Bondade

1134 Palavras
"O cérebro das pessoas para de funcionar quando pensam que vão perder alguém que amam." – Dr. House Taehyung não sabia descrever o desespero que sentia. Ou melhor, sabia sim. Conhecia bem o medo de perder, o medo de errar, de decepcionar sua alcatéia. Já sentiu na pele o que é perder tudo. A sensação de desespero o corroía por dentro. Mas havia uma esperança — mesmo que isso significasse quebrar suas próprias regras. Jeon Jungkook. Aquele que poderia salvar seu “filhote”. Ainda assim... seria certo levar outro humano à sua casa, além de Jennie? Jennie era uma ômega. A única amiga humana de Taehyung. A única que aceitava sua verdadeira natureza. A única que nunca o viu como uma aberração. — Permaneça ao meu lado. Não se preocupe, eu irei protegê-lo — disse o grande lobo, caminhando com passos lentos para que Jeon pudesse acompanhar. — Eu confio em você — respondeu Jeon. No mesmo instante, Taehyung parou. Olhou para o humano ao seu lado, confuso. Como alguém da espécie que mais o odiava podia confiar nele? Era estranho... Mas, em seu coração, Kim sabia: talvez ele não fosse o monstro — talvez a verdadeira monstruosidade estivesse na humanidade. Eles se encararam. Jungkook enxergou afeto nos olhos do lobo. Taehyung, por sua vez, viu verdade nos olhos do rapaz. Continuaram a caminhar em silêncio até chegarem ao lar de Kim, onde os lobos, ao notarem a presença de um humano, rosnaram em alerta. — *Nolite ergo solliciti esse, adiuva nos homo factum est. Crede.* (Não se preocupem. O humano veio para nos ajudar. Confiem em mim.) — disse o lobo em latim. No mesmo instante, todos os lobos se calaram. Sentaram-se diante dele, como se estivessem se curvando ao seu rei. Taehyung os tratava como filhos, irmãos... família. E eles o viam como um verdadeiro rei. Jungkook observava tudo, boquiaberto. Nunca vira algo assim. Fascinado, perguntou-se se o lendário Lupus Demone era mesmo tão poderoso quanto diziam. — Venha, cuide do meu filhote — pediu o lobo. Jeon o seguiu até o pequeno lobo ferido, que gemia de dor. Ao se aproximar, o animal se encolheu com medo. — Não vou te machucar — disse Jeon, com a voz suave. — Me desculpa... Com carinho, acariciou o lobo e começou a cuidar do ferimento, falando com doçura. Kim observava, surpreso. Nunca tinha visto um humano tratar um animal selvagem com tanta ternura. Sua mente estava confusa — mas, naquele momento, sentiu que ainda havia esperança para a humanidade. Mais tarde, Kim levou Jeon até o topo da floresta, acima da cachoeira. Sentaram-se, observando o horizonte. — Minha sincera gratidão — disse o lobo, sem desviar os olhos azuis e intensos do céu. — Só segui o que meu coração mandou — respondeu Jeon, sentindo uma vontade irresistível de acariciar aqueles pelos negros e macios. — O que você sabe sobre mim? — perguntou Kim, voltando o olhar para o humano. — Você é um lobo-demônio. Mais especificamente, um lobisomem. O último da sua espécie. Caçado pelo mundo inteiro, especialmente pelo governo. Existe uma marca em seu corpo, visível apenas em sua forma humana. É considerado um fantasma, pois ninguém o encontrou desde que era criança. Taehyung desviou o olhar, incomodado com o quanto aquele humano sabia. — Sua espécie domina o latim — continuou Jeon. — É a língua dos reis de dinastias antigas, e também a língua dos deuses, segundo dizem. Vocês se comunicam com lobos por meio dela. Uma espécie que ninguém soube explicar... Jeon fez uma pausa, o olhar triste. — ...Considerado por todos uma... — Aberração — completou Kim, com frieza. — Isso é injusto — sussurrou Jeon. — Me alimento de carne, sou agressivo... meu instinto está além da compreensão humana — disse Taehyung. — Mas sou capaz de me controlar. Parte de mim quer te rasgar com os dentes agora mesmo... Mas eu me contenho. Estou impressionado comigo mesmo. — Posso fazer uma pergunta? — perguntou Jeon. — Claro. — Você é o quê? — Como assim? — Quero dizer... você é um alfa, um ômega, ou um beta? Pesquisei tudo sobre você e em nenhum lugar há essa informação. Dizem que é inexistente... --- Jungkook Queria tanto saber. Esse lobo me fascina. Nunca me senti assim, com tanta vontade de conhecer alguém... — Não responderei — disse ele, seco. — Mas você disse que eu podia perguntar... — Eu permiti a pergunta. Não disse que responderia — disse Kim, soltando uma risada baixa. — Como você soube tanto sobre mim? — Seu nome — respondi. — Claro... meu erro — disse, me olhando. Fiquei preso naquele olhar. Meu coração acelerou. Ele me encarava e por alguns segundos — que pareceram minutos — eu só conseguia pensar no quanto ele era belo. Minha mãe contava histórias sobre o lobo demônio quando eu era pequeno. Ela dizia: "As pessoas diferentes são as que carregam os maiores fardos. Quando encontrar um lobo demônio, trate-o como um rei." O nome dele está em cartazes de procurado no mundo inteiro, mas a foto... é de quando era uma criança de cinco ou seis anos. Uma criança absurdamente bela. Mas ninguém sabe como ele se parece hoje. — Não sente medo de mim? — perguntou Taehyung, já próximo demais de mim. Eu estava tão distraído que nem percebi que o encarava há tempo demais. — Medo? Não... você é a criatura mais linda e majestosa que já vi — falei, me aproximando mais. E então... ele lambeu meu rosto. — Desculpa... fiquei tão feliz que não me controlei — disse ele, envergonhado. Eu gargalhei. — Por que está rindo? — perguntou ele. — Você é fofo. Kim me olhou intensamente. Me aproximei e toquei seu rosto, acariciando seus pelos. Eram tão macios... — Você parece um coelho, sorrindo assim — disse ele, me fazendo corar. — Por que seu coração está tão acelerado? Você está bem? — Você consegue ouvir meu coração? — Claro. Sou o grande Lupus Demone. — disse ele, brincando. — Acho melhor você ir. Está escurecendo. A floresta fica perigosa à noite — disse, virando-se de costas. — Suba. Assim será mais rápido. Relutante, subi em suas costas. Ele correu com uma velocidade impressionante. A sensação era libertadora. O abracei com força, sentindo seu cheiro doce e reconfortante. Chegamos à entrada da floresta. — Se cuida — disse ele. — Taehyung — o chamei. Ele se virou. — Cuidado. Eles vão tentar te caçar. — Eu já previa isso. Mas, como agradecimento... sempre que precisar, grite meu nome. Eu irei aparecer — disse, desaparecendo logo em seguida entre as árvores. Uma sensação invadiu meu peito. Confiança. Estranhamente... eu confiava minha vida a ele. E isso era algo raro. Mas com Taehyung... era diferente.
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