Pré-visualização gratuita CAPÍTULO 1 — A primeira vez
Rafael
No trigésimo dia do casamento de Vicente, o telefone tocou quando eu terminava de revisar uma petição no escritório. Na tela apareceu o nome dele, e por um instante pensei que Clara tivesse entrado em trabalho de parto, embora a barriga dela ainda m*l começasse a aparecer. Eu tinha trinta e seis anos e não atendia ligações de família antes do almoço. Atendi mesmo assim.
— Você está no fórum? — perguntou Vicente, sem cumprimento.
— Estou no escritório. O que aconteceu?
— Clara quer que você represente uma amiga. Divórcio litigioso. O marido é um dos nossos doadores do hospital, e eu acabei de receber a ligação dele. Preciso que você assuma a defesa.
— Você quer que eu represente o marido numa separação em que sua esposa indicou a outra parte? Isso parece uma ótima maneira de transformar um problema conjugal alheio em um problema familiar.
— Eu não sabia que Clara conhecia a mulher. Só aceite o caso. O sujeito está em pânico e o nome dele pode virar manchete se isso vazar.
O pedido de Vicente, vindo de um homem que tratava cada cláusula como uma ordem médica, não me surpreendeu. A surpresa foi o meu interesse. Divórcios costumavam ser previsíveis: patrimônio, ressentimento e a insistência de cada lado em parecer menos c***l que o outro. Eu preferia crimes com provas, testemunhas e consequências claras. Mas o cliente era influente, o prazo era curto e a separação envolvia uma empresa que fornecia equipamentos ao Nogueira Prime. Não havia espaço para recusar por capricho.
Às onze, eu cruzava a recepção do fórum quando a vi pela primeira vez. Lívia Leite estava perto da sala de audiência, de costas para uma janela alta, com uma pasta fina apoiada no antebraço. O cabelo castanho escuro caía liso até os ombros. Ela usava um conjunto azul-marinho sem nenhum detalhe chamativo, e ainda assim parecia mais bem vestida que metade dos advogados que circulavam por ali. Não olhava para o celular, não folheava papéis, não procurava ninguém. Apenas observava a porta da sala, como se já soubesse o que encontraria do outro lado.
Eu reconheci o sobrenome antes de reconhecer o rosto. Leite. A lembrança veio de um recorte antigo de jornal e de um processo que eu não revisava havia uma década. Afastei a associação. Havia muitos Leite em São Paulo. Não era razão suficiente para transformar uma desconhecida em fantasma.
Ela se virou quando ouviu meu nome. O olhar dela passou pelo meu terno cinza, pela gravata escura, pelo relógio. Parou nos meus olhos por uma fração de segundo a mais do que seria cortês.
— Doutor Rafael Andrade Nogueira? — perguntou.
— Depende de quem está perguntando.
— Lívia Leite. Represento a senhora Camila Torres.
Aos vinte e seis anos, ela tinha uma postura que tornava difícil associá-la à adolescente da fotografia. A mão que ela estendeu estava firme e fria. O aperto foi breve. Notei uma cicatriz fina junto ao polegar, quase escondida pela manga. Ela notou que eu a tinha notado e recolheu a mão antes que eu pudesse perguntar.
— Então você é a advogada que vai me impedir de fazer o meu trabalho — falei.
— Se o seu trabalho for esconder dinheiro e intimidar uma mulher que quer sair de um casamento, talvez.
— Você costuma decidir o que eu faço antes de ler a petição?
— Eu li. A petição não menciona as contas em Miami.
A resposta me fez interromper o passo. Ela não tinha levantado a voz, nem adotado aquele tom indignado que alguns advogados confundiam com firmeza. Apenas apresentou um fato como quem coloca uma peça exata sobre a mesa. Gostei disso contra a minha vontade.
— As contas são da empresa — respondi.
— A empresa foi aberta durante o casamento e recebeu dinheiro dela. A senhora Torres não assinou um acordo pré-nupcial que excluísse os bens. Isso também está nos documentos.
— Você teve acesso a um balanço que ainda não foi juntado?
— Meu cliente era diretora financeira. Tenho documentos que sustentam o pedido de tutela. E, antes que pergunte, vou protocolá-los hoje.
— Seu cliente é uma mulher. As mulheres costumam saber onde os maridos escondem as coisas.
— Você acha que isso é engraçado?
— Acho eficiente.
Ela não sorriu. Eu deveria ter deixado a conversa ali, mas alguma coisa na calma dela me provocava. O tipo de calma que não nasce de ingenuidade, e sim de alguém que já sobreviveu a situações piores que uma audiência.
— Espero que tenha mais do que um extrato e uma suspeita — falei.
— E eu espero que você tenha uma defesa melhor do que chamar o patrimônio conjugal de caixa da empresa.
A porta da sala se abriu. O cliente que eu representaria saiu acompanhado de um advogado interno, pálido e nervoso. Augusto Vilar, empresário de equipamentos hospitalares, cumprimentou-me como se o aperto de mão pudesse comprar uma sentença. Atrás dele, uma mulher de vestido simples, com os olhos vermelhos, levantou-se. Camila Torres. Lívia ficou ao lado dela, sem tocá-la, mas inclinando-se para ouvir quando a mulher sussurrou algo.
