"Talvez esse seja o segredo. Não é o que fazemos, mas o motivo pelo qual fazemos." – Tyrion Lannister
Quando sentimos medo, o primeiro instinto humano é fugir. Mas isso nos torna covardes?
Quando algo r**m acontece, buscamos um culpado. Acusamos o outro. Mas... e se o culpado formos nós?
Jungkook se sente um covarde por ter sentido medo, por ter "fugido". Mas, na verdade, ele não foge. Ele faz os outros correrem. Ainda assim, sente culpa. Culpa por ter visto aquele lobo chorar. Mais ainda: culpa por perceber que feriu a família da criatura. Uma criatura considerada abominável por muitos... mas não por Jeon.
Para ele, aquele ser é a mais majestosa e bela forma de vida que já viu. Seria hipocrisia dizer que não teve medo. Ele teve. Porque é humano.
Seu bando também nunca sentiu tanto medo. Nunca teve vontade de correr. Eles são guerreiros. Lutam por um mundo melhor. Um mundo onde ômegas sejam respeitados, onde alfas não sejam arrogantes. Eles lutam por igualdade. Por dignidade.
— Eu... eu... aquilo é um monstro? — perguntou Lisa, visivelmente nervosa.
Jungkook não soube explicar a sensação, mas odiou ouvir aquela palavra.
— Ele matou um homem com um único golpe... e depois o devorou. — disse Yoongi, ainda perplexo.
— Qual é o nosso lema? — perguntou Jungkook, com a voz levemente irritada.
— Lutar por todos, lutar por nós e, acima de tudo, proteger a família. — responderam todos em uníssono, ainda dentro do carro, a caminho da mansão.
— Então por que acham que com ele seria diferente? Invadimos seu território. Um dos capangas de Kai feriu um dos lobos. Ele estava apenas... protegendo sua família.
— Por que está defendendo aquela aberração? — questionou Namjoon, sem esconder a raiva.
— Porque, independentemente do que ele seja... é uma vida. Uma vida tentando sobreviver neste mundo. Uma vida lutando para proteger o que tem. Por que vocês se acham tão diferentes? Só porque somos humanos? — respondeu Jeon, agora visivelmente irritado. — Não somos diferentes. Matamos qualquer um que entre no nosso caminho.
O silêncio caiu sobre o carro.
Na mansão, Jungkook subiu as escadas com passos firmes, indo direto ao seu quarto. Sua mente estava em conflito. Como poderia existir uma criatura como aquela? E por que usava latim? Tantas perguntas. Mas uma coisa não saía de sua cabeça: Kim Taehyung.
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A pergunta que ecoa entre a população: o que acontece na floresta?
Ninguém entra na *Silvae Metu* — ou, como é mais conhecida, a Floresta do Medo.
Lendas falam sobre um demônio devorador de almas. Dizem que ele atrai suas vítimas usando seus próprios desejos como isca. Para muitos, não passa de histórias criadas para afastar curiosos — ou assustar crianças desobedientes.
No coração da floresta há uma cachoeira. Ao lado dela, uma pedra imensa em forma de trono, de onde se pode ver boa parte da floresta. Mais ao fundo, uma casa abandonada. Um refúgio para os lobos em dias de chuva.
Kim Taehyung. Conhecido como o rei dos reis. Um ser temido e reverenciado por todos na floresta. Metade lobo, metade homem — um lobisomem.
— Parce mihi (me perdoe) — sussurrou Kim, ajoelhado diante do filhote ferido.
Mesmo sem palavras, o pequeno lobo compreendia a dor de seu rei.
Taehyung se sentia culpado. Jurou protegê-los — de tudo, especialmente dos humanos, que para ele são a verdadeira ameaça.
O ferimento era grave. O pequeno havia perdido muito sangue. Kim pensou em ir até a cidade buscar ajuda, mas estava isolado há anos. Sem dinheiro. Sem vínculos. Para ele, a cidade era o território humano.
Então ele ouviu.
— Lobo... Lobo! — gritos à distância, facilmente detectados pela sua audição apurada.
Taehyung deixou o filhote sob os cuidados dos demais lobos, ordenando que o protegessem. Seu lado animal dominava, e com ele, a capacidade de se comunicar com sua espécie.
Correu. Rápido. Mas ao se aproximar da origem do som, começou a andar devagar. O humano estava sozinho. E, curiosamente, ele... não parecia perigoso.
— Eu... eu me senti culpado. Então trouxe isso. — disse Jungkook, estendendo uma maleta de primeiros socorros. — Desculpa por ter envolvido sua família.
— Não se preocupe, humano. — respondeu Taehyung, sentando-se à sua frente. A diferença de tamanho entre os dois era absurda.
— Jeon Jungkook. Meu nome. — disse com voz calma. — Eu quero te ajudar. Sei como se sentiu. Me deixa te ajudar?
— Humanos não são bem-vindos. Sempre nos veem como ameaça. — rosnou o lobo. — Vocês são uma desgraça na minha vida.
— Eu estou sozinho. Não quero que ninguém se machuque por minha causa. Só... me deixa ajudar. — insistiu Jeon, aproximando-se.
Taehyung não sabia como reagir. Pela primeira vez, alguém não sentia medo dele. Pela primeira vez, ele não se sentia ameaçado por um humano. E isso... o deixava pensativo.
— Eu sei o que você é. Sei de quase tudo. Só me deixa ajudar.
Taehyung ficou surpreso. “Se sabe o que sou, por que ainda está aqui?” — pensou.
— Tudo bem. Me prove que és um humano digno. E depositarei minha confiança em ti. — disse, encarando-o. Jeon sorriu. Um sorriso que fez o coração do lobo acelerar. — Me siga. Mas saiba: se fizeres m*l à minha família, tua sentença será a morte.
— Sim, senhor. — respondeu Jeon com leveza, quase brincando.
Taehyung ainda não sabia se estava certo em levar aquele humano para perto de sua família. Talvez se arrependesse... ou talvez não. Mas faria qualquer coisa por aqueles que ama. Até quebrar suas próprias regras.