Capítulo 58

1078 Palavras
Escolhas que Mudam Destinos A semana passou arrastada. Para Adrian, os dias pareciam mais longos do que deveriam ser. A casa estava em ordem, o corpo quase recuperado, o trabalho fluía — mas nada disso preenchia o vazio que Lúcia deixara. Faltava a risada dela ecoando pela casa, o cheiro de café misturado com terra molhada, o jeito silencioso de cuidar, mesmo quando não havia nada para cuidar. Ele se pegava pensando nela o tempo todo. Pensando demais. — Será que é cedo demais? — murmurava para si mesmo, andando de um lado para o outro no escritório de casa. Três meses. Era isso que todos diriam. “É cedo.” Mas o coração não sabia contar meses. O coração só sabia que não vivia sem ela. Que a ideia de acordar todos os dias sem dividir a vida com Lúcia parecia errada. Que o amor que sentia não tinha pressa, mas também não aceitava espera desnecessária. Pedir Lúcia em casamento. A ideia vinha, ia embora, voltava mais forte. Ele ainda não sabia como, nem quando. Só sabia que aquela certeza já estava criada dentro dele. Enquanto isso, Lúcia também sentia a falta. Voltava para casa no fim do dia e, mesmo com Adrian aparecendo todas as tardes, nada era igual. Era bom tê-lo ali — muito bom — mas não era a mesma coisa que acordar e dormir sob o mesmo teto, dividir o silêncio da madrugada, os pequenos hábitos. Ela tinha aprendido muito com ele. Sobre calma. Sobre cuidado. Sobre amor que não precisa ser barulhento. E esse amor só tinha crescido. Naquele dia, porém, algo estava diferente. Sandrinha estava sumida. E isso não era normal. Lúcia tentava ligar, mandava mensagens, perguntava aos conhecidos, e nada. Um aperto começou a se formar em seu peito. Sandrinha não era de desaparecer assim, ainda mais sem dar explicação. Foi quando o telefone tocou. — Lúcia… — a voz do outro lado estava fraca, diferente. — Eu preciso de você. — Onde você está? — perguntou, já sentindo o coração acelerar. — Pode vir me encontrar? Eu… eu não consigo explicar por telefone. Lúcia não pensou duas vezes. Pegou o carro e foi. Quando chegou ao endereço que Sandrinha tinha passado, o choque foi imediato. Era uma casa simples, apertada, claramente improvisada. Sandrinha estava ali, sentada no sofá, abatida, com os olhos inchados. — O que aconteceu com você? — Lúcia perguntou, sentando-se ao lado dela. Sandrinha respirou fundo, como quem junta coragem. — Eu tô grávida. O mundo de Lúcia pareceu parar por um segundo. — Grávida? — repetiu, em choque. — Meus pais me expulsaram de casa — Sandrinha continuou, a voz embargada. — Disseram que eu tinha envergonhado a família. Me mandaram embora. Eu tô morando aqui, na casa das minhas primas… mas não é vida, Lúcia. Lúcia sentiu o coração apertar. — Meu Deus, Sandrinha… — ela segurou a mão da amiga. — Você não merece isso. Sandrinha desviou o olhar. — Tem mais uma coisa — disse, em tom baixo. — Eu não quero esse bebê. Lúcia sentiu como se alguém tivesse lhe dado um golpe no peito. — Como assim? — perguntou, com cuidado. — Eu não tô preparada. Não quero ser mãe. Não agora, não assim. Esse bebê não é pra mim. O silêncio se instalou entre as duas. Lúcia sentiu algo diferente naquele instante. Um sentimento que não era só tristeza ou indignação. Era algo mais profundo, quase instintivo. Um aperto no coração, misturado com uma certeza estranha. Ela respirou fundo. — Então… — começou devagar — se você não quer… eu quero. Sandrinha arregalou os olhos. — O quê? — Eu fico com esse bebê — Lúcia disse, firme. — Eu dou um jeito. Você não vai cuidar, mas eu cuido. Não vou deixar essa criança sem amor. Sandrinha começou a chorar. — Lúcia, você tá falando sério? — Tô — respondeu, sem hesitar. — Muito sério. As duas conversaram por horas. Choraram. Pensaram. Tentaram imaginar caminhos. No fim, chegaram a um acordo silencioso, pesado, mas claro. Sandrinha levaria a gravidez até o fim. Lúcia ficaria com o bebê. — Você precisa contar pros seus pais — Sandrinha sugeriu, enxugando o rosto. — Diz que tá grávida. Lúcia engoliu em seco. — Eu sei… — respondeu. — Mas antes eu preciso falar com o Adrian. O medo veio forte. E se ele não aceitasse? E se ele achasse que era demais, complicado demais, cedo demais? Mas, ainda assim, ela sabia. Mesmo que ele não aceitasse, ela não voltaria atrás. Aquela decisão já estava tomada no coração dela. Quando voltou para casa, Lúcia estava em silêncio. Sentou-se na varanda, com o tereré nas mãos, olhando o horizonte sem realmente ver nada. A vida, de repente, tinha mudado de tamanho. Adrian chegou como sempre, no fim da tarde. — Você tá quieta hoje — ele disse, sentando ao lado dela. Ela respirou fundo. — Aconteceu uma coisa. Ele a olhou com atenção, imediatamente alerta. — O que foi? — Sandrinha… — começou — ela tá grávida. Os pais expulsaram ela de casa. Adrian franziu a testa, surpreso. — Meu Deus… — E tem mais — Lúcia continuou, sentindo a voz tremer. — Ela não quer o bebê. E eu… eu decidi ficar com ele. O silêncio foi pesado. Adrian ficou parado, tentando entender. — Você… quer dizer… assumir a criança? — Sim — ela respondeu, com firmeza. — Não é agora, não é amanhã. Mas quando nascer, eu vou ser responsável por ele. Ele passou a mão no rosto, respirando fundo. Não era choque. Era impacto. Mas, olhando para ela, para aquele olhar decidido, Adrian entendeu algo importante: Lúcia não estava pedindo permissão. Estava compartilhando uma decisão. — Você tem medo de eu não aceitar? — ele perguntou, com suavidade. Ela assentiu. — Tenho. Adrian segurou as mãos dela. — Lúcia… — disse devagar — eu não sei tudo agora. Não sei como vai ser. Mas eu sei de uma coisa: eu te amo. E isso não muda. Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Você não precisa decidir nada hoje — ele completou. — Mas eu tô aqui. Com você. Ela sorriu, chorando. Naquele momento, nenhum dos dois sabia que aquele era apenas o começo de algo muito maior do que imaginavam. Amor. Escolhas. Responsabilidade. E um destino que já tinha decidido cruzar as vidas deles de uma forma definitiva. A semana tinha sido arrastada. Mas aquele dia mudaria tudo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR