"O cérebro das pessoas para de funcionar quando pensam que vão perder alguém que amam."
– Dr. House
Taehyung não sabia descrever o desespero que sentia. Ou melhor, sabia sim. Conhecia bem o medo de perder, o medo de errar, de decepcionar sua alcatéia. Já sentiu na pele o que é perder tudo. A sensação de desespero o corroía por dentro.
Mas havia uma esperança — mesmo que isso significasse quebrar suas próprias regras. Jeon Jungkook. Aquele que poderia salvar seu “filhote”.
Ainda assim... seria certo levar outro humano à sua casa, além de Jennie?
Jennie era uma ômega. A única amiga humana de Taehyung. A única que aceitava sua verdadeira natureza. A única que nunca o viu como uma aberração.
— Permaneça ao meu lado. Não se preocupe, eu irei protegê-lo — disse o grande lobo, caminhando com passos lentos para que Jeon pudesse acompanhar.
— Eu confio em você — respondeu Jeon.
No mesmo instante, Taehyung parou. Olhou para o humano ao seu lado, confuso.
Como alguém da espécie que mais o odiava podia confiar nele? Era estranho... Mas, em seu coração, Kim sabia: talvez ele não fosse o monstro — talvez a verdadeira monstruosidade estivesse na humanidade.
Eles se encararam. Jungkook enxergou afeto nos olhos do lobo. Taehyung, por sua vez, viu verdade nos olhos do rapaz. Continuaram a caminhar em silêncio até chegarem ao lar de Kim, onde os lobos, ao notarem a presença de um humano, rosnaram em alerta.
— *Nolite ergo solliciti esse, adiuva nos homo factum est. Crede.* (Não se preocupem. O humano veio para nos ajudar. Confiem em mim.) — disse o lobo em latim.
No mesmo instante, todos os lobos se calaram. Sentaram-se diante dele, como se estivessem se curvando ao seu rei.
Taehyung os tratava como filhos, irmãos... família. E eles o viam como um verdadeiro rei.
Jungkook observava tudo, boquiaberto. Nunca vira algo assim. Fascinado, perguntou-se se o lendário Lupus Demone era mesmo tão poderoso quanto diziam.
— Venha, cuide do meu filhote — pediu o lobo.
Jeon o seguiu até o pequeno lobo ferido, que gemia de dor. Ao se aproximar, o animal se encolheu com medo.
— Não vou te machucar — disse Jeon, com a voz suave. — Me desculpa...
Com carinho, acariciou o lobo e começou a cuidar do ferimento, falando com doçura. Kim observava, surpreso. Nunca tinha visto um humano tratar um animal selvagem com tanta ternura. Sua mente estava confusa — mas, naquele momento, sentiu que ainda havia esperança para a humanidade.
Mais tarde, Kim levou Jeon até o topo da floresta, acima da cachoeira. Sentaram-se, observando o horizonte.
— Minha sincera gratidão — disse o lobo, sem desviar os olhos azuis e intensos do céu.
— Só segui o que meu coração mandou — respondeu Jeon, sentindo uma vontade irresistível de acariciar aqueles pelos negros e macios.
— O que você sabe sobre mim? — perguntou Kim, voltando o olhar para o humano.
— Você é um lobo-demônio. Mais especificamente, um lobisomem. O último da sua espécie. Caçado pelo mundo inteiro, especialmente pelo governo.
Existe uma marca em seu corpo, visível apenas em sua forma humana. É considerado um fantasma, pois ninguém o encontrou desde que era criança.
Taehyung desviou o olhar, incomodado com o quanto aquele humano sabia.
— Sua espécie domina o latim — continuou Jeon. — É a língua dos reis de dinastias antigas, e também a língua dos deuses, segundo dizem. Vocês se comunicam com lobos por meio dela. Uma espécie que ninguém soube explicar...
Jeon fez uma pausa, o olhar triste.
— ...Considerado por todos uma...
— Aberração — completou Kim, com frieza.
— Isso é injusto — sussurrou Jeon.
— Me alimento de carne, sou agressivo... meu instinto está além da compreensão humana — disse Taehyung. — Mas sou capaz de me controlar. Parte de mim quer te rasgar com os dentes agora mesmo...
Mas eu me contenho. Estou impressionado comigo mesmo.
— Posso fazer uma pergunta? — perguntou Jeon.
— Claro.
— Você é o quê?
— Como assim?
— Quero dizer... você é um alfa, um ômega, ou um beta? Pesquisei tudo sobre você e em nenhum lugar há essa informação. Dizem que é inexistente...
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Jungkook
Queria tanto saber. Esse lobo me fascina. Nunca me senti assim, com tanta vontade de conhecer alguém...
— Não responderei — disse ele, seco.
— Mas você disse que eu podia perguntar...
— Eu permiti a pergunta. Não disse que responderia — disse Kim, soltando uma risada baixa. — Como você soube tanto sobre mim?
— Seu nome — respondi.
— Claro... meu erro — disse, me olhando. Fiquei preso naquele olhar. Meu coração acelerou.
Ele me encarava e por alguns segundos — que pareceram minutos — eu só conseguia pensar no quanto ele era belo.
Minha mãe contava histórias sobre o lobo demônio quando eu era pequeno. Ela dizia: "As pessoas diferentes são as que carregam os maiores fardos. Quando encontrar um lobo demônio, trate-o como um rei."
O nome dele está em cartazes de procurado no mundo inteiro, mas a foto... é de quando era uma criança de cinco ou seis anos. Uma criança absurdamente bela. Mas ninguém sabe como ele se parece hoje.
— Não sente medo de mim? — perguntou Taehyung, já próximo demais de mim.
Eu estava tão distraído que nem percebi que o encarava há tempo demais.
— Medo? Não... você é a criatura mais linda e majestosa que já vi — falei, me aproximando mais. E então... ele lambeu meu rosto.
— Desculpa... fiquei tão feliz que não me controlei — disse ele, envergonhado.
Eu gargalhei.
— Por que está rindo? — perguntou ele.
— Você é fofo.
Kim me olhou intensamente. Me aproximei e toquei seu rosto, acariciando seus pelos. Eram tão macios...
— Você parece um coelho, sorrindo assim — disse ele, me fazendo corar. — Por que seu coração está tão acelerado? Você está bem?
— Você consegue ouvir meu coração?
— Claro. Sou o grande Lupus Demone. — disse ele, brincando.
— Acho melhor você ir. Está escurecendo. A floresta fica perigosa à noite — disse, virando-se de costas. — Suba. Assim será mais rápido.
Relutante, subi em suas costas. Ele correu com uma velocidade impressionante. A sensação era libertadora. O abracei com força, sentindo seu cheiro doce e reconfortante. Chegamos à entrada da floresta.
— Se cuida — disse ele.
— Taehyung — o chamei. Ele se virou. — Cuidado. Eles vão tentar te caçar.
— Eu já previa isso. Mas, como agradecimento... sempre que precisar, grite meu nome. Eu irei aparecer — disse, desaparecendo logo em seguida entre as árvores.
Uma sensação invadiu meu peito.
Confiança.
Estranhamente... eu confiava minha vida a ele.
E isso era algo raro.
Mas com Taehyung... era diferente.