Capítulo 2

462 Palavras
Hoje, eu tenho trinta e dois anos. E, ironicamente… sobreviver à tempestade não foi a parte mais difícil da minha vida. Meu nome é Simon. E eu sou um homem… que aprendeu a viver com o pouco. Trabalho em um mercado desde os dezoito anos. Salário simples. Vida simples. Eu nunca me importei com isso. Pra mim… o suficiente sempre foi suficiente. Mas pra Mariana… nunca foi. — Isso não é vida, Simon. A voz dela ainda ecoa na minha cabeça, mesmo quando ela não está falando. — A gente vive como? Contando moeda? Se apertando? Isso é ridículo! Eu fiquei em silêncio, sentado à mesa pequena da cozinha, olhando pra comida simples que eu tinha acabado de preparar depois de chegar do trabalho. Eu estava cansado. Muito. Tinha saído do mercado direto pra uma entrega, depois ajudei num serviço de limpeza… tudo pra completar a renda. Tudo por nós. — Eu tô tentando, Mariana… falei baixo. Ela riu. Mas não foi um riso leve. Foi um riso que machuca. — Tentando? Isso aqui é você tentando? Porque pra mim parece que você se acomodou nessa vida miserável. Aquilo doeu. Mas não era a primeira vez. Nem a última. — A gente tem comida… tem uma casa… eu tentei. — Isso não é vida! ela me cortou. Eu quero mais, Simon! Eu mereço mais! Eu abaixei o olhar. Porque, no fundo… eu sempre achei que ela estava certa. Talvez eu não fosse suficiente. Talvez eu nunca fosse. Mesmo assim… eu amava ela. Amava de um jeito que doía. Amava mesmo quando ela me afastava. Mesmo quando ela recusava meu toque… mesmo quando, à noite, eu me virava na cama tentando não demonstrar o quanto aquilo me machucava. Eu só queria… carinho. Só queria ser visto. Uma noite, eu criei coragem. — Mariana… chamei, deitado ao lado dela. — O que foi ?,respondeu seca. — A gente podia… tentar ter um filho. O silêncio que veio depois… foi pior que qualquer resposta. Ela virou o rosto devagar e me encarou como se eu tivesse dito a maior besteira do mundo. — Você só pode estar brincando. Meu peito apertou. — Eu não tô… Ela soltou um riso curto, frio. — Eu não vou trazer uma criança pra essa vida miserável, Simon. Eu não sou louca. Aquilo… aquilo me quebrou. Eu virei o rosto, tentando esconder… mas já era tarde. As lágrimas vieram. Silenciosas. Pesadas. — Eu só queria… uma família . minha voz saiu falha. — Então melhora de vida primeiro. Simples assim. Pra ela… era simples. Naquela noite, eu não dormi. E, pela primeira vez em muito tempo… eu pensei nela de novo. Na garota da tempestade. Na única pessoa que, mesmo por poucos minutos… me olhou como se eu fosse suficiente.
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