Eu aprendi a medir o clima da casa pelo som da chave girando na porta.
Se entrava devagar… era um dia comum.
Se batia forte… eu já sabia que vinha tempestade.
Naquela noite…
veio pior.
A porta abriu com força, batendo na parede. Eu estava na cozinha, terminando de lavar a louça depois de mais um dia longo. Minhas mãos ainda doíam do trabalho no mercado… e do serviço extra carregando caixas.
— Cheguei ela disse, jogando a bolsa no sofá.
Eu respirei fundo antes de responder.
— Oi… eu fiz jantar.
— Eu não tô com fome.
Eu olhei pra mesa.
Prato pronto. Comida ainda quente.
— Você não comeu nada o dia inteiro…
— E daí? ela me cortou, seca, já tirando o salto com irritação. Eu não sou obrigada.
Fiquei em silêncio.
Não era sobre a comida.
Nunca era.
Ela entrou no quarto e voltou alguns segundos depois com o celular na mão.
— Olha isso aqui.
Eu me aproximei.
Era o perfil de uma influenciadora. Roupas caras. Viagens. Luxo.
— Tá vendo isso? ela disse, passando as fotos com rapidez. É isso que eu queria pra minha vida.
Eu engoli seco.
— É bonito… mas nem tudo que parece…
— Para, Simon. ela revirou os olhos. Para com esse discurso de gente conformada.
Aquilo bateu mais forte do que eu queria admitir.
— Eu não sou conformado… eu só…
— Só aceita pouco! — ela levantou a voz. Você acha normal viver assim? Essa casa apertada, essa vida medíocre?
Eu olhei em volta.
Era simples.
Mas era limpo. Organizado. Nosso.
Ou… pelo menos, eu achava que era.
Eu tô fazendo o que posso falei, tentando manter a calma. Eu trabalho o dia inteiro… faço extra…
Ela riu de novo.
Aquele riso.
— E ainda assim não sai do lugar. Impressionante.
As palavras dela ficavam.
Elas sempre ficavam.
Mesmo depois que o silêncio voltava… elas continuavam ali, rodando na minha cabeça.
Você não é suficiente.
Você não consegue.
Você nunca vai conseguir.
Dias depois…
eu cheguei mais cedo em casa.
Raro.
Tinha conseguido sair antes do mercado e pensei… talvez… fazer algo diferente.
Passei na padaria, comprei o doce que ela gostava.
Fiquei um tempo na porta… respirando fundo, como se precisasse de coragem pra entrar na própria casa.
Quando entrei… ouvi vozes.
Ela estava no telefone.
— Porque, sinceramente? ela dizia, rindo. Eu me sinto presa. Presa com alguém que não sai do lugar.
Eu congelei.
— Não, amiga… ele é bom. Bonzinho até demais. Mas homem assim… você sabe, né? Não cresce.
Meu peito apertou de um jeito que eu não soube explicar.
Eu podia ter feito barulho.
Podia ter avisado que cheguei.
Mas eu fiquei ali.
Ouvindo.
— Eu quero alguém que me leve pra frente, não alguém que eu tenha que puxar.
Aquilo…
aquilo doeu mais do que qualquer coisa que ela já tinha dito na minha cara.
Porque ali… ela não estava brigando.
Ela estava sendo sincera.
Eu deixei o doce na mesa.
Sem dizer nada.
Naquela noite, tentei me aproximar dela.
Não por obrigação.
Por saudade.
Eu deitei ao lado dela, devagar, passando a mão pelo braço dela com cuidado.
— Mariana…
Ela não respondeu.
— Eu senti sua falta hoje…
Ela suspirou, impaciente.
— Simon… eu tô cansada.
Minha mão parou.
— Eu também tô…
— Então dorme ela respondeu, virando de costas.
Simples.
Frio.
Distante.
Eu fiquei ali, olhando pro teto escuro.
Sentindo o vazio do espaço entre a gente.
Um espaço pequeno… mas impossível de atravessar.
No dia seguinte, eu acordei mais cedo que o normal.
Não porque precisava.
Mas porque não consegui dormir direito.
Fui pra cozinha, fiz café, deixei tudo pronto pra ela.
Era assim que eu tentava.
Nos detalhes.
No silêncio.
Na esperança de que… talvez… algum dia ela visse.
Mas naquele dia…
ela viu outra coisa.
— O que é isso? ela perguntou, segurando um papel.
Eu olhei.
Era uma conta.
Atrasada.
Eu tinha escolhido pagar outra primeiro. Não dava pra pagar tudo.
— Eu ia resolver isso essa semana…
— Ia? ela riu, incrédula. Você vive de “ia”, Simon.
— Eu tô dando um jeito
— Não tá! ela levantou a voz. Você nunca dá!
O silêncio que veio depois foi pesado.
— Eu não aguento mais isso .ela disse, mais baixo dessa vez. Eu não aguento mais viver assim.
Meu coração acelerou.
— O que você quer dizer com isso?
Ela me encarou.
Fria.
Distante.
— Eu quero uma vida melhor.
Eu senti.
Alguma coisa ali… estava quebrando de verdade.
— E eu não sei se você consegue me dar isso.
Aquilo ficou.
Mais do que qualquer briga.
Mais do que qualquer palavra.
Porque, pela primeira vez…
pareceu que ela já estava indo embora.
Mesmo ainda estando ali.
E, naquele momento…
eu pensei nela de novo.
Na garota da tempestade.
Na única lembrança…
que não me fazia sentir pequeno.