Capítulo 4

722 Palavras
Eu demorei pra perceber quando foi que parei de me reconhecer. Talvez tenha sido aos poucos… um dia depois do outro… cedendo, tentando, insistindo… até não sobrar quase nada de mim. Mas naquele dia… eu senti. A casa dos meus pais ainda era a mesma. Simples. Pequena. Cheia de lembranças. O portão fez o mesmo barulho de sempre quando eu empurrei. A varanda… a cadeira de madeira… o cheiro de café vindo de dentro. Por um segundo… eu pensei em ir embora. Porque, no fundo, eu sabia. Se eu entrasse ali… eu não ia conseguir segurar. — Simon? A voz da minha mãe veio da cozinha, surpresa. — Filho, você não avisou que vinha! Eu tentei sorrir. Juro que tentei. Mas não consegui. Ela percebeu na hora. Mãe sempre percebe. — O que foi? ela perguntou, vindo na minha direção, já com aquela preocupação no olhar. Eu balancei a cabeça. — Nada… eu só… vim ver vocês. Mentira. Mal contada. Ela não acreditou. Nunca acreditava quando eu dizia que estava tudo bem. — Vem cá. Ela não perguntou mais nada. Só abriu os braços. E foi ali… que eu desmoronei. Eu não lembro quando comecei a chorar. Só lembro que não consegui parar. O choro veio pesado, preso, como se estivesse guardado há tempo demais. Eu me curvei, segurando na blusa dela como se fosse a única coisa me mantendo de pé. — Ei… ei, meu filho… ela sussurrava, passando a mão na minha cabeça como fazia quando eu era criança. o que tá acontecendo? Eu tentei falar. Mas minha voz falhou. — Eu… eu não sei mais… Aquilo saiu quebrado. Fraco. — Eu não sei mais o que fazer, mãe… Ela me afastou um pouco, segurando meu rosto com as duas mãos. — É a Mariana? Eu fechei os olhos. E isso já foi resposta suficiente. — Eu tô tentando tanto… minha voz tremia. eu juro que tô tentando… — Eu sei que tá, filho… — Eu trabalho o dia inteiro… faço extra… deixo de dormir… faço de tudo pra dar uma vida melhor pra ela… Minha respiração falhou. — E nunca é suficiente. Silêncio. Pesado. Dolorido. — Nunca… repeti, mais baixo. As lágrimas continuavam caindo. — Ela olha pra mim como se eu fosse… nada. Minha mãe apertou meus ombros. — Não fala isso — Mas é assim que eu me sinto! eu interrompi, sem conseguir segurar. Eu me sinto pequeno… inútil… como se tudo que eu faço não tivesse valor nenhum! A casa ficou em silêncio. Só o som da minha respiração falhando… e do meu choro. — Eu amo ela, mãe… Aquilo doeu de dizer. — Eu amo tanto que… eu continuo tentando… mesmo quando dói… mesmo quando ela me afasta… mesmo quando ela me trata como se eu não fosse suficiente… Minha voz quebrou de novo. — Eu só queria que ela me olhasse… só isso… Um pedido simples. Mas parecia impossível. Meu pai apareceu na porta naquele momento. Ele não falou nada de início. Só ficou ali… observando. — Ela recusou ter um filho comigo… falei, quase num sussurro. O olhar dele mudou. — Disse que não ia trazer uma criança pra essa “vida miserável”. Minha mãe levou a mão à boca, sentindo o golpe junto comigo. — Eu só queria… uma família… falei, já sem força. algo nosso… algo que fosse bom… Silêncio. Meu pai deu alguns passos até mim. — Filho… A voz dele era firme. Calma. — Amor não é isso. Eu levantei o olhar, confuso. — Amor não te diminui desse jeito. Aquilo me atingiu direto. — Amor não te faz se sentir insuficiente todos os dias. Eu engoli seco. Porque, no fundo… eu sabia. Sempre soube. — Então por que eu não consigo ir embora? — perguntei, quase implorando por uma resposta. Ninguém respondeu na hora. Porque não tinha resposta fácil. Minha mãe segurou meu rosto de novo. — Porque você ama . ela disse, com carinho.mas, às vezes… amar alguém não é o suficiente pra fazer dar certo. As palavras dela foram suaves. Mas pesadas. Eu abaixei a cabeça. Cansado. Vazio. — Eu só queria ser suficiente pra alguém… falei, quase sem voz. E, sem querer… ela veio na minha mente de novo. A garota da tempestade. A única que me olhou… como se eu já fosse.
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