— Vamos começar — disse a conciliadora.
Na sala, eu apresentei a situação como uma disputa comercial decorrente da separação, evitando a palavra ocultação. Vilar repetiu que as contas em Miami pertenciam à empresa e que a esposa tinha acesso a tudo. Lívia não interrompeu. Anotava. Quando chegou a vez dela, pediu uma medida cautelar para impedir a transferência de ativos e apresentou três comprovantes de remessas feitas depois que Camila comunicou a intenção de se separar.
— Essas transferências não provam apropriação — eu disse.
— Não isoladamente — respondeu Lívia. — Mas o senhor Vilar fez duas delas para a conta de uma sociedade registrada em nome da irmã dele. A terceira foi autorizada na mesma manhã em que a senhora Torres perdeu acesso ao sistema financeiro da empresa.
— A senhora Torres foi afastada por decisão do conselho.
— Do conselho que o senhor Vilar controla.
A conciliadora pediu que ambos mantivéssemos a objetividade. Eu mantive. Lívia também. A diferença era que os fatos dela se encaixavam uns nos outros. Meu cliente respondeu às perguntas com excesso de confiança, e em duas ocasiões corrigiu a própria versão. O pedido de liminar não era inevitável, mas a narrativa dela tornava difícil recusá-lo sem uma análise documental completa.
Quando o juiz entrou, a audiência deixou de ser preliminar. Ele pediu que cada lado resumisse a urgência. Eu falei por cinco minutos. Lívia usou menos de três. Não levantou a voz nem fez uma acusação dramática. Explicou as transferências, mostrou os horários e pediu somente a preservação dos ativos até que as contas fossem periciadas. Era uma medida proporcional. E era, para meu cliente, uma derrota imediata.
O juiz deferiu a tutela parcial. As contas ficariam bloqueadas para novas movimentações por setenta e duas horas, e Vilar deveria apresentar os extratos completos. Não era a vitória final de ninguém, mas Lívia tinha conseguido impedir a transferência que eu tinha passado a manhã tentando descrever como uma operação rotineira.
No corredor, Vilar me perguntou se eu pretendia recorrer. Eu disse que primeiro precisava entender por que ele havia omitido a sociedade da irmã. A expressão dele respondeu antes da boca.
Lívia guardava os documentos. Camila abraçou-a, emocionada. Lívia aceitou o abraço por um segundo e depois ajeitou a alça da bolsa no ombro da cliente, um gesto discreto, cuidadoso, como se a firmeza dela não a impedisse de perceber que a outra mulher tremia.
Eu devia ter ido embora. Em vez disso, esperei que Camila se afastasse.
— Você sabia que ele faria isso? — perguntei.
— Sabia que havia uma chance.
— E preparou o pedido antes da audiência.
— Eu preparo o que pode ser necessário.
— Isso é prudência ou falta de confiança nos seus clientes?
— É experiência.
A palavra saiu sem peso, mas alguma coisa mudou no rosto dela. Não era tristeza. Era uma porta fechada com cuidado.
— Você sempre é tão econômica com as respostas? — perguntei.
— Só quando a pergunta não merece uma longa.
— Então vou tentar uma melhor. Você está disponível para um café?
— Não.
— Nem sequer perguntou por quê.
— Você é o advogado do homem que acabou de tentar tirar dinheiro da minha cliente. Não preciso de mais informações.
Ela passou por mim. Um perfume leve, cítrico, ficou no ar por um instante. Eu acompanhei sua saída com os olhos, irritado comigo mesmo por ter percebido. O meu cliente ainda estava esperando explicações e o processo ia exigir horas de trabalho. Mesmo assim, a única coisa que me interessava era a sensação incômoda de ter encontrado alguém que não recuava diante do meu nome.
Naquela noite, abri o processo de novo. Li as peças de Lívia, conferi cada anexo e descobri que ela não tinha cometido nenhum erro. Na última página, havia o endereço profissional dela: Andrade & Associados? Não. Um escritório pequeno, no centro, a alguns quarteirões do nosso. O sobrenome Leite continuava preso à minha atenção como uma palavra que eu tentava esquecer.
Meu celular vibrou com uma mensagem de Vicente: “Ouvi dizer que a advogada da outra parte te deu trabalho.”
Respondi: “Ela teve sorte.”
A mentira ficou na tela por alguns segundos. Então apaguei a mensagem antes de enviar. Digitei outra: “Ela sabe o que está fazendo.”
Vicente respondeu com um simples sinal de positivo. Eu voltei ao processo, embora já conhecesse cada página. Por volta da meia-noite, encontrei no cadastro da cliente de Lívia um detalhe que não deveria significar nada: a advogada era filha de Renato Leite, o empresário cuja queda tinha encerrado uma das fases mais difíceis da minha carreira.
Fiquei olhando para o nome, e a lembrança que eu mantinha enterrada ganhou contornos nítidos. Amanhã eu descobriria se era coincidência. Ou se Lívia Leite tinha acabado de entrar na minha vida por uma razão que eu não podia controlar.