome com calma. — As três pessoas sou eu. O impacto foi imediato. Adrian se levantou, quase derrubando a cadeira. — Isso é impossível — disse, passando a mão pelo cabelo. — Ramires trabalha no campo desde sempre. Luna é minha secretária mais eficiente. E você… você é— — A mesma — completou Lúcia. — A mesma mulher. Os mesmos olhos, a mesma cabeça, o mesmo compromisso. Ele riu, sem humor. — Você está dizendo que criou três identidades dentro do meu rancho? Dentro da minha empresa? — Não criei para enganar — respondeu, firme. — Criei para sobreviver. Para provar que eu era capaz em todos os lugares onde diziam que eu não poderia estar. Adrian abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu. Lúcia continuou: — Se você quiser me demitir, está no seu direito. Eu aceitei isso no momento em que decidi contar a verdade. Mas eu não podia continuar vivendo fracionada. O olhar dele era uma mistura de incredulidade e admiração involuntária. Ainda sem saber o que dizer, Adrian se despediu, alegando que precisava pensar. Horas depois, o sol já alto, Adrian cavalgava lentamente pelo pasto do rancho. Encontrou Ramires — chapéu gasto, postura firme, mãos calejadas — cuidando do gado como sempre. — Ramires — chamou. O homem se virou, o olhar atento, respeitoso. — Pois não, patrão. Adrian desmontou e ficou frente a frente com ele. — Preciso que me diga uma coisa. Olhando nos meus olhos. — respirou fundo. — Você é Lúcia? O silêncio que se seguiu foi pesado como nuvem de tempestade. Então, sem pressa, Ramires tirou o chapéu. — Sou — respondeu. — Assim como também sou Luna. Adrian fechou os olhos por um instante, absorvendo o choque. — Por quê? — perguntou, finalmente. — Porque ninguém escuta uma mulher no pasto — disse Ramires, com voz calma. — Porque ninguém respeita uma mulher na mesa de decisões. E porque ninguém acredita que uma só pessoa possa dar conta de tudo isso. Então eu me tornei três. Adrian sentou-se numa cerca próxima, atordoado. — Você sabe que isso muda tudo. — Eu sei — respondeu ela, aproximando-se. — Mas também prova tudo. Ele levantou o olhar para o campo vasto, verde, organizado. Pensou nos resultados, na prosperidade, nas soluções que sempre surgiam “milagrosamente”. — Você me enganou — disse, por fim. — Sim — admitiu. — Mas nunca falhei com o rancho. O vento soprou leve entre eles. Adrian se levantou devagar. — Volte para casa — disse. — Preciso falar com você… com todas vocês… de uma vez. Lúcia assentiu. Pela primeira vez, não havia máscaras. A verdade estava dita — e, fosse qual fosse o preço, ela estava pronta para pagá-lo.
